Viagens

Fui aos Açores, conheci o bar mais bonito do mundo e só parti arrastado pela SATA

O humorista e cronista da NiT, Miguel Lambertini, conta a sua experiência de férias no arquipélago, com algumas dicas incríveis.
O Cella Bar, no Pico.

Também sentiu que no mês de agosto, metade do seu Instagram estava nas Maldivas e a outra metade nos Açores? Foi demais, não foi? Estávamos já todos fartos de fotografias de águas translúcidas, paisagens verdejantes e brindes ao pôr do sol. Por isso, para não enjoar, aqui fica uma crónica sobre a minha viagem aos Açores, com os melhores spots para nadar em águas translúcidas, correr em câmara lenta em paisagens verdejantes e fazer brindes pirosos ao pôr do sol (não necessariamente por esta ordem). 

A primeira vez que fui aos Açores foi há mais de 15 anos. Nessa altura visitei a ilha de São Miguel, de onde os meus avôs, paterno e materno, são naturais e fiquei espantado com a beleza natural daquela terra, que é um sopro que nos atinge de surpresa. Por isso mesmo a expectativa era alta, já que desta vez a viagem teve outro rumo, as ilhas do Faial e Pico. Ficámos quatro dias no Pico e outros quatro no Faial e no final tivemos de ser puxados pelos senhores da SATA para dentro do avião, porque não queríamos vir embora. Depois eles lá acenaram com um pacote miniatura de amendoins e, como bom português, não resisti a um brinde grátis.  

Para poder andar sem constrangimentos em qualquer ilha, o ideal é alugar um carro com bastante antecedência — eu recomendaria alugar hoje, se quiserem ir em 2024 — que foi o que fizemos, no aeroporto do Faial. Isso permitiu-nos ir até ao Pico, através da travessia de ferryboat e devolver o carro, novamente no Faial. Ia com mais uns quilos de areia, é certo, mas impecável no que toca a pintura e chapa.

O que é de certa maneira um feito, já que na verdade não era um carro, mas sim uma carrinha transporter de nove lugares, porque nós, entre casais, crianças e um bebé, éramos uma catrefada de continentais. Ora, hoje em dia uma pessoa está habituada aos “pipis” que auxiliam nas manobras e aquela carrinha não tinha, por isso houve ali alguns momentos em que tive de recorrer ao Sistema de Estacionamento TB, vulgo alguém do lado de fora que grita: “Tááá Boooom!”.

De qualquer forma, fizemos seguro contra todos e quando digo todos, incluo nesse grupo vacas de 900 quilos que se passeiam tranquilamente pela estrada de alcatrão. E este é um dos atrativos que me faz gostar tanto dos Açores, porque deve haver poucos lugares no mundo onde uma pessoa, no trânsito, possa literalmente gritar “sai da frente oh vaca!”, sem passar por  mal-educado. Isto sim é liberdade, principalmente para as vacas.

Nestas ilhas a natureza sintoniza com o Homem de uma forma quase perfeita, principalmente no Pico, onde nos sentimos num ambiente mais cru e, felizmente, bem preservado. Parte desse encanto passa pela imponência do estratovulcão do Pico que é um postal vivo da ilha. Eu por acaso, não subi à montanha mais alta de Portugal, não porque seja preguiçoso, mas apenas porque sou adepto do provérbio, na versão “Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”, de maneira que fiquei cá em baixo a beber um gin, à espera que o Pico aparecesse.

Infelizmente não apareceu, mas diz quem lá foi acima, que é uma experiência única. Para além das manadas que se cruzam connosco em retas desenhadas a novelões de hortências, há outras espécies que estão sempre presentes. Como não mencionar os simpáticos cagarros, uma ave marítima noctívaga cujo bizarro piar está entre o som de um pato Donald com cólicas e um tubo de escape de um Punto de 93? Como estávamos junto ao mar, a primeira noite não foi fácil, mas nas restantes lá nos habituámos e a verdade é que hoje até uso o som dos cagarros como white noise, para adormecer.

Depois os peixes, a visibilidade dentro de água é absolutamente espantosa e por isso basta ir a uma piscina natural, colocar uns óculos de mergulho e ver espécimes de diferentes cores e tamanhos, para além de caranguejos e todo o tipo de bivalves. De tal forma que em alguns sítios senti que estava na Worten a olhar para a parede das televisões full HD.

No mar encontrámos também aqueles que são um dos ex-libris dos açores: baleias, cachalotes e golfinhos. Para os avistar tivemos de fazer um passeio numa lancha rápida, o que já por si é uma experiência bastante divertida, embora desaconselhável se for daquelas pessoas que passa numa lomba e logo a seguir tem de pôr Reumon gel nas costas. Ainda assim, vale muito a pena e apesar do mar estar um pouco batido conseguimos ver cachalotes, baleias piloto e vários golfinhos. Caso sejam propensos a enjoar é boa ideia tomar um comprimido antes, para não acontecer como uma senhora de um barco ao lado do nosso, que ofereceu o seu pequeno almoço, já digerido, aos peixinhos. Por outro lado, acabou por ser ótimo para todo o grupo porque atrás dos peixes vieram os golfinhos.

Por isso, obrigado à senhora que achou que era boa ideia comer uma tigela de iogurte grego e ovos com bacon, antes de ir andar de barco. Por falar em comida, uma das coisas que se consegue fazer sem esforço nos Açores, é comer bem. No Faial, depois um mergulho inesquecível, à chuva, na Praia de Almoxarife, fizemo-nos à estrada e fomos até ao restaurante Genuíno, junto à baía de Porto Pim.

O nome deriva do seu proprietário, Genuíno Madruga, um antigo pescador que se tornou velejador e que, por duas vezes, deu a volta ao mundo, completamente sozinho. O mapa-múndi na entrada do restaurante e também nas mesas, recorda essas aventuras que Genuíno se orgulha de contar, mas “só se tiver tempo, porque senão não vale a pena”, diz-me enquanto fecha mais uma conta de uma das várias mesas que, à hora do almoço, lotavam o restaurante.

Expliquei que tinha tempo e interesse, não tinha era muito espaço no artigo, mas ainda assim registei que foi em 2002 que completou a primeira volta ao mundo a bordo do veleiro Hemingway, repetindo a jornada entre 2007 e 2009, quando se tornou o primeiro português a cruzar o Cabo Horn, o ponto mais meridional da América do Sul.

O arroz de marisco estava uma delicia e harmonizou na perfeição com uma garrafa do vulcânico, Frei Gigante branco, mas o verdadeiro prazer foi conversar com este homem que é uma figura do nosso património nacional e cujo nome não podia ser mais apropriado. Não vão ao Faial sem passar pelo Genuíno e, se tiverem tempo, talvez saiam de lá com boas histórias. 

No Pico, elegi dois espaços como os melhores para experimentar a gastronomia local e, simultaneamente, sentir que estamos num ambiente tão contemporâneo como o de qualquer restaurante prestigiado de uma grande metrópole. Mesmo junto à estação de correios de São Roque do Pico, virado para o mar, fica o restaurante “Casa Âncora”, um espaço com decoração simples mas bonita que o torna muito acolhedor.

O menu conta sempre com produtos frescos e com um toque especial de criatividade, que dá aos pratos um espeto irresistível e os torna alvo da mira dos Instagram foodies. O peixe com risoto de limão estava absolutamente divinal, não tendo ficado atrás do Filet Mignon com espuma de batata e cebola caramelizada, que também nos encheu as medidas.

Num registo ligeiramente diferente, mas igualmente cativante fomos ao encontro do Cella Bar, um espaço difícil de descrever quer pela arquitetura, quer pela paisagem em que se insere, que lhe confere uma dimensão cinematográfica, estilo Kubrick. Na esplanada do piso superior, apercebemo-nos que, mais do que um edifício singular, o Cella Bar é uma escultura de cara virada para outra escultura natural, a ilha do Faial.

Ao final do dia, o sol põe-se por trás da ilha e o espaço ganha um encanto especial com esta vista, que impõe um copo de vinho na mão ou uma cerveja Koriska, produto local artesanal e de que também fiquei fã. “Começou por ser um wine bar apenas com petiscos, mas as pessoas foram pedindo que tivéssemos um menu mais elaborado, por isso acabámos por ter serviço de restaurante” comentou Fábio Matos, um dos sócios que em pleno agosto não tem mãos a medir com o corrupio de gente que faz do Cella Bar um dos pontos turísticos mais procurado da ilha do Pico.

Respondi ao Fábio que foi uma ótima opção porque de outra forma não tínhamos podido experimentar a sopa com o melhor peixe dos Açores, o Atum Braseado e o Entrecosto assado lentamente com molho barbecue, que ainda hoje me só de pensar, me dá água na boca. Todas estas opções foram muito bem acompanhadas por uma garrafa de Terras de Lava, um vinho simpático, made in Pico, que está disponível na garrafeira do espaço, juntamente com uma variedade extraordinária de vinhos para consumir no local ou levar para casa.

Para terminar o repasto pedimos uma Mousse de chocolate belga e o Arroz Cremoso com caramelo e frutos secos, para partilhar. Mal sabíamos nós que este género de arroz de doce à moda do Cella era um pequeno manjar dos deuses e por isso não resistimos a mandar vir mais (não digo quantos porque tenho vergonha). De barriga cheia restou-nos deixar a noite cair e desfrutar do ambiente acolhedor daquele que muitos dizem ser — e eu tendo a concordar— “o bar mais bonito do mundo”.

Gostava de poder descrever todas as experiências que vivemos nesta viagem ao Pico e ao Faial, mas já me alonguei. Se ainda estiver a ler isto, deixo de seguida algumas sugestões a que poderá aceder se visitar aquele que é, para mim, o arquipélago mais bonito do mundo. 

ONDE FICAR

Pico:

Casa das Cagarras

Lava Homes

Aldeia da Fonte

Faial:
Quinta das Buganvílias 
Foi onde ficámos alojados e nem consigo sugerir outro local, porque a beleza e a paz que se sente neste espaço tornam-no absolutamente irresistível. São dois hectares recheados de árvores exóticas, culturas biológicas e recantos intimistas, sempre com o oceano à vista e o colorido das lustrosas buganvílias. Um Turismo Rural único, gerido por um casal de uma simpatia indescritível e que nos faz sentir em casa (se a nossa casa fosse uma quinta magnifica no meio do Atlântico)

O QUE FAZER

Snorkeling: em qualquer piscina natural do Pico ou Fail, mas as minhas preferidas são:
Praia da Poça das Mujas, Calheta do Nesquim, Pico
Aguada, Pontas Negras, Pico
Piscinas Naturais do Cais do Mourato, Cais do Mourato, Pico
Piscinas Naturais do Varadouro, Capelo, Faial
Porto do Salão, Salão, Faial

Visitar o Museu dos Baleeiros, no Pico

Fazer um passeio de barco para observação de cetáceos:  
Espaço Talassa, Lajes do Pico, Pico
Naturalist, Horta, Faial. 

Visitar o Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos, Horta, Faial

Visitar o Jardim Botânico do Faial, Horta 

Subir a Montanha do Pico, Madalena, Pico (se não for adepto de provérbios, como eu)

Tomar um Gin (ou outra bebida qualquer) no Peter’s Café Sport, Horta, Faial

ONDE COMER

Pico:

Casa Âncora 

Cella Bar

Restaurante Faia 

Fonte Cuisine

Faial:

Genuíno

Gastrobar Príncipe

Praya Restaurante

Gelados do Atlântico

Oceanic Cafe

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT