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Homens sem barba e só carros brancos. Este país tem as leis mais bizarras do mundo

As estátuas megalómanas e os monumentos em mármore branco são impressionantes, mas é mais conhecido pelas regras absurdas.
Só regras estranhas.

Os homens com menos de 70 anos não podem ter barba nem cabelo comprido, os carros pretos estão proibidos de circular nas estradas, os apresentadores de televisão não podem usar maquilhagem, as redes sociais estão banidas e há todo um culto à personalidade dos líderes. Podia ser a sinopse de um livro sobre um mundo utópico, mas, na verdade, são algumas leis de um dos países mais isolados do mundo — e não, não é a Coreia do Norte.

Situado na Ásia Central, o Turquemenistão, que faz fronteira com o Cazaquistão, Uzbequistão, Afeganistão e Irão, é uma terra envolta em mistério e contradição, com uma das ditaduras mais fechadas do mundo. Apesar dos monumentos impressionantes, a verdadeira peculiaridade do antigo país soviético são as regras bizarras e até extravagantes demonstrações do poder.

Desde que o país foi estabelecido, em 1991, após o fim da União Soviética, que o Turquemenistão tem sido governado por líderes autoritários. É um dos destinos menos visitados do mundo e os poucos que se aventuram a entrar lá ficam completamente chocados com as regras incomuns — e não só.

A surpresa começa logo na capital, Ashgabat, que entrou para o livro do Guinness World Record em 2013 por ter a maior coleção de edifícios de mármore branco do mundo. São 543 no total, abrangendo uma área de 4,5 milhões de metros quadrados. Esta não foi, contudo, a última vez que o país bateu recordes.

Além de ter o quarto mastro de bandeira mais alto do mundo, com 133 metros, a capital do Turquemenistão é detentora do maior complexo de fontes de sempre (com 27 fontes sincronizadas), a maior roda-gigante fechada e a maior imagem arquitetónica de uma estrela. O elemento decorativo octogonal da Estrela de Oguzkhan faz parte da torre de comunicação e de observação em Ashgabat, com 211 metros de altura.

Mais recentemente, no dia 17 de maio, foi inaugurada também uma das estátuas mais altas do mundo, com 80 metros de altura. O monumento de bronze, erguido a sul da capital, no sopé das montanhas Kopet-Dag, foi construído em homenagem ao poeta mais famoso deste país da Ásia Central, Magtymguly Pyragy.

A estátua foi criada por Saragt Babayev, autor de outras obras monumentais do destino, como as estátuas douradas que representam o ex-presidente Gurbanguly Berdymukhamedov (43 metros) e a raça canina Alabaï (15 metros). “Queria encarnar a grandeza de um humanista e de um poeta cujo nome está entre os escritores eminentes do Oriente”, contou o escultor à AFP.

A estátua de Magtymguly Pyragy.

Não há dúvidas de que o Turquemenistão tem um talento nato para estabelecer recordes do Guinness, muitas vezes liderados apenas pelo próprio país — e não são só relacionados com monumentos e obras arquitetónicas. Alguns deles são bem caricatos, como o maior seminário sobre cultivo orgânico de melão, o maior desfile de ciclismo ou a maior aula de ecologia do mundo.

Presidente da Vida

À primeira vista podia ser um país relativamente normal, mas nem os recordes escondem o que se passa realmente lá dentro. O maior excêntrico de todos foi Saparmurat Niyazov, que liderou o Turquemenistão entre 1991 e 2006 (ano em que morreu) e detinha o poder absoluto. Era conhecido como “o pai de todos os torcumanos” e até se proclamou como o “presidente da vida”.

Niyavoz desenvolveu todo um culto à sua personalidade no país. O livro que escreveu em 2001, intitulado “Ruhnama” (“Livro da Alma”), tornou-se não só uma leitura obrigatória, como um guia moral para o país. O primeiro volume oferecia a interpretação filosófica da história do destino pelo presidente e era estudado diariamente nas escolas. Os adultos, por sua vez, deviam lê-lo todos os sábados. 

O livro deveria estar também em todas as mesquitas, que arriscavam ser demolidas caso não cumprissem com o pedido. E como se tudo isto não fosse suficiente, ainda mandou erguer uma estátua de Ruhnama na capital. Todas as noites, às 20 horas, as tampas do monumento eram abertas e ouvia-se uma parte do livro. O ditador chegou a lançar a obra ao espaço em agosto de 2005, visando aqui a sua conquista além dos limites da Terra.

Em 2013, após a morte de Niyazov, o agora ex-presidente Gurbanguly Berdymukhamedov ordenou a remoção de Ruhnama em todas as escolas e universidades — mas muitas das leis e medidas bizarras mantiveram-se. E acrescentou tantas outras.

A estátua.

Leis e regras bizarras

Uma das que foi mantida é, possivelmente, a mais absurda de todas: apenas homens com mais de 70 anos podem ter barba. Os restantes não estão autorizados nem a ter pelos faciais, nem cabelos compridos. Isto porque nas regiões predominantes muçulmanas, antigas regiões soviéticas, ter uma barba espessa é vista como um sinal de ser um seguidor do extremismo religioso, com “tradições islâmicas não convencionais”.

Em 2023, houve relatos de que a polícia forçava os jovens a desfazerem a barba, impedindo-os de embarcar em aviões ou comboios. As autoridades exigem ainda que os homens assinem um compromisso por escrito de que não deixarão crescê-la no futuro. Os que se recusam a fazê-lo são levados para a esquadra.

Além desta medida, Niyazov também proibiu jogar videojogos, ouvir rádio no carro, fumar em público e assistir à ópera ou ballet. Os apresentadores de televisão também foram impedidos de usar qualquer tipo de maquilhagem porque o ex-presidente descobriu que “não conseguia perceber a diferença entre eles quando a usavam”.

Em 2008, a proibição de ir à ópera e ao ballet foi revertida, mas o antigo líder, Gurbanguly Berdimuhamedow, implementou outras medidas bizarras Uma das mais peculiares é a proibição de carros pretos na capital, assim como carros sujos. 

Tudo aconteceu em 2015, quando o líder cancelou as importações de carros pretos. Dois anos depois, levou as coisas ainda mais longe e ordenou que toda a população só comprasse carros brancos ou prateados. Se, por acaso, possuíssem um veículo preto, teriam de o pintar.

O governo não forneceu qualquer explicação que sustentasse esta medida, mas alguns meios de comunicação adiantaram que o presidente é supersticioso e acredita que o branco traz boa sorte. Desde 2014 que Gurbanguly Berdymukhamedov — que esteve no poder até 2022, altura em que foi sucedido pelo filho, Serdar Berdimuhamedow — que tomou algumas decisões excêntricas, segundo a “BBC”. Obrigou todos os cidadãos a removerem os aparelhos de ar condicionado para tornar a capital “mais estética”.

Considerando estas regras, não surpreende que as redes sociais sejam bloqueadas no país. Como alternativo, o governo criou o Bizbarde, uma aplicação que funciona como o Whatsapp, mas controlada pelas autoridades. O mesmo acontece com o Belet Video, uma alternativa ao YouTube, onde todos os vídeos online são filtrados. 

O atual presidente anunciou, em meados de janeiro de 2023, a intenção de “reforçar a cibersegurança do país”, dando continuidade às políticas restritivas dos seus antecessores. Sem qualquer panorama mediático, tudo o que a população vê é propaganda para promover o culto à personalidade dos líderes.

Uma denúncia recente revelou ainda que as alunas das escolas secundárias estão a ser submetidas a testes de virgindade sem autorização dos pais. “Nas cidades de Balkanabat e de Turkmenbashi [ambas na província costeira de Balkan], todas as alunas do 9.º ao 11.º ano são forçadas a submeter-se ao exame ginecológico”, disse à Rádio Europa Livre (RFL/RL) um funcionário dos serviços de educação que pediu o anonimato. 

Além dos testes, a polícia verifica frequentemente os telemóveis das raparigas que estão nessa lista, em busca de informações sobre as suas supostas relações. “Os agentes explicam que isto é feito para identificar e levar à justiça pessoas que tenham relações íntimas com menores”.

Também no ano passado, o Turquemenistão lançou uma série de restrições contra as mulheres, proibindo-as de usar roupas “apertadas”, de pintar o cabelo ou de realizar cirurgias estéticas, como o aumento do tamanho dos seios. A medida fez com que dezenas de hospedeiras de borda e funcionários do serviço ferroviário nacional fossem demitidas por, supostamente, terem os lábios ou o peito melhorados cirurgicamente.

É um dos países mais isolados do mundo e um dos que menos recebe turistas, pelo que visitar o destino não é propriamente fácil. Só é possível entrar com passaporte e visto, cujo pedido demora 20 dias a ser processado. É também necessária uma carta-convite que terá de ser certificada pelo Serviço de Emigração do Turquemenistão. Se viajar em turismo, é possível obter o documento recorrendo a uma agência de viagens autorizadas.

De Lisboa, encontra bilhetes de ida e volta desde 1.065€. Caso apanhe o avião no Porto ou em Faro, os valores começam nos 1.005€ e 1.280€, respetivamente.

Carregue na galeria para ver algumas imagens do Turquemenistão.

 

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