Tânia Dias e Marco Bento tinham apenas um receio quando decidiram visitar o Salar de Uyuni: que a experiência se revelasse uma desilusão. O casal português, que anda na estrada há mais de três anos, já tinha visto várias fotografias do maior deserto de sal do mundo, mas temia que a realidade fosse outra.
“Muitas vezes, na Internet, vemos sempre imagens lindíssimas, mas depois quando chegamos ao sítio é uma desilusão. Pensei que seria este o caso, mas aconteceu o oposto”, começa por contar à NiT Tânia, de 43 anos. “Foi mesmo melhor do que aquilo que as imagens representam.”
Os dois motociclistas e criadores de conteúdos visitaram o deserto na Bolívia em janeiro, depois de terem viajado da Tailândia até ao México e descido em direção à América Latina. Quando chegaram ao país, o objetivo era encontrar um local bonito e diferente onde pudessem acampar — por isso, escolheram o Salar de Uyuni.
“O acesso é fácil porque é tudo asfaltado até chegar à entrada do deserto”, explica Marco, de 42 anos. A atração natural formou-se há milhares de anos, graças à evaporação de antigos lagos pré-históricos que deixaram para trás uma imensa camada de sal.
No geral, o deserto estende-se por mais de 10 mil quilómetros quadrados e ao contrário do que muitos pensam, não é totalmente plano. Pelo meio, existem cerca de 30 ilhas rochosas, sendo que muitas estão cobertas de catos gigantes.
Tânia e Marco optaram por procurar uma destas ilhas para pernoitar: a Incahuasi, conhecida como um ponto famoso no deserto para assistir ao pôr do sol. No entanto, quando anoitece, não há ninguém por perto.
“Há certos sítios que têm rede de telemóvel, mas grande parte do Salar não tem”, acrescenta Tânia. “Tens de ter um sentido de orientação muito bom. Na ilha onde ficámos, só havia catos e pedras, mais nada.”
Nesta noite, o casal escolheu uma zona mais afastada dos turistas que visitam o deserto para assistir ao pôr do sol. E o motivo não teve apenas a ver com privacidade: “Tivemos também de ficar protegidos do vento, porque estávamos no meio do deserto, numa zona plana.”
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O casal dormiu apenas uma noite no deserto, mas acabou por ter uma das melhores experiências da aventura pelo mundo. “Normalmente, dizem que o sal é para tirar as energias. Porém, a energia que aquele lugar tem é incrível. Transmite-te uma paz e não há palavras para descrever”, frisa Tânia, que nasceu no Luxemburgo.
Durante a noite, a escuridão é total e a única luz à vista era a que tinham no acampamento. “Tivéssemos a sorte de ter um dia e uma noite sem nuvens [de 24 para 25 de janeiro], portanto vimos todas as estrelas do céu”, recorda. Além disso, tiveram a sorte de ver passar “um grande cometa”.
Antes de dormir, o casal cozinhou um dos pratos que mais tem comido nos últimos anos na estrada: massa com atum e legumes. No dia seguinte, acordou pelas 5h45, para assistir ao nascer do sol no horizonte.
Para Marco, a melhor parte da experiência foi poder conduzir a mota na imensidão do deserto de sal. À entrada, os dois encontraram vários outros viajantes, que aproveitavam para posar para fotografias com alguns monumentos, como o letreiro a dizer “Dakar”, e as bandeiras ali hasteadas.
No entanto, depois de atravessarem esta zona do país sul-americano e começarem a viajar em direção a uma das ilhas mais isoladas, ficaram completamente sozinhos no meio do deserto.
“A melhor sensação foi a de não ter nada nem ninguém à nossa volta, podíamos andar como queríamos”, partilha o viajante natural de Coimbra. “É tudo teu e podes andar por onde queiras, da esquerda à direita, não precisas de ter cuidado com nada. Depois, o que mais me agradou à noite foi o silêncio. Não se ouvia nada.”

Também atravessaram uma das estradas mais perigosas do mundo
Antes de ter visitado o Salar de Uyuni, o casal aproveitou a passagem pela Bolívia para conhecer a Estrada da Morte, uma rota de 64 quilómetros entre as cidades de La Paz e Coroico. A aventura aconteceu uma semana depois de Tânia ter sofrido um acidente junto da fronteira com o Peru.
Os dois motociclistas viajam sempre em duas motas, com um intercomunicador para poderem conversar pelo caminho. Naquele dia, Tânia explica à NiT passaram por uma ciclista que parecia estar em apuros.
“Se vemos alguém à beira da estrada, normalmente paramos sempre para perguntar se está tudo bem”, explica. “Mas aquela rapariga estava a andar tranquila e o Marco perguntou-me pelo intercomunicador se eu queria parar e eu disse que não”.
No entanto, quando passaram pela ciclista, Marco desacelerou ligeiramente e Tânia desviou o olhar para a berma, na direção da tal jovem. “Quando olhei para a frente, bati nele. Foi instantâneo, mas Graças a Deus não me magoei.”
Ainda assim, quando voltou a subir para a mota, sentia a ansiedade típica de quem passa por uma experiência traumática. “Mentalmente, estava bem, mas não conseguia controlar o medo no corpo”, recorda. “Foi preciso tempo para sintonizar o corpo com a cabeça de novo.”
Só conseguiu fazê-lo quando decidiu fazer a Estrada da Morte, uma semana depois da queda. “Para mim, foi muito complicado, mas sabia que não podia parar porque seria pior”. A estrada é maioritariamente de terra e é conhecida por ter centenas de curvas fechadas.
Apesar do receio e desconforto, Tânia seguiu as indicações de Marco, para fazer os 64 quilómetros em segurança, enquanto apitava em todas as curvas. O percurso total durou cerca de três horas e meia.
Leia também o artigo da NiT para conhecer melhor a história deste casal, que está há mais de três anos a viajar pelo mundo.
Carregue na galeria para ver algumas imagens das duas experiências do casal na Bolívia.

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