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Gonçalo Cadilhe tem um novo livro: “Sem as viagens a humanidade não teria evoluído”

O viajante português lançou a 7 de maio uma nova obra sobre o seu tema favorito. À NiT, conta tudo sobre "Mais Além".

Gonçalo Cadilhe estava a gravar um documentário no Nepal quando se apercebeu de que havia um documento em falta para as filmagens. A equipa já estava a caminhar até à localização final, mas o escritor português teve de regressar ao cenário anterior com Hari, um guia de trekking que o acompanhava.

Quando tinha tudo o que precisava, já era noite. “Eu desafiei-o para fazermos o percurso que o resto da equipa tinha feito de dia, à noite, para não perdermos tempo”, começa por contar à NiT o viajante de 57 anos. Foi uma das experiências mais transcendentais da minha vida.

À luz da lua cheia, os dois percorreram as montanhas do Annapurna, naquele que seria um dos momentos mais marcantes da vida do escritor. Daí, surgiu uma amizade que ainda hoje perdura.

Esta é apenas uma das histórias que Cadilhe, que já conta com mais de 20 anos a escrever sobre viagens, conta no seu novo livro, “Mais Além”. A obra foi lançada na passada quinta-feira, 7 de maio, e acompanha a evolução da humanidade através de histórias reais e da própria perspectiva de Gonçalo ao longo dos anos

“Como viajante, acabei por perceber que sem as viagens a humanidade não teria evoluído como evoluiu”, refere. Ao longo de 208 páginas, mergulha em histórias que passam por diferentes épocas que vão desde o Neolítico até à Idade Contemporânea.

Pelo caminho, conta algumas das próprias aventuras e peripécias (além de episódios vividos por pessoas marcantes que conheceu ao longo das décadas) que ultrapassou para escrever o livro. 

Cadilhe falou com a NiT sobre a obra, que é o 16.º livro do escritor. Está à venda online e nas lojas da FNAC e Bertrand por 15,93€

A obra “Mais Além” tem um formato um pouco diferente do que os leitores estão habituados. Como é que surgiu este conceito? 
É diferente, mas não seria possível sem os outros. Não é também um resumo dos outros livros, diria que é um passo em frente em termos de maturidade e de curiosidade intelectual em relação à narrativa de viagens que fui consolidando ao longo dos últimos 15 livros. Já são duas décadas a escrever sobre literatura de viagens. Portanto, o livro resultou de muitos anos a viajar e ir acumulando numa gavetazinha mental esta ideia de que os sítios por onde passava, curiosamente, tinham sido muito importantes na história da humanidade e sobretudo a humanidade em viagem. Como viajante, acabei por perceber que sem as viagens a humanidade não teria evoluído como evoluiu.

É o resultado de um exercício que fez ao longo dos anos?
Sim. Se calhar, um engenheiro ia reparar mais nas máquinas, nos relógios e na construção dos navios para dizer que o percurso da humanidade se explica pela mecânica ou pelas invenções. Eu, como viajante, escrevi um livro para tentar chamar a atenção para o fato de que a história da humanidade é também a história das suas viagens e dos seus viajantes.

O livro, portanto, acompanha a história das viagens através da própria perspetiva do Gonçalo.
Como eu costumo dizer para resumir, são 40 anos, 50 países e milhares de séculos condensados num livro. Portanto, grandes momentos da história da humanidade, desde o primeiro australopiteco que desceu das árvores há quatro milhões de anos em África até o momento em que o turismo de massa ameaça tornar o próprio turismo insustentável. O meu livro percorre todos esses milénios através de quatro décadas a viajar pelo mundo.

Durante a escrita, deve ter-se reparado com muitos momentos históricos, que nunca chegou a viver propriamente, mas que não deixam de causar um impacto. Qual deles é que mais o surpreendeu?
A primeira vez que fui ao Paquistão, foi logo no início da minha carreira de viajante, em 1993. Sabia-se muito pouco do país e fiquei surpreendido por encontrar num museu de Laore do tempo ainda em que os britânicos controlavam todo o subcontinente indiano. O museu, portanto, tinha sido criado ainda pelos britânicos durante a época colonial e fui encontrar umas estátuas e umas peças maravilhosas do século I d.C. que não pareciam nem indianas, nem asiáticas. Vim a descobrir que foi a expedição de Alexandre Magno, quatro séculos antes de Cristo, que tinha trazido para o Oriente aquilo que hoje é chamado a arte greco-budista. Essa viagem de Alexandre, desde a Grécia até à Índia, foi uma revelação para mim, quando entrei nesse museu. Agora, neste livre, fui recuperar essa surpresa de encontrar peças num museu tão parecidas com aquelas que nós, no Ocidente, fazíamos na Antiguidade.

Tendo em conta que é um livro que acompanha tantos séculos de histórias e mais dezenas de memórias do Gonçalo, como é que foi escolher o que é que entrava na obra?
Foi mesmo uma “imposição” da editora que disse que o livro tinha de ficar pronto, senão nunca mais terminamos, porque estavam sempre a surgir mais capítulos e mais pedaços da memória. No fundo, tentei que cada época histórica tivesse entre três e cinco capítulos. Quando comecei a ver em cada época, quais eram as minhas viagens mais interessantes que podiam conduzir a um capítulo, a seleção foi um bocadinho essa. Dentro das milhares de memórias, de episódios e de peripécias que tenho das minhas viagens de quatro décadas, fui escolher os episódios mais interessantes para fazer o paralelismo à grande história da humanidade em viagem. Como costumo dizer, o livro, no fundo, conta duas histórias: a da humanidade em viagem e a minha viagem em busca dessa história.

Quanto tempo é que esteve a trabalhar nesta obra?
Comecei a pensá-lo durante a pandemia e depois ainda escrevi outros dois livros a seguir. Neste período, estive a guardar material, ideias e reflexões na gaveta. Demorei cerca de dois anos e meio para escrever.

Quando pensa nesse livro e também nas histórias que conheceu ao longo desses anos, de pessoas e outros viajantes, qual é aquela que se sobressai? Há alguém que tenha conhecido pelo caminho e que nunca se esqueceu? 
No turismo de nicho, compreendemos que há muito mais pessoas a viajar por interesses próprios do que a fazer aquilo que é considerado turismo de massa. Para eu chegar a este capítulo e fazer estas observações, tornei-me amigo de um guia de trekking no Nepal, Hari. Tivemos que fazer um trekking noturno nas montanhas do Annapurna, porque na altura eu estava a fazer um documentário para a RTP. Ele era o meu guia, estava a coordenar na parte do terreno tudo o que era necessário e faltava-nos um documento para o documentário poder ir para a frente. A equipa continuou durante o dia a caminhar até ao local onde íamos filmar, mas eu e o Hari tivemos que voltar para trás para obter esse documento e quando regressámos ao início do trekking, já era noite. Eu desafiei-o para fazermos o percurso que o resto da equipa tinha feito de dia, para não perdermos tempo e foi, uma das experiências mais transcendentais da minha vida.

O livro demorou cerca de dois anos para ficar completo.

O que é que fizeram nessa caminhada?
Caminhamos nos Himalaias de noite, em plena lua cheia. A nossa amizade surgiu precisamente porque ele aceitou o meu desafio e fizemos algo que nem eu, nem ele havia feito, apesar daquela ser a zona onde o Hari  trabalha todos os dias. Criámos uma empatia, uma ligação, uma memória conjunta e um momento extraordinário nas nossas vidas, que foi caminhar com a lua cheia para conseguirmos não perder um dia e não ter a equipa toda à nossa espera pelo dia seguinte. Esta história fecha o livro. Portanto, é o último capítulo e acho que fecha bem, porque de facto consigo contar uma experiência pessoal muito intensa e sentimental, que nos conduz a uma reflexão sobre o que é hoje o turismo de massa, o turismo de nicho e o que é que poderá ser o futuro do turismo.

Ainda mantém contacto com o Hari?
Sim. Assim como muitos nepaleses, ele percebeu que dificilmente conseguiria ganhar dinheiro para a família que queria criar no Nepal e está neste momento a trabalhar no Qatar, na indústria do turismo. Ele ganha muito mais ali do que a fazer guia de trekking no Nepal. Ele casou, tem filhos e, de vez em quando, manda um pequeno email, uma fotografia da família, e eu também retribuo. Quando vou ao Nepal, mando-lhe sempre uma mensagem a dizer que vou estar lá e a perguntar se ele por acaso estará lá nessas datas, mas não temos tipo de sorte, porque ele passa grande parte do ano a trabalhar no Qatar.

Depois de fazer um estudo tão intenso sobre a arte de viajar e depois de tantas décadas, ainda sente o mesmo impulso que sentia no início, ou alguma coisa mudou?
Em mim mudou muita coisa, sobretudo aquilo que não é mudança, mas a inevitabilidade do envelhecimento. Claro que quando comecei com 18 anos, tinha uma energia e uma capacidade de recuperar uma noite mal dormida no banco do parque, no comboio ou no autocarro, que não tenho agora. O que não tento que não mude é o meu deslumbramento pela viagem. É verdade que já vi muito do que alguma vez teria jamais sonhado conseguir ver um dia, mas continuo a alimentar e a obrigar-me a sentir que é um privilégio extraordinário poder viver no país onde vivo, na época em que vivo e como tal, poder viajar tanto pela vida fora. Portanto, não deixo que o entusiasmo desapareça de mim.

Depois de tanto tempo a viver tantas aventuras, sente que Portugal ainda é casa? 
A minha resposta é sempre a resposta de quem tem um certo distanciamento e a capacidade de olhar para Portugal de fora. Passo muito tempo fora e tenho também a sorte e a possibilidade de comparar Portugal com muitos países do mundo e a resposta é afirmativa. Continuo a achar que Portugal é um pequeno paraíso para se viver com segurança e qualidade de vida, não obstante tudo.

Vive atualmente em que zona?
Na Figueira da Foz, onde nasci e cresci. Foi sempre o meu porto de regresso, portanto, continua a ser a cidade onde eu me referencio. A minha família e os meus pais são do Porto. 

Em termos de viagens que ainda sente que falta fazer, o que é que está mais animado?
Bem, eu já não alimento muito aquela aflição de contar o que é que ainda não vi e pensar que ainda tem que ver com toda obrigatoriedade. Estou muito pacificado com aquilo que vi, independentemente de se era o que queria ou não. Muitas vezes tive que ir a lugares para escrever os meus livros, que provavelmente não teriam estado na minha lista nem tinham grande interesse, mas o livro precisava desses lugares.

Que tipo de lugares?
Por exemplo, estive em Anaba, uma cidade na Argélia, que hoje não tem grande interesse, mas que no tempo do Império Romano era uma das maiores cidades do Mediterrâneo, quando se chamava Hipona. Para escrever o meu livro, tive de ir até lá para fazer exatamente o mesmo percurso que o Santo António tinha feito. É um exemplo de um lugar onde a partir daí eu não teria qualquer interesse em ir e fui. Portanto, há muitos lugares onde tive que ir por trabalho e fui.

A Rota da Seda.

O que é que leva o Gonçalo a continuar a viajar e à procura de novas experiências?
A beleza do mundo, seja a beleza natural das paisagens ou a construída pelo ser humano. Continua a ser aquilo que mais me emociona e certamente aquilo que, quando eu posso escolher, me faz viajar. Não são festivais, nem manifestações. O que continuo a querer ver é a beleza que persiste no mundo.

Já está a pensar no próximo livro ou na história para contar?
Tenho três livros por escrever que seguem também o mesmo percurso de pesquisa histórica. São livros relacionados com episódios da história de Portugal no mundo, ou seja, obras que me fazem viajar pelo mundo por causa da história do nosso País. Ainda estou a beneficiar daquela sensação de dever cumprido com este livro e não sei qual dos próximos três projetos será o escolhido.

Qual foi a última viagem que o Gonçalo fez?
Foi a mais óbvia de todas, que foi ao Egito. Foi muito gratificante porque ia cheio de medo de não estar preparado culturalmente para apreciar o Egito, por isso é que andava a adiar há 40 anos. Mas o meu filho de 14 anos, o António, não queria ir a outro lado nenhum a não ser o Egito. Ao contrário de mim, que deixei para o fim, ele começou praticamente a sua carreira de viajante com o lugar mais óbvio e mais interessante da civilização.

Quando é que lá foram?
Fomos agora nas férias da Páscoa e estivemos 15 dias viajando pelo Egito. A minha mulher já tinha estado há muitos anos e de nós os três, era a única que repetia o Egito. Gostou tanto como nós. Fizemos tudo o que se deve fazer para uma primeira abordagem, desde navegar no Nilo, visitar as pirâmides, os museus, os templos, entre outros. Depois deste tempo todo, quando vejo as coisas bonitas do mundo, continuo tão entusiasmado como o meu filho de 14 anos.

Carregue na galeria para ver algumas fotografias das viagens retratadas em “Mais Além.”

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