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Esta ilha “assombrada” vai ser transformada num parque onde os turistas não entram

Serviu como um posto de quarentena durante a peste negra e já acolheu um hospital psiquiátrico. Foi abandonada há 57 anos.

São muitas as histórias contadas sobre a ilha de Poveglia, na lagoa de Veneza, Itália. É precisamente por causa do seu passado sombrio que a região é considerada como “uma das mais assombradas de sempre”. No entanto, depois de quase 60 anos deixada ao abandono, isso está prestes a mudar.

Um grupo de residentes de Veneza tomou posse da ilha no passado dia 1 de agosto. A região, que até então pertencia ao governo italiano, está agora sujeita ao abrigo de um contrato de arrendamento de 99 anos entre o estado e os novos proprietários. O objetivo é transformá-la num parque urbano aberto apenas aos residentes daquela cidade italiana, segundo avançou a “CNN Travel”.

Poveglia tinha sido colocada em leilão em 2014, o que atraiu a atenção de vários promotores imobiliários. Com receio que a ilha acabasse por ser comprada por uma empresa privada, a italiana Patrizia Veclani decidiu criar um grupo, o Poveglia per Tutti (Poveglia para Todos), para a “salvar”.

Juntos, os 4.500 membros juntaram 460 mil euros e conseguiram avançar com o novo contrato. “Não foi apenas indignação, foi psicologicamente traumático perceber que a região podia ser desmembrada e vendida à maior licitação, sem um preço inicial, sem sequer um plano. É como se Roma decidisse vender a Fontana di Trevi. Veneza e a sua Lagoa são uma só, inseparáveis”, disse Patrizia num fórum citado pelo jornal.

Da peste negra a um hospital psiquiátrico

Por outro lado, apesar de a ilha ter hoje um projeto em andamento, a sua história continua a ser uma das mais sombrias na região. Os primeiros relatos históricos de Poveglia surgem em documentos do ano 421 depois de Cristo, altura em que foi ocupada por refugiados que escaparam dos invasores bárbaros. Ao longo de vários séculos, foi considerada extremamente pacífica.

No entanto, tudo mudou em 1348, durante a epidemia de peste negra, trazida para Veneza por pulgas em navios mercantes. Naquele ano e nos seguintes, Poveglia foi transformada num posto de quarentena.  Os edifícios agrícolas e os quartéis militares da ilha foram todos transformados em dormitórios, onde os doentes eram tratados. Muitos acabaram por morrer, tendo sido incinerados ou enterrados em valas comuns. Há mais de 160 mil corpos enterrados na ilha.

Mais tarde, durante outras epidemias, como a peste bubónica, o posto de quarentena voltou a ser ativado. Entre os séculos XVIII e XIX, os especialistas históricos acreditam que mais de 160 mil corpos foram enterrados na ilha. 

Se não bastasse, Poveglia chegou a acolher um hospital psiquiátrico em 1922. Os doentes que sofriam com problemas de saúde mental eram frequentemente sujeitos a tratamentos experimentais. Alguns relatos não confirmados sugerem que eram também maltratados. O hospital foi encerrado em 1968, altura em que a ilha foi deixada ao abandono até agora.

Em 1997, uma associação de estudantes propôs um projeto para construir um hostel para jovens no arquipélago. No entanto, nunca avançou. Várias outras propostas tiveram o mesmo destino. 

Desde o seu abandono, a ilha também nunca esteve aberta ao público, mas foi muitas vezes explorada por aventureiros que contrataram barcos privados para chegar até a região. Antes de ser comprada, era possível pedir autorização ao governo para visitá-la.

Em 2009, chegou a ser protagonista de um episódio de “Ghost Adventures”, série norte-americana protagonizada pelo investigador paranormal Zak Bagans. Ainda hoje, continua no ar com a sua 29.ª temporada, lançada em abril deste ano.

A data de abertura oficial do novo parque destinado apenas para residentes não é conhecida. “As memórias da ilha estão impregnadas de dor, mas vamos transformá-la num lugar de alegria”, garantiu Massimo Peron, um dos membros do grupo Poveglia para Todos.

Carregue na galeria para ver fotografias da ilha de Poveglia.

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