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João vai percorrer o mítico e desafiante Pacific Crest Trail com um objetivo solidário

O enfermeiro de Lisboa prepara-se para atravessar os EUA com uma mochila às costas. São 4.265 quilómetros e cerca de quatro meses a andar.
Tem 33 anos.

20 de outubro de 2019. Fábio Inácio tinha acabado de percorrer os mais de 4.000 quilómetros do Pacific Crest Trail, depois de 108 dias a andar, tornando-se assim o primeiro português (de que há registo) a fazê-lo. Inspirado pelos feitos do fotógrafo e viajante, João Sintra prepara-se agora para embarcar numa aventura semelhante. Com uma mochila às costas, quer completar o percurso pedestre que atravessa literalmente os EUA — e vai levar uma missão solidária com ele.

Com 4.265 quilómetros, o Pacific Crest Trail é o rei das caminhadas, dos desafios pessoais e naturais. Liga a fronteira a sul com o México, até à fronteira a norte com o Canadá, passando pelos estados da Califórnia, Oregon e Washington. O trilho atravessa ainda percursos e naturezas inóspitas, da Sierra Nevada ao Cascade Range, por lagos, desertos, por lugares sem humanos e quase sem comida. É este o desafio que o enfermeiro de Lisboa de 33 anos se propôs a cumprir.

A jornada épica arranca a 27 de maio, mas a ideia de fazer um projeto do género já vem de há muito tempo. João esteve seis anos ao serviço da Força Aérea Portuguesa como enfermeiro de voo e sempre quis fazer algo “fora do ramo da enfermagem” e com uma vertente solidária.

“Soube do caminho do Pacífico Crest Trail há uns anos e desde então que ficou aquele bichinho. Quando decidi que ia terminar o contrato na Força Aérea, em janeiro deste ano, sabia que era a melhor altura para o fazer e sair da rotina da minha profissão”, conta à NiT o lisboeta.

A atividade física sempre esteve bastante presente na vida do enfermeiro. Quando era miúdo praticou natação, ténis e chegou a jogar futsal federado. Adorava os desportos coletivos, mas a paixão pelas viagens fez com que se apaixonasse também pelas atividades outdoors, como as caminhadas.

Nos últimos anos percorreu a pé o Caminho de Santiago português, desde o Cercal até Santiago de Compostela (125 quilómetros) e completou a West Highland Way, a maior rota de longa distância da Escócia, subindo até à montanha Ben Nevis, o ponto mais elevado do Reino Unido (175 quilómetros). 

Pelo meio, também aproveitou o tempo livre para caminhar no Gerês, Pirinéus, Dolomitas e Monte Agung. Agora, esperam-lhe mais de 4.000 quilómetros pela frente. “O desporto sempre fez parte da minha vida. Faço ginásio e cardio praticamente todos os dias. A maior dificuldade agora será mesmo fazer estas atividades em diferentes tipos de ambiente, como a neve e as condições climatéricas mais adversas”, explica.

O primeiro contacto que teve com este percurso inédito foi através de Fábio Inácio, um dos únicos português a fazê-lo. A curiosidade levou-o a assistir a “Wild”, o filme biográfico de 2014 que segue Cheryl Strayed na caminhada de 4.000 quilómetros, sozinha e sem nenhuma experiência. A vontade, essa, foi continuando a crescer, mas a disponibilidade não era muita e a ideia foi deixada em standby. Até agora.

Juntou dinheiro (a associação Pacific Crest Trail sugere levar entre 7.000 a 10.000 euros para todas as despesas), recolheu informações, pediu o visto e a permissão de caminhada e, já sem volta a dar, marcou o voo de ida. Parte para os EUA a 20 de maio e, sete dias depois, recuperado do jet lag, iniciará a aventura, à qual deu o nome de Unknown ETA Road — e que todos podem acompanhar através do Instagram.

A caminhada arranca a sul, perto da fronteira do México, e a estimativa é “não exceder os quatro meses e meio”, mas os imprevistos, numa aventura deste género, são muitas vezes inevitáveis. “Vou estar bastante tempo fora da minha zona de conforto e não quero tomar riscos desnecessários nem entrar em grandes loucuras. Podem acontecer sempre imprevistos, como aparecimentos de fogos ou condições climatéricas adversas”, diz.

O enfermeiro está a apontar caminhar cerca de 35 quilómetros por dia, um número que deverá ser menor numa fase inicial “para se adaptar ao ritmo”. “A primeira parte vai ser mais árida e de deserto, portanto o corpo tem de se habituar a este novo estímulo e poderei ter que reduzir para andar pouco mais de 20 quilómetros. Assim que o corpo estiver preparado, aumento”, explica.

Quanto às noites, adianta que 80 ou 90 por cento das mesmas serão passadas a acampar dentro da tenda que vai levar na mochila de 60 litros. Ainda assim, sempre que possível, vai “procurar ter uma noite como deve ser”. 

Apesar de se sentir preparado para percorrer o Pacific Crest Trail, confessa que “há sempre receios”, especialmente por problemas que não é possível controlar, como a meteorologia adversa, os ursos ou as cobras que poderá vir a encontrar pelo caminho. “Há reportes de que há um surto de norovírus num troço específico do caminho. Este vírus faz-nos vomitar e causa diarreia e isso, no meio do deserto, é o primeiro passo para a desidratação. É o tipo de situações para as quais tenho de estar alerta”, adianta.

Além do desafio, João decidiu incluir também uma parte solidária. “Já há muito tempo que tinha vontade de fazer algo de cariz solidário. Escolhi a Liga Portuguesa Contra o Cancro devido a uma situação familiar e, para mim, era a que fazia mais sentido”, confessa. 

O objetivo é atingir um euro por cada quilómetros percorrido, totalizando assim 4.260€, mas se conseguir mais, “ainda melhor”. As doações deverão abrir em breve e a angariação de fundos vai estar disponível na página de Instagram de João Sintra.

Mais do que atravessar os EUA de sul a norte, o enfermeiro espera “conhecer coisas novas e sair da zona de conforto”. “Hoje em dia vivemos tudo a um ritmo alucinante e vivemos com tanta coisa às vezes tão supérflua. O que espero é conseguir abstrair-me, aproveitar o que realmente é importante e, ao mesmo tempo, angariar o máximo de dinheiro possível para esta causa que me toca de uma forma especial”, sublinha.

 

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