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Há mais um milionário a querer ir de submarino até ao Titanic

Nem o acidente que matou todos os tripulantes da última viagem parece demover o norte-americano Larry Connor, de 71 anos.

Parece existir uma atração irresistível entre multimilionários e os escombros do Titanic. Um magnetismo de tal forma forte que nem os perigos da incursão a mais de 3.800 metros de profundidade parecem fazer demover estes homens. Mesmo depois do incidente que, há pouco menos de um ano, vitimou toda a equipa num desastre bizarro que pulverizou os cinco exploradores a bordo.

A mesma viagem faz parte dos planos agora anunciados por Larry Connor, o norte-americano milionário investidor de imobiliário. Nesta nova incursão terá a ajuda de Patrick Lahey, cofundador da empresa de submarinos Triton Submarines.

Desta vez, o aparelho levará apenas duas pessoas. “Quero mostrar a todos, em todo o mundo, que o oceano é extremamente poderoso, mas que pode também ser maravilhoso e mudar a nossa vida, se a abordagem for a mais correta”, explica Connor ao “The Wall Street Journal”.

Com a ajuda de Lahey, desenharam um novo submarino que terá custado mais de 18 milhões de euros a construir. Chama-se Triton 4000/2 Abyssal Explorer e, segundo Connor, terá capacidade para fazer inúmeras viagens de ida e volta aos restos do náufrago de 1912.

O aparelho estaria supostamente nos planos há já mais de dez anos. O que faltava para o concretizar? A tecnologia que, entretanto, foi desenvolvida e permitiu tornar o sonho realidade. “Há cinco anos, este submarino não poderia ter sido construído”, frisa Connor.

Mais do que provar que o oceano e poderoso e maravilhoso, Connor e Lahey têm uma preocupação maior: provar que conseguem ser bem-sucedidos onde o Titan falhou. E, pelo caminho, sobreviver.

Segundo o milionário — que foi sempre crítico da abordagem de Stockton Rush, o homem que comandou o projeto do Titan —, a ideia surgiu imediatamente após a notícia do desastre do Titan. Dias depois da tragédia, agarrou no telefone e ligou a Lahey a pedir que construísse “um submarino melhor”.

“Disse-me que tínhamos de construir um submarino capaz de viajar até à profundidade do Titanic, de forma regular e segura, para demonstrar que é possível — e que o Titan não passava de uma geringonça”, conta Lahey.

Ainda não se sabe quando irá decorrer a viagem inaugural.

O desastre trágico do Titan

A 18 de junho, o submarino da empresa de expedições marítimas OceanGate deixou de dar qualquer sinal à superfície. O projeto, liderado pelo CEO da empresa e milionário Stockton Rush, seguia a bordo com mais quatro pessoas: um explorador francês e especialista do Titanic; dois empresários britânicos e um dos filhos de 19 anos. Nos dias seguintes, confirmou-se o pior: a pressão do oceano terá feito implodir o aparelho, resultando na morte imediata dos cinco tripulantes.

Shahzada, multimilionário britânico, reuniu-se em fevereiro num café de Londres com Stockton Rush, o CEO da OceanGate. Em cima da mesa esteve a fatídica viagem do Titan. Falou-se sobre o projeto, o design do submarino e garantia de segurança.

Segundo o “The New York Times”, o milionário decidiu então avançar para a compra da viagem, para si e para o filho de 19 anos, Suleman. Apesar do esforço, foi por pouco que pai e filho conseguiram chegar a tempo de embarcar no Titan.

Deveriam ter apanhado um voo de Toronto até St. John, mas a viagem foi cancelada. Remarcado o voo, também este foi adiado, o que levou a que chegassem bem em cima da hora, mas ainda a tempo de fazer parte da equipa que tentaria descer até ao Titanic.

Shahzada e Suleman tiveram ainda tempo para tirar uma última foto, já equipados, ainda a bordo da embarcação de onde partiu o Titan. A última imagem de ambos, partilhada a 3 de julho pelo “The New York Times”.

A investigação revela também detalhes sobre como cada um dos tripulantes teve que se preparar. Cada um dos viajantes pôde fazer uma seleção pessoal de músicas para ouvir na coluna Bluetooth instalada no Titan, apenas com uma limitação: Rush proibiu a inclusão de música country. Terá sido ao som dos temas escolhidos, na escuridão do Titan, que terão passado os últimos minutos antes do desastre que terá matado instantaneamente os cinco tripulantes.

A expedição de 18 de junho deveria ter uma duração de 12 horas, sob condições muito particulares. Também por isso a lista de recomendações era extensa.

Dias antes da partida, cada um dos tripulantes esteve presente em diversas apresentações e reuniões de segurança. Nos dias que antecederam a largada do Titan, foram aconselhados a manter uma dieta baixa em fibras — e proibidos de beber café na manhã de 18 de junho.

Durante a viagem ao Titanic, além dos fatos providenciados pela OceanGate, deveriam equipar-se com um par de meias grossas, para combater o frio sentido no submarino. Mas também para proteger e evitar que os pés ficassem húmidos com a previsível condensação que se forma no chão da embarcação, à medida que se avança em profundidade.

Para poupar bateria, o Titan avançou lentamente, quase às escuras. O ritmo foi lento, a cerca de 25 metros por minuto. Nunca chegariam ao náufrago.

Segundo o “The New York Times”, a OceanGate terá feito quatro viagens teste em 2023, sendo que nenhuma delas alcançou os destroços do Titanic. Haveria também vários problemas de segurança, com alguns a terem já sido registados de forma oficial.

Em 2018, Will Kohnen, especialista em veículos subaquáticos, enviou uma carta a Rush a avisá-lo de que a abordagem “experimental” da empresa poderia conduzir a “consequências catastróficas”. Essa conclusão foi corroborada por diversos especialistas.

Numa viagem de teste em 2021, no mesmo Titan, vários tripulantes foram forçados a deslocar-se para um dos lados do submarino, para tentar ativar o mecanismo que o faria regressar à superfície. Os pesos que o ajudavam na descida não se soltaram quando foi dada a ordem para abortar e a solução exigiu alguma criatividade.

A verdade é que a maioria das missões — as viagens comerciais ao Titanic começaram em 2021 — não chegaram até ao náufrago. Mais: a maioria das missões do Titan acabaram abortadas, confirma o “The New York Times”.

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