Viagens

Esta família portuguesa foi de veleiro para um paraíso quase sem Covid na Martinica

A Wind Family partiu de Cascais em setembro de 2020 e encontra-se agora nas Caraíbas, onde nem existem máscaras de proteção.
Uma ilha francesa do outro lado do Atlântico.

É meio-dia de quinta-feira, dia 18 de fevereiro, e uma chamada telefónica liga-nos ao outro lado do oceano. São 8 horas na Martinica, onde Inês Saldanha Pisco acabou de acordar. Não é preciso WhatsApp ou outra plataforma ligada à Internet. A ilha caribenha é uma região ultramarina da França e uma chamada telefónica tem os mesmo custos que entre os dois países europeus.

Este é o oitavo destino da Wind Family, nome utilizado nas redes sociais por Inês e João, que viajam com os seus quatro filhos num veleiro à volta do mundo [relembre o artigo da NiT sobre esta família]. Saíram de Cascais a 24 de setembro de 2020, depois da pandemia e dos ventos prolongarem a sua estadia na marina com vista para a Baía dos Pescadores.

Rumaram ao Porto Santo, à Madeira, e às Ilhas Desertas, até deixarem o território nacional para conhecerem as Canárias, seguidas das ilhas do Sal, do Maio e de São Vicente, em Cabo Verde. O que poderia ser já uma grande aventura para qualquer um de nós, era apenas um aquecimento para a grande travessia.

16 dias separaram esta família com crianças de três, cinco, oito e 11 anos do próximo destino: as Caraíbas. No dia 2 de fevereiro pisaram, finalmente, terra na ilha francesa do continente norte-americano.

“Foi uma experiência dura. Uma experiência muito forte psicologicamente. Só se vê mar e céu. E, apesar de não termos tido nenhuma situação perigosa, sentimo-nos pequenos e muito frágeis. Tive a sensação de que estar vivo, ou não estar, é indiferente para o universo”, conta-nos a mãe, que em viagem é também professora, enfermeira, cozinheira e marinheira.

“A privação de sono é o pior. Não pode haver um momento sem vigia, por isso eu e o João fazíamos turnos constantes. Os miúdos foram os que se adaptaram melhor [risos]. Passaram o tempo deitados, a ver filmes, porque o mar esteve sempre muito revolto. Era impossível fazer o que quer que fosse. E conversámos, conversámos muito.”

As tarefas mais simples, como cozinhar, tornam-se quase impossíveis em alto mar. Inês conta que para fazer um almoço ou jantar, ficava cheia de nódoas negras por bater em tudo devido à ondulação. “Pensei todos os dias ‘porque é que me fui meter nisto?’ [risos]. Mas depois, à noite, olhar para o nascer e o pôr da lua, para as estrelas, mas também para o mar, com as algas cintilantes como pirilampos. É indiscritível.”

Pescaram todos os dias, até “quase enjoar de peixe”, viram golfinhos e baleias. Os 16 dias demoraram a passar, e a sensação de avistar terra foi igualmente avassaladora.

Chegavam à Martinica, onde puderam entrar sem teste de Covid-19, uma vez que os 16 dias no mar, isolados, já eram uma quarentena. “Estou a ver um arco-íris lindo”, revela-nos a meio da conversa.

Na “ilha fantástica” já fizeram snorkeling, visitaram florestas tropicais e cascatas, uma destilaria, monumentos históricos, e nadaram com tartarugas — experiência que a família destaca com maior entusiasmo de toda a aventura vivida até agora.

Tiveram “sorte”, porque o país fechou no dia seguinte a terem entrado, por ordens de França, e vivem dias de sonho e muito calor, numa realidade totalmente oposta à que Portugal se encontra atualmente. “Falamos com a nossa família com muita regularidade e quase não conseguimos imaginar a vossa situação. Sentimos que estamos num mundo paralelo.”

A Martinica tem casos ativos de Covid-19 na ilha, porém, a dimensão é bem diferente do nosso País. “Ninguém usa máscara na rua, tudo está aberto. Vemos as pessoas na praia, a fazer piqueniques, ou a passear. Só se utiliza máscara nas lojas maiores, nos supermercados e nos transportes públicos.”

De acordo com o Worldometers, à data de escrita deste artigo, a Martinica registou 6553 casos de coronavírus desde o início da pandemia, 45 óbitos, e 98 recuperados. O Carnaval foi cancelado, mas a vida segue, quase de forma normal. “Por um lado sinto que temos muita sorte porque estamos a ter esta experiência numa altura em que se estivéssemos em Portugal estaríamos fechados em casa. Mas para a viagem, também criou problemas. Não vamos poder visitar muitas das ilhas que queríamos por causa dos testes.”

Para entrar em cada país, é necessário apresentar um teste negativo à Covid-19, por vezes dois. Cada teste tem um valor entre os 100 e os 150 dólares. “Somos seis pessoas, é um balúrdio. Preferimos conhecer menos lugares, e ficar mais tempo em cada um.”

Essa é uma liberdade nova para Inês. “Sempre tive o meu tempo muito organizado. Viver desta forma é estranho, quase que não sabemos o que fazer com tanta liberdade [risos].” Assim responde que não sabe quando vai deixar a Martinica.

A vida é vivida a cada dia, sem grandes planos. As manhãs são reservadas para homeschooling, e as tardes para os passeios e os banhos de mar. No entanto, já decidiram que irão rumar a Sul, e que o próximo destino será muito provavelmente Curaçau ou Bonaire.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT