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A história da portuguesa que vive na pior favela de África

Marta Baeta saiu de Portugal para viver e fazer trabalho humanitário no bairro de Kibera, com 2,5 milhões de pessoas, pobreza extrema, violência e uma pandemia de HIV. 

Marta Baeta nunca tinha estado no Quénia. Em 2012, decidiu fazer um projeto de voluntariado em Kibera, conhecido como o maior bairro de lata do continente africano. O cenário era extremo: com mais de dois milhões de habitantes, a zona não tinha água canalizada, saneamento e a eletricidade não chegava a um décimo da população. As violações e o índice de HIV eram elevados. Para quem partiu de uma vida tranquila em Lisboa, o choque foi inevitável. 

“O que mais me impressionou foi ver tantas crianças no meio do lixo”, conta à NiT, sentada no escritório da From Kibera With Love, uma associação sem fins lucrativos, que começou por uma simples página de Facebook, lançada após esse voluntariado de três meses. Muito mudou desde os primeiros dias no bairro: hoje, aos 29 anos, dá trabalho a 15 pessoas e toma conta de 75 crianças. O percurso foi bem duro.

“Assustou-me ao início, mas agora já estou habituada a esta realidade.”

Corrupção e ameaças de morte

Kibera é a morada de um quarto da população de Nairóbi, a capital do Quénia, composta por 12 municípios, quase todos com os mesmos problemas: pobreza extrema, saúde precária, ambiente nocivo, construções de lata e uma pandemia de HIV. As violações de mulheres são diárias.

Depois daqueles primeiros três meses, Marta regressou a Lisboa para cumprir uma promessa que fizera à mãe: acabar a licenciatura em Relações Públicas. Os miúdos ficaram no bairro, mas não lhe saíram da cabeça: em Portugal angariou fundos, contactou ‘padrinhos’ para os ajudar, terminou o curso, vendeu tudo e regressou com algum dinheiro para inscrever no ensino primário os miúdos que já estavam em idade escolar.

“Paguei as propinas e tudo o que me pediram. Depois descobri que a escola era pública — por isso, gratuita — e fiz uma queixa por corrupção no ministério da Educação do Quénia. O dinheiro tinha sido usado indevidamente.”

Recebeu ameaças de morte, disseram-lhe que nunca mais voltaria a ver aquelas crianças e foi forçada a regressar a Portugal. “Já passou, hoje vejo-as todos os dias”, diz à NiT, sem querer desenvolver muito mais o assunto. Apesar de viver numa das zonas mais difíceis do globo, Marta é daquelas pessoas que são capazes de sorrir no meio do caos, pelo menos a julgar pela fotografias que enviou.  

Após dois anos a viver entre o Quénia e Portugal, em 2014 decidiu ficar definitivamente em Kibera. Criou um centro para albergar os meninos do bairro. Fica numa zona periférica, junto de uma das entradas, para que as crianças e os voluntários se sintam mais seguros.

“Este centro foi criado há três anos. Temos 73 crianças que vêm para cá diariamente, depois da escola. Lancham, fazem os trabalhos de casa e atividades: têm ginástica acrobática, música, ballet, natação, computadores, ou simplesmente brincam. Ao fim do dia vão para casa”, conta à NiT. Existe também um espaço onde recebem voluntários, professores, médicos ou simplesmente pessoas que querem ajudar.

Marta viaja duas vezes por ano para Portugal, que é onde vivem os financiadores. O projeto tem cerca de 300 padrinhos. 

“São uma ajuda importantíssima. Cada criança tem vários padrinhos. Um para a escola, outro para a alimentação, para a saúde, para as atividades extracurriculares. Se for uma criança que pertença a uma família com historial de HIV temos um apoio mensal com um cabaz alimentar a sua família.”

Quem não achou grande piada ao rumo que estava a dar à a sua vida foram os pais. “Principalmente o meu pai, mas já cá vieram os dois. O meu pai no ano passado e a minha mãe mais do que uma vez. Vêm sempre no Natal. O meu pai tinha idealizado para mim uma vida normal, como a maioria das pessoas, um trabalho normal com horários, em Portugal”.

Marta, que tenta ter uma vida mais ou menos normal, mas longe dos horários portugueses, vive com o namorado, que conheceu no Quénia. “É nascido e criado em Kibera. Vivemos juntos desde 2015. Começou por ser voluntário, agora é um dos nossos funcionários. Tenho alguns amigos cá, vou ao ginásio e tento ter momentos sozinha.”

Os cães também são uma prioridade

Marta nasceu no Barreiro, foi escuteira e tem uma paixão por animais desde miúda. “Aos 17 anos, ainda no secundário, comecei a fazer voluntariado numa associação de animais abandonados no Barreiro. E foi aí que comecei a ficar mais alerta para estas questões.”

Com a ida para a universidade, em Lisboa, teve acesso a outro tipo de organizações, fez trabalho com os sem-abrigo, deu explicações, no Lumiar, num centro para crianças, e trabalhou numa casa de saúde mental. “Fui expondo-me a outras realidades. E participando em organizações diferentes para perceber o que gostava mais de fazer e me preenchia mais. O que mais gostei foi o trabalho com animais.” 

Partiu para o Quénia através da AESEC, uma ONG que faz trabalho humanitário em várias zonas problemáticas do globo. “Foi a primeira vez que estive cá. Através dessa organização tive acesso a uma base de dados dos locais onde eles precisam de ajuda. O projeto envolvia crianças pequenas, era o que eu procurava. Dava apoio a uma professora, numa escola com 25 alunos.”

O apoio estende-se ao pagamento de rendas de casa, sobretudo de mulheres que ajudou a retirar dos maridos, porque eram vítimas de maus tratos. “Temos também quem faça doações mensais, variáveis ou não, que nos permite pagar o aluguer do nosso espaço, o pagamento do salário dos 12 funcionários que trabalham cá e que basicamente nos permite ter o centro aberto durante os 365 dias do ano.”

 

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