Viagens

Henrique saiu de Guimarães para percorrer a Europa a pé (com um carrinho de bebé)

Aos 31 anos, despediu-se para ser o primeiro português a completar esta missão. A viagem deve demorar cerca de quatro anos.
Tem 31 anos.

Num dia de ventania em Espanha, Henrique Pereira, natural de Guimarães, procurava um sítio para montar a tenda de campismo naquela noite enquanto falava com a NiT ao telemóvel. Fá-lo sempre por volta das 15 ou 16 horas, quando a luz do dia ainda lhe ilumina o caminho, para evitar situações perigosas.

Era a 55.ª noite que passava num local quase desconhecido, longe de casa, da família e dos amigos. Partiu de Guimarães, a terra onde nasceu, a 5 de outubro, para uma jornada que deverá demorar cerca de quatro anos a concluir: quer ser o primeiro português a percorrer a Europa a pé. 

A decisão de atravessar a fronteira de 40 países (os únicos que não fazem parte do plano são os que não são acessíveis a pé, como o Reino Unido) surgiu há pouco menos de um ano, quando ainda trabalhava numa empresa têxtil em Guimarães. Farto da rotina diária e de “receber o salário mínimo em Portugal”, decidiu despedir-se em setembro para fazer “uma das melhores coisas do mundo”: viajar.

“Quando era pequeno, vivi em Espanha com o meu pai e estávamos sempre a viajar. Penso que isso acabou por me influenciar. Não gosto de estar sempre parado, mas com os salários que recebemos em Portugal é difícil conhecer outros países”, conta à NiT o aventureiro, conhecido como RiickyOdissey nas redes sociais.

Com 31 anos, sentiu que esta era a “altura ideal para tirar um tempo para se conhecer melhor” e, ao mesmo tempo, aprender mais sobre outras culturas. Ao início, quando a ideia começou a sair do papel, em abril, ainda ponderou conhecer à Europa à boleia. Porém, rapidamente concluiu que a experiência iria muito diferente da que queria ter.

“Provavelmente ia custar menos e seria mais rápido, mas não ia ver nem metade do que queria ver, ia estar a perder paisagens”, confessa. Após meses de preparação, durante os quais tratou de toda a documentação necessária, estudou os sítios onde podia acampar, aprendeu a fazer fogo e viu dezenas de vídeos sobre o que fazer em casos de emergência, deu início à aventura. Houve quem o chamasse maluco, uns disseram que não ia ser fácil e outros, mais pessimistas, deram a entender que era uma missão impossível. Ainda assim, Henrique, sem grandes medos nem receios, não lhes deu ouvidos.

Com os 2.000€ que conseguiu poupar e o apoio de 250€ da Junta de Freguesia de Silvares, fez-se à estrada. Arrancou com um troley com nove quilos — uma decisão pela qual se arrependeu, especialmente após subir a Serra da Estrela com uma mala de rodas atrás. “Foi uma das etapas mais difíceis até agora. Foi muito complicado, demorei dois dias a chegar lá acima por estar muito carregado”, recorda. Ainda caminhou assim durante uns dias, mas, quando chegou a Sevilha, trocou o troley por um carrinho de bebé, que é “muito mais prático”.

Tem 31 anos.

Volvidos cerca de 50 dias desde o início da viagem, já percorreu cerca de 900 quilómetros. Aproveitou para conhecer melhor Portugal e passou por Viseu, Castelo Branco e Portalegre, antes de atravessar a fronteira com Espanha, ao 27º dia. Durante a primeira parte da aventura conseguiu dormir várias vezes em quartéis de bombeiros, mas no país vizinho, onde se encontra atualmente, tem sido mais complicado. “Aqui não ajudam tanto. Tenho tentado fazer couchsurfing, mas desde que cá estou ainda só não acampei quatro vezes”, conta.

Além do desafio de encontrar sítios para pernoitar, Henrique já enfrentou uma situação mais perigosa em Badajoz: uma tentativa de assalto. “Um homem pediu-me documentos a dizer que era da polícia, mas queria roubar-me. Fui mais esperto que ele, comecei a ignorá-lo e acabou por desaparecer. O resto tem corrido tudo muito bem”, recorda.

O próximo país no roteiro é, claro, a França, e depois seguirá um itinerário que fez com a ajuda de uma aplicação, “que ajuda a encurtar caminhos”, evitando assim “andar de um lado para o outro”. Apesar de não ter grandes medos, tem noção que “há países que não vão ser tão fácil” pela falta de segurança, mas tenta sempre “pensar pelo lado positivo”.

Para o viajante, os locais mais perigosos poderão ser a Roménia, “devido aos ursos” e os países nórdicos, “devido ao frio”. Quanto à Rússia, ainda não sabe como estará a situação na altura que chegará até lá, daqui a cerca de dois anos.

O jovem de Guimarães tem percorrido cerca de 20 quilómetros por dia, uma recomendação dada pelos médicos para “não cansar demasiado as pernas”. Afinal, também não tem pressa: o objetivo é “conhecer com calma” cada destino.

Um dos maiores desafios, contudo, é conseguir ter o dinheiro para financiar toda a viagem, até porque ainda não conseguiu praticamente nenhum apoio financeiro, com exceção da Junta de Freguesia. Henrique está neste momento a tentar arranjar patrocínios, uma missão que “não está a ser nada fácil” e criou um Go Fund Me para tentar angariar algum dinheiro. Os donativos também podem ser feitos através do MB Way, para o número de telemóvel 919 583 768.

“O maior objetivo é chegar com saúde a Portugal. O segundo é poder aprender mais sobre várias culturas, conhecer-me a mim próprio e mostrar às pessoas por onde ando”, explica. Pode acompanhar toda a viagem no canal de YouTube de RiickyOdissey, onde partilha vídeos todos os dias.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT