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“Esta guerra também é nossa.” O português que está a percorrer a Ucrânia de bicicleta

Manuel Montes, ex-militar dos comandos, está a pedalar pelo país há mais de três meses. Ouvir as sirenes já se tornou parte do dia-a-dia.
Tem 33 anos.

A primeira vez que Manuel Montes, de 33 anos, ouviu soar as sirenes na Ucrânia, já andava a pedalar pelo país há cerca de uma semana. Ficou alerta, esperava ouvir o bombardeamento iminente. O som das explosões não chegou a ecoar e pensou ter sido um falso alarme. Estava enganado.

O pior só não aconteceu, daquela vez, porque os rockets foram neutralizados pelo sistema de defesa aérea ucraniano. “A primeira vez que as ouvi foi complicado, um sentimento muito estranho. Depois comecei a ouvir mais vezes, tanto sirenes como bombardeamentos, quase já se tornou normal”, começa por contar à NiT o ex-militar do Comando do Exército Português, também conhecido nas redes sociais como Vagamundo. 

Quando decidiu deixar o exército, em 2015, admite que “precisava de abrir a mente e de conhecer algo diferente”. Após seis anos a trabalhar nos comandos, trocou a farda por uma bicicleta, que ficou batizada como “Liberdade”, e tornou-se a sua companheira para a vida. 

Com uma enorme vontade de “conhecer o mundo com os próprios olhos” e “mudar de vida”, começou a viajar sobre duas rodas. Já desbravou mais de 40 países, “com calma e devagar”. “A bicicleta era o meio mais lento de viajar, tenha autonomia a 100 por cento, levanto-me quando quero e vou-me embora quando quero, sem estar dependente de transportes”, confessa o viajante de Serpa.

Uma das aventuras mais recentes começou no dia 26 de novembro, quando partiu de Portugal e apanhou a primeira boleia. De camião em camião, atravessou Espanha, França, Eslováquia e Hungria, entre outros países, até chegar à Ucrânia, 15 dias depois. 

“Porquê a Ucrânia, se está em guerra?”, era a pergunta que todos faziam. “É precisamente por isso”, respondia.

 
 
 
 
 
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“Esta é uma guerra que também é nossa, mas sentia que já não se falava tanto. Queria tentar fazer alguma coisa, mostrar que esta guerra continua e mostrar que os ucranianos são pessoas afáveis, amorosas e espetaculares, que merecem todo o nosso apoio”, diz.

Ao contrário do que pensava, assim que chegou ao país foi “uma lufada de ar fresco”. Após sair da Hungria, onde as pessoas “eram um pouco rudes”, encontrou, assim que atravessou a fronteira, quem o recebesse de braços abertos e com um sorriso na cara. “Foi um choque, mas pela positiva”, garante.

Já lá está há cerca de três meses e a rotina não muda muito. Costuma acordar por volta das 9 horas, começa a pedalar e termina a jornada por volta das 15 ou 18 horas, o mais tardar. Por norma, anda cerca de 50 quilómetros diários — o máximo foi 80 —, mas há dias que dá descanso à bicicleta (e às pernas também) para estar mais em contacto com as pessoas locais. 

A primeira cidade que conheceu foi Vynohradiv, mas já passou por Solotvyno, Rakiv, Ivano-Frankivs’k, Ternopil e Kiev, onde permaneceu três semanas. No início estava afastado da zona onde a guerra está mais ativa, no leste do país, o que não significa que não tenha apanhado vários sustos. Num dos dias, 90 mísseis foram lançados e três conseguiram atingir a capital. “É esta a nova realidade”, diz.

A 2 de janeiro, assistiu a um dos maiores ataques a Kiev da história desta guerra. Por volta das oito da manhã, acabado de acordar no hostel onde estava hospedado, já tinha ouvido uns 17 rebentamentos. “Estamos quatro pessoas, ninguém fala, olhamos uns para os outros e comunicamos com o elevar das sobrancelhas. Como se a única solução fosse esperar que a morte venha e não nos leve”, escreveu numa das publicações do Instagram.

“Uma das situações mais perigosas foi quando rebentou um míssil a pouco menos de um quilómetros de uma estação de metro. Foi um estrondo, tremeu tudo, mas tive várias desse género”, conta à NiT: 

Num dos dias, recorda-se de estar a pedalar com “as condições mais extremas”, com rajadas de vento e neve que “pareciam agulha na cara” e de só ver praticamente viaturas com militares, desde carros de emergência médica a tanques de guerra. Na altura, estava prestes a chegar a Kharkiv, cidade onde “se sentia a tensão como nunca”. Perguntavam-lhe se era turista, dizia que sim, e a resposta era sempre a mesma: “Não tens medo da guerra?”. Não tinha.

Mais do que ouvir as sirenes e de sentir o silêncio que abate o país após mais um ataque aéreo, Manuel confessa que isso não é tudo o que leva desta viagem. Para o viajante, o mais importante sempre será as pessoas. Mesmo com tudo o que está a acontecer, sem saberem como será o amanhã, “conseguem ter tanto amor para dar”.

“Tenho sido bem recebido em todo o lado. As avós, como chamamos às pessoas mais velhas, muitas vezes dão-me casa e comida”, diz. Já foi convidado, muitas vezes, para pernoitar nas suas casas, quando não tem nenhum hostel marcado. 

Poucos falam inglês, mas nem isso o impede de conversar com os ucranianos. “Costumo usar o Google Tradutor. Conto-lhes a minha história e eles contam-me a deles. A maioria são tristes, infelizmente.”

Ao longo destes três meses, já perdeu a conta das pessoas que conheceu pelo caminho. Recorda-se, no entanto, de um casal ucraniano que está a viver em Portugal e tem um restaurante no Algarve, mas aproveita os meses de inverno para regressar ao país que tanto adoram. 

Nunca se vai esquecer, também, do jovem que conheceu em Kiev, que o levou até casa e deu-lhe a última comida que tinha. “Perguntou-me se estava com fome e fez-me uma omelete. Depois descobri que era a última comida que tinha. Estava desempregado e ainda tentei ajudá-lo a encontrar trabalho. Paguei-lhe um hostel durante um mês e comprei-lhe comida com a ajuda dos meus seguidores”, conta.

Ou do dia em que estava de passagem por Novomoskovsk e teve a oportunidade de conhecer o presidente da cidade, Serhii Rirznik. “Conheci um rapaz que era amigo do presidente e, quando lhe contou sobre mim, quis receber-me. Contou-me a história da cidade, sobre as condições antes e depois da guerra, e disse-me que queria mudar o nome, porque Novomoskovsk significa ‘Novo Moscovo’”, conta Manuel.

Ainda nesse dia, o viajante foi com o intérprete Sasha dar um passeio pela cidade e aproveitou para visitar um grupo de pessoas que são a cara de uma organização sem fins lucrativos que ajuda veteranos de guerra.

Prestes a partir para uma nova aventura — o próximo país a conhecer é a Roménia —, Manuel confessa que vai sair da Ucrânia “com o coração cheio” e com a certeza que um dia voltará. “Mesmo estando em guerra, sentia-me em casa muitas vezes.” Afinal, Manuel viaja para “conhecer pessoas” porque “acredita na bondade do ser humano”.

Carregue na galeria para ver algumas das fotografias que o Vagamundo tem partilhado nas redes sociais.

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