Viagens

A jovem portuguesa que nasceu numa aldeia em Soure e agora viaja pelo mundo

Joana Góis começou a trabalhar aos 15 anos para ajudar a família, foi empregada da Primark e depois chegou o seu imprevisto sonho: ser comissária de bordo.
De uma aldeia em Coimbra até ao Dubai.

A vida dá muitas voltas e às vezes essas voltas são mesmo voos de longa distância. Numa altura em que o mundo da aviação tenta ganhar asas em tempos de pandemia, a NiT falou com Joana Góis, uma jovem que nunca imaginou que, vinda de um pequena aldeia para os lados de Coimbra, haveria de chegar tão longe.

Com 28 anos, Joana conta-nos que começou a trabalhar desde cedo, fruto das circunstâncias. “Sempre trabalhei muito, desde os meus 15 anos. Os meus pais separaram-se, tinha um irmão mais novo e a minha mãe não tinha muitas possibilidades”.

A jovem cresceu em Santo Isidro, uma aldeia no concelho de Soure que teria cerca de uma centena de habitantes. Licenciou-se em Comunicação Social, trabalhando durante o curso para o poder pagar. Quando terminou, teve de se aventurar, ainda muito à descoberta, por entre candidaturas e entrevistas.

“Até cheguei a ir a uma entrevista à NiT”, conta bem-disposta. Ainda estagiou na TVI, tentou ficar por Lisboa, mas o mercado de trabalho na área não era fácil e acabou por ir trabalhar para a Primark. Já gostava de moda e acessórios, mas aqueles dois anos e meio deixaram-lhe a sensação de que faltava algo mais.

“Como tinha feito tanto esforço para tirar o meu curso para continuar a trabalhar numa loja, não era uma situação que queria manter”, recorda. “Na altura nunca tinha andado de avião, nunca tinha sequer saído de Portugal”. Entendia bem o inglês mas sem o domínio que tem hoje. Mas uma amiga estava a tentar ser comissária de bordo e isso despertou a curiosidade. “Pensei: por que não?”. E lá foi, numa candidatura à companhia aérea Fly Emirates.

Foi assim que voltou para Lisboa e entre 400 pessoas que se candidataram passaram 14. Joana estava entre elas. “Nem sei como passei mas acho que eles pensaram ‘esta miúda quer mesmo isto’. E sou muito grata por meterem escolhido”.

“Acho que quando estás numa coisa só mais à aventura tens melhores resultados. Quando ia a entrevistas na área ficava muito nervosa”, explica-nos Joana. Foi assim que, em modo vamos-lá-descobrir, a tal aventura a levou aos céus.

“Nunca tinha sequer pensado viajar o mundo ou trabalhar numa cabin crew. Acho que me apaixonei por viagens com o tempo, depois de já estar aqui. E não é só o voar e viajar, é o contacto com as pessoas, as ligações que tenho a bordo com outras pessoas, outras culturas. Nós como tripulação trabalhamos com pessoas de todo o mundo e isso é um desafio interessante da profissão”.

Em paralelo, foi desenvolvendo a sua paixão pela moda, algo que os perto de 80 mil seguidores que a acompanham no Instagram têm visto ao longo dos últimos anos. A moda também é uma questão de criatividade. O que quer dizer que não é preciso gastar fortunas para se vestir bem.

“Sempre gostei de inventar um bocadinho, de descobrir aquelas pechinchas. Já na Primark dava-me ao trabalho de pesquisar peças antigas, de ir a feiras espreitar peças em segunda mão. Agora até tenho mais possibilidades financeiras mas tento sempre ao máximo mostrar que é possível estar na moda sem gastar muito dinheiro.É também isso que tento passar no meu Instagram”.

A pandemia tem sido violenta para muitos setores da economia mas a aviação foi dos setores que sentiu, mais cedo e com particular violência, o desafio. Para Joana, isto representou mesmo estar em terra mais tempo do que desejava. E daquilo a que entretanto se habituara.

“Nós também ficámos por aqui em confinamento nos primeiros meses”, conta sobre a experiência. “De março até junho fiz talvez três ou quatro voos. Em tempos normais se calhar faço um voo por mês”. Isso sentiu-se um pouco na carteira, que entretanto já recuperou, mas também no espírito — que está bem melhor mas ainda a recuperar.

“Foi complicado, para mim e para qualquer outra pessoa. Especialmente nós que viajamos muito e de repente vemo-nos fechados em casa. É um pouco a nossa alma que é fechada em casa”.

Aqueles voos nos primeiros tempos de pandemia até foram maioritariamente de repatriação, para levar até casa pessoas que tinham sido surpreendidas pela pandemia e se viam longe dos respetivos países. Entretanto, o Dubai tem voltado a apostar mais no turismo e isso começa-se a notar, “o que é bom”.

Das medidas de segurança nos aeroportos às mudanças a bordo, as diferenças são notórias. “Agora trabalhamos com máscara, viseira, luva, avental, em alguns voos de touca”, são equipamentos de proteção da cabeça aos pés. “Estamos muito seguros no ar, sentimos isso”

Para 2021 não é fácil fazer previsões, admite. Ainda assim, a bordo nota que “as pessoas querem viajar. Há muita vontade de viajar e isso nota-se. E amo ver que em voos onde vou agora ver que há pessoas que estão mesmo felizes, por sair”.

Numa altura em que o mundo inteiro passou a concentrar atenções nos planos de vacinação, é inevitável a expectativa pelo que aí vem. No caso de Joana, vai certamente continuar a voar. E ela que adora este lado de conhecer pessoas tão diferentes nos ares, deixa o convite. “Este foi um ano que nos mostrou muita coisa, incluindo que a vida é curta e temos que aproveitar. Isso não quer dizer ter que fazer loucuras mas se calhar há aquela viagem que vamos adiando e que se calhar chegou a hora”.

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