Durante uma passagem por Fulanga, uma ilha remota nas Fiji, Margarida Durán conheceu uma das histórias mais marcantes dos primeiros meses da sua aventura pelo Oceano Pacífico. A jovem, natural de Oeiras, partiu numa viagem de cerca de um ano em março, com o objetivo de dar a conhecer os projetos de conservação marinha em todo o mundo.
“Encontrei a Liti, uma pescadora, e perguntei-lhe se podíamos ir pescar no dia a seguir com ela”, recorda à NiT a bióloga marinha de 24 anos. “Ela olhou-nos com uma cara surpresa, mas depois, à medida que fui falando com ela para perceber um bocadinho a história, achei-a uma mulher super independente”.
A portuguesa ficou encantada ao descobrir que a pescadora não era casada, nem tinha filhos — vivia sozinha numa casa da ilha e, diariamente, pescava a sua própria comida. Naquela região, é habitual as mulheres estarem ligadas, sobretudo, à vida doméstica.
“Achei super inspirador porque ela basicamente aprendeu a fazer tudo sozinha”, refere. “Senti mesmo um grande empoderamento feminino nesse aspeto da pesca que, por exemplo, no nosso país é muito mais masculino”.
Desde que partiu de Portugal em direção às ilhas Fiji, em março, a pesca tem sido uma das principais atividades para Margarida. A jovem está a viver temporariamente num veleiro com mais duas pessoas, entre elas o capitão.
Tudo começou ainda em 2025, quando criou o projeto Omali. O objetivo é dar a conhecer, através das redes sociais, iniciativas de conservação marinha que existem um pouco por todo o mundo. A jovem concorreu à bolsa Emunicipa-te 2025, da Gap Year Portugal, e foi uma das vencedoras — acabou por ganhar um ano de viagem patrocionado pelo projeto.
O interesse pela natureza, mais precisamente tudo o que envolve o mar, é antigo. Embora nunca tenha praticado desportos marinhos, quando chegou a altura de escolher aquilo que queria seguir como profissão, não pensou duas vezes.
Em 2023, antes de iniciar um mestrado em Biologia Marinha e Conservação, no ISPA (Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida), rumou até São Tomé e Príncipe para participar no projeto Tatô, destinado a tartarugas marinhas. “A abordagem deles é um bocadinho diferente de muitas organizações porque eles contratam pessoas locais e basicamente só têm dois ou três portugueses a trabalhar para eles”, refere. “Querem incentivar e dar ferramentas às pessoas para conseguirem fazer a conservação no seu próprio país”.
Durante seis meses, aprendeu de perto tudo sobre a conservação das tartarugas marinhas. E quando voltou para casa, sabia que tinha de fazer algo relacionado com este tema. Depois de concluir o mestrado, decidiu criar o Omali, que significa “mar” em crioulo.
“Nesta altura, pensei que seria interessante juntar o que estudei com o projeto que dá a conhecer iniciativas de conservação em diferentes países”, explica. “O objetivo é mostrar que é que está a acontecer, em realidade, nestas ilhas mais remotas, com as alterações climáticas no oceano.”
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Assim que chegou às ilhas Fiji, Margarida começou a pesquisar embarcações nas redes sociais. Foi no Facebook que se deparou com um capitão inglês que procurava tripulação para embarcar numa aventura pelas ilhas do arquipélago. A portuguesa não pensou duas vezes.
“Somos três pessoas e estamos neste momento no Grupo Lau, o arquipélago mais remoto”, refere. “Estou mesmo a conseguir ver todas estas alterações que acho impressionantes”.
O objetivo da jovem tem sido criar um conteúdo simplificado, realista e fácil para o público das redes sociais perceber os impactos das alterações climáticas e de outros fenómenos no oceano. “As pessoas veem todo este impacto nas notícias, mas às vezes é necessário mesmo mostrar exemplos específicos, e queria ser essa ponte entre o que aparece na televisão e a realidade.”
Até à data, a bióloga já fez um vídeo sobre os corais e os pepinos do mar. “Numa ilha em que estive na semana passada, os corais estavam todos brancos”, lamenta. “É muito triste de se ver mas é a realidade”, acrescenta.
Isto acontece quando os animais estão sob stress extremo, normalmente devido às altas temperaturas ou ao elevado nível de poluição do mar. Como resultado, acabam por expulsar as microalgas (responsáveis pelas cores vibrantes) que vivem nos seus tecidos.
“Agora também estou noutra ilha, em que as próprias pessoas já estão a tomar precauções”, refere. “O nível da água está a subir e o governo pediu para mudarem a vila de sítio, mas eles não querem. Portanto, estão a colocar passadiços de cimento e a criar diques.”

A vida no barco não é fácil
Um dos principais desafios para Margarida foi habituar-se a viver num veleiro. Nos primeiros dias, a bióloga marinha refere que se sentiu enjoada, mas, aos poucos, começou a adaptar-se. “Precisamos ter sempre atenção à água que consumimos, porque aqui conseguimos produzir água doce através da salgada”, explica. “A energia é através dos painéis solares e temos que saber gerir essa parte também”.
Já em termos de alimentação, a viajante explica que tentam pescar com frequência, mas nem sempre conseguem apanhar peixe. Neste caso, têm de comer enlatados, como atum e grão-de-bico — que têm sempre em abundância no barco, para não correrem o risco de passar fome.
O objetivo da bióloga marinha é permanecer nesta embarcação nas ilhas Fiji até junho. Depois, há um bilhete de ida para a Nova Zelândia. No verão, ainda não sabe qual será o percurso que vai seguir.
“Nesses primeiros meses, quero mostrar o que está a acontecer nestas ilhas remotas. Mas depois, também quero mostrar outros projetos de conservação e tudo o que é que está a ser feito para haver a mudança”, aponta.
Margarida tem entrado em contacto com organizações sem fins lucrativos para perceber o que é que tem sido feito em termos de conservação, regeneração dos ecossistemas, entre outros temas.
“Quero explorar esta parte da comunicação de ciência, ou seja, falar sobre temas relativos com o mar, mas torná-los menos complicados”, sublinha. “Tento fazer vídeos de um minuto porque se for demasiado, as pessoas não prestam atenção. Também pretendo desmistificar algumas ideias.”
Pode acompanhar o projeto criado por Margarida através da página de Instagram. Carregue na galeria para ver imagens da viagem.









