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Mariana mudou-se para uma ilha na Noruega e agora vê auroras boreais todas as noites

A jovem de 29 anos começou a trabalhar num parque de campismo à beira-mar, em 2020, e nunca mais quis sair de lá.
Mudou-se para a Noruega.

Ver com os próprios olhos o fenómeno das auroras boreais é um sonho para a maioria das pessoas. Vistas de perto, parecem enormes ondas coloridas que brilham, mas apenas são visíveis nos países mais próximos do Polo Norte — e até aí é preciso ter alguma sorte. Não basta apanhar um avião para a Noruega, Finlândia ou Islândia para assistir ao fenómeno. 

São difíceis de apanhar e, por vezes, é preciso percorrer quilómetros de carro e fugir da poluição luminosa, para as conseguir ver. E, ainda assim, muitos turistas regressam a casa desgostosos porque não realizaram o sonho. 

Mariana Pisa não faz parte do grupo dos desgostosos. A portuguesa de 29 anos mudou-se para uma ilha praticamente intocada na Noruega e, agora, confessa à NiT, vê auroras boreais “quase todas as noites” — e nem precisa de sair do quarto. É uma das grandes vantagens de viver em Andøya, a ilha mais ao norte do arquipélago de Vesterålen, situada a cerca de 300 quilómetros do Círculo Polar Ártico. 

“De carro, é possível fazer a volta à ilha em apenas duas horas”, conta Mariana. Não é dos destinos mais conhecidos da Noruega, como Lofoten ou Svalbard, e a jovem descobriu-o um pouco por acaso.

Desde que começou a trabalhar, após ter estudado Arte Multimédia e Audiovisual, em Lisboa, que juntava dinheiro para viajar. “Viajei pela primeira vez sozinha para a Alemanha, e tornou-se uma paixão. A verdade é que não me sentia muito realizada profissionalmente em Portugal e não era propriamente feliz em Lisboa”, confessa.

Tem 29 anos.

Confessa ser uma pessoa que gosta mais do campo e sempre teve a ideia de passar uma temporada fora do país. Em 2019, despediu-se do emprego e começou a fazer mais viagens sozinha, mas “o dinheiro não dura para sempre”. Então, começou a procurar uma forma de conseguir o melhor dos dois mundos: conseguir dinheiro enquanto viaja, de preferência num país que pagasse bem e que nunca tenha visitado. O primeiro destino que lhe veio à mente foi a Noruega.

“Inscrevi-me no VidaEdu, um programa que ajuda a fazer intercâmbio para trabalhar noutros países. Tem voluntariados e trabalhos profissionais remunerados. Fiz um perfil e comecei a receber propostas”, recorda. Já tinha tudo marcado para começar a trabalhar durante três meses num hotel no sul da Noruega, mas foi tudo cancelado devido ao Covid. Ainda assim, não desistiu.

“Falei com as pessoas do programa e disse-lhes que continuava interessada em ir para fora. Só não queria ficar fechada em Portugal”, diz. Foi então que recebeu a proposta para trabalhar num parque de campismo em Andøya. “Quando recebi o e-mail, senti que aquele era o meu lugar. Comecei a pesquisar mais sobre a ilha, sobre as baleias, as auroras boreais, a natureza remota”, destaca.

O parque de campismo

Ao contrário de outros destinos mais conhecidos na Noruega, ali o pico do turismo é no verão. Então, no final de junho de 2020, embarcou num avião em direção a Oslo, apanhou outro para Tromsø, onde dormiu no aeroporto, e voou para a ilha onde iria ficar nos três meses seguintes — ou assim achava ela.

Quando chegou já havia o chamado sol da meia-noite, o fenómeno natural onde o sol é visível durante 24 horas do dia. “Estava tão entusiasmada que o meu corpo ainda não conseguia acalmar. As montanhas ainda tinham neve, mas só havia sol. Fiquei abismada com a natureza, mas estava com uma vontade enorme de começar a trabalhar”, recorda.

Mariana começou a trabalhar no Stave Camping, um parque de campismo inaugurado em 1989. Desde 2016 que os responsáveis pelo complexo são Inger Anne (veterinária) e Ronny (ex-militar), o casal que acolheu a jovem portuguesa como se fosse parte da família. Chegaram à ilha há 10 anos e compraram o campismo a um americano. O espaço, contudo, estava muito velho e dedicaram-se a modernizá-lo. Hoje é “quase um campismo de luxo, com muitas condições”.

Ali fazia um pouco de tudo: começou pelas limpezas, porque não sabia falar norueguês, mas no final do verão já estava pronta para ficar na receção e receber os turistas. “Esperávamos que fosse um verão calmo, mas a verdade é que explodiu. Os noruegueses, como não podiam viajar por fora, decidiram ir todos acampar aqui. Ficou a abarrotar com turistas e trabalhávamos todos os dias, imensas horas. Eu e os meus chefes acabámos por ligar uma ligação muito forte juntos”, recorda.

O parque de campismo.

No final do verão, já Mariana estava pronta para se despedir da ilha, quando Inger e Ronny lhe fazem uma nova proposta: “e se passasses aqui o inverno?”. E assim foi. “Fomos passear muitas vezes, fui conhecer a família deles, fazia babysitting aos dois filhos dele e acabaram por me adotar como família. Acho que foi isso que fez com que ficasse lá”, admite.

Apesar do campismo não estar aberto durante a temporada de inverno, prepararam-se para o próximo verão — o segundo de Mariana. Foi aí que decidiu prolongar a estadia ainda mais tempo. “Decidi que o que queria mesmo era viver nesta ilha. Mudei-me do campismo, agora vivo noutra vila e tenho outro trabalho numa loja de cosmética, mas continuo a fazer algumas horas no parque”, diz.

O parque está localizado à frente da praia de Stave, com vista incrível para as montanhas e para o mar, que reflete o sol da meia-noite. É possível levar caravanas e tendas para pernoitar no meio da natureza selvagem, mas também têm cabanas e apartamentos onde é possível pernoitar. Recentemente construíram um “apartamento gigantesco de dois andares”, com janelas enormes onde é possível ver as auroras boreais sem sair de casa. 

Outro destaque são as piscinas quentes com vista para o oceano e sauna norueguesa personalizada. Com longos bancos feitos à mãe e paredes de pinho norueguês macio, tem uma enorme janela com vista para a praia e 80 quilos de pedras vulcânicas. A Saune Stave Beach é o “pequeno segredo quente do Ártico da Noruega”.

O Stave Camping tem capacidade para receber até 200 turistas por dia e quase todos terão a oportunidade de ver as auroras boreais sem se afastarem do parque. “Aqui na ilha é algo extremamente normal. Posso dizer seguramente que, se o céu estiver limpo, vemos auroras boreais todos os dias em que existe noite. Normalmente começamos a ver no final de agosto”, adianta.

Como está situado numa zona remota, sem lojas e supermercados perto, basta sair à rua para ver as cores a pintar o céu. Mariana lembra-se perfeitamente do primeiro dia em que viu as auroras boreais ao vivo. “Tinha estado a trabalhar muito, a criar o website do parque, e bebi muito café. De repente dizem-me que tenho de ir lá fora, mas não vi nada de especial. Em segundos, tudo mudou e o céu estava completamente verde e cor de rosa. Fiquei tão emocionada que o meu corpo teve uma reação de tal maneira forte que tive de me ir deitar”, recorda a jovem. Mal sabia que seria a primeira de muitas vezes.

Mariana com os proprietários do parque.

O campismo começa a receber turistas no final de maio e fica aberta até ao final de setembro. As noites rondam os 30€ (se for com autocaravana), 75€ (os apartamentos mais baratos) ou os 400€ (o mais luxuoso) por noite. As reservas podem ser feitas online.

Apesar de funcionar maioritariamente no verão, há planos para começarem a ter mais atividades de inverno, como passeios de trenó ou com huskies, para atrair mais turistas.

Mariana já não está a tempo inteiro no parque de campismo, embora continue “a dar uma ajuda” nos meses de verão. Agora trabalha numa loja de sabonetes naturais e tem o seu próprio negócio: a Norniarts, onde vende artesanato do norte da Noruega.

“Quando me mudei para cá comecei a encontrar muitos ossos de pássaros, renas, alces. Comecei a ficar com uma coleção muito grande e pensei fazer o meu projeto de joalharia com ossos. Também faço gorros com padrões nórdicos desenhados por mim”, explica.

Nas folgas, contudo, aproveita para subir montanhas, fazer caminhadas, tomar banho ao mar e andar de caiaque, algo que só consegue fazer no verão. Nos meses de inverno, diz já estar habituada às temperaturas, que rondam os 15 graus negativos, mas confessa que o mais chocante, ao início, foram as noites que duravam 24 horas e as tempestades. “Este ano tivemos uma tempestade tão grande que ficámos sem eletricidade durante dias. É um desafio conduzir quando há tempestades de neve porque não há mesmo condições”, diz.

Carregue na galeria para ver algumas fotografias da ilha. 

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