Viagens

Mara pedalou 17 mil quilómetros pela América do Sul. Só parava para desenhar

A portuguesa partiu de Bajouca há precisamente dois anos, numa bicicleta que custou 50€. Agora vai lançar um livro com as pinturas que fez pelo caminho.
Tem 27 anos.

Quando Mara Mures partiu em Bajouca, em Leiria, no dia 3 de fevereiro de 2022, o seu plano era percorrer a América do Sul de bicicleta durante três meses. A epopeia da artista plástica freelancer acabou por durar ano e meio.

Com vários cadernos na mochila e “uma bicicleta que custou apenas 50€”, a jovem de 27 anos pedalou 17 mil quilómetros, atravessando nove países. Foi uma viagem de ida, como ela própria a descreve, que agora pode ser recordada num livro de memórias com o mesmo nome. Ao folhear as cerca de 300 páginas, encontrará histórias e desenhos de paisagens e pessoas com quem se cruzou no percurso. Afinal, os blocos de papel e os materiais de pintura foram os seus companheiros mais fiéis nesta aventura.

Mara adora pintar desde miúda, mas essa paixão ganhou ainda mais força quando andava no secundário e decidiu seguir Artes. Não passava um dia sem desenhar e, ainda hoje, não sai de casa sem uma folha de papel ou um caderno. Quando decidiu fazer uma viagem de bicicleta pela América do Sul, sabia que seria impensável deixá-los para trás.

Nascida e criada na pequena aldeia leiriense, sempre teve por hábito pedalar para todo o lado. “Sempre precisei andar de bicicleta, era o meu meio de transporte, apesar de nunca ter praticado ciclismo”, conta à NiT.

A ideia de se aventurar até ao outro lado do mundo surgiu após uma viagem de bicicleta com uma amiga por Portugal. Foi apenas uma semana e soube a pouco. “Nesse momento, decidi que queria planear algo maior. O meu pai fez muitas viagens assim, ia até ao Algarve e voltava, e sempre tive essa motivação”, admite.

 
 
 
 
 
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Depois de muito pensar, lá se decidiu a seguir-lhe as pisadas — e foi precisamente com a bicicleta que o pai comprou a uma vizinha por 50€, que se fez à estrada. Aterrou em Buenos Aires, na Argentina, um país onde confessa “sentir-se em casa”. Não tinha grandes planos delineados, mas sabia que queria chegar a Ushuaia, a cidade mais a sul do planeta. “A ideia era regressar a Portugal depois, mas percebi que afinal não era assim tão importante. Não gastava assim tanto dinheiro, por isso continuei”, confessa. 

Nos meses seguintes, cruzou o Chile, o Uruguai, o Brasil, Paraguai, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela, conheceu pessoas incríveis e paisagens que nem pareciam reais. Era nesses momentos que pousava a bicicleta temporariamente, tirava os cadernos e os materiais de pintura da mochila, e começava a desenhar.

“Pintava sempre que podia, assim sítios mais icónicos, como o Machu Picchu, as Cataratas de Iguaçu. Às vezes demorava umas duas horas”, conta. No final, chegou a casa com seis cadernos preenchidos, não só de desenhos, mas também com algumas frases. “Sou um bocado esquecida, então tentava escrever todos os dias o que me tinha acontecido, ou expressões que ouvia em cada país”, diz.

Apesar de ter viajado sozinha, nunca se sentia só. “Sempre gostei desta ideia de viajar a solo, dá-me mais liberdade, posso escolher tudo o que quero fazer. Além disso, há sempre pessoas pelo caminho”, admite.

Recorda-se, por exemplo, dos dias em que esteve numa quinta no Uruguai a fazer permacultura e a ajudar a “construir umas paredes”. “Foram duas semanas em que bebi água do rio. Acabei por ficar com parasitas no intestino, mas todo o tempo que lá estive foi inspirador”, confessa.

As montanhas do Peru, claro, são “místicas”, mas nem tudo correu bem quando visitou este país da América do Sul. “Um mototáxi, estilo tuk tuk, chocou contra mim. Ele conduzia à maluca e bateu-me, fiquei cheia de arranhões nas pernas e tive de levar 12 pontos no braço”, recorda. O condutor, sensibilizado com a situação, acabou por oferecer-lhe a sua casa durante a recuperação.

O trajeto.

Um dos maiores desafios foi enfrentar o frio que se fazia sentir na Patagónia, em pleno inverno, e subir montanhas de até 4.000 metros de altura na Bolívia e Peru. As noites eram passadas maioritariamente na tenda que levava consigo, mas houve dias em que arranjou estadia com famílias locais.

Quanto aos gastos, tentava não gastar muito, uma vez que a viagem era financiado apenas por si, mas confessa que não tinha “um orçamento específico”. Por vezes, conseguia vender uns desenhos e pintava murais nas casas das pessoas.

A jornada terminou em agosto do ano passado, altura em que regressou para Portugal. No dia 3 de fevereiro, sábado, precisamente dois anos após o início da aventura, Mara vai apresentar “Uma Viagem de Ida” e inaugurar a exposição inspirada na viagem, com pinturas, esculturas e outras peças. O encontro está marcado para a Casa Varela, em Pombal. Quanto ao livro, as encomendas podem ser feitas através do e-mail marabajouca@nullgmail.com. Custa 35€.

Após pedalar em média 70 quilómetros por dia durante 18 meses, Mara prepara-se para uma segunda aventura de bicicleta. Desta vez, vai partir de Bajouca em direção à Ásia, no final de fevereiro. “Vou sem pressa, sem tempo e sem destino definido”.

Carregue na galeria para ver alguns dos desenhos que Mara Mures fez durante a viagem.

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