Viagens

Matilde partiu à descoberta do sudeste asiático com uma mochila e um bilhete só de ida

A jovem chegou ao Vietname há três meses e já ficou presa num nevoeiro cerrado e fez uma viagem de autocarro que parecia amaldiçoada.
É o sonho de uma vida.

Uma miúda, uma mochila e um bilhete só de ida para o sudeste asiático. É assim que Matilde Mota Manuel se apresenta no Instagram. Ao contrário de muitas outras pessoas da idade dela, nunca ambicionou “assentar” e ter a vida resolvida aos 25 anos. Sempre teve vontade de arriscar, procurar diferentes realidades e descobrir coisas novas. “Jogar pelo seguro sugava a minha felicidade”, confessa à NiT.

Matilde vive em Santa Iria de Azóia, em Loures, e é formada em Engenharia do Ambiente. É fascinada por viagens desde pequena e ansiava embarcar em novas aventuras e ultrapassar desafios. Andou de avião pela primeira vez quando tinha 10 anos, quando foi com a família aos Açores. Os anos passaram e seguiram-se idas a Itália, Espanha, Inglaterra e França.

Até aos 15 anos, passou as férias de verão no parque de campismo de São Pedro de Moel, a acampar na caravana da família. “Sei que o meu espírito aventureiro nasceu e cresceu muito com tudo o que vivi no parque ao longo dos anos. Tudo tinha de ser feito por nós, desde montar o avançado a cozinhar as refeições”, recorda. Mesmo sem saber, as interações com pessoas diferentes todos os dias, o contacto com a natureza e os pequenos desafios do dia a dia acabaram por ajudar a moldar-lhe a personalidade.

A primeira grande viagem sem os pais aconteceu em 2016, quando atravessou a Europa de autocarro até à Polónia com o grupo de jovens católicos a que pertencia para participar nas Jornadas Mundiais da Juventude. Percebeu que quanto mais viajava, mais tinha vontade de conhecer o mundo.

Aos 17 anos, começou a trabalhar, — dava explicações a estudantes do ensino básico — para conseguir juntar dinheiro para as próprias viagens. “Sempre foi esse o meu foco, a minha prioridade sempre foram as experiências em detrimento dos bens materiais”, revela.

Depois, chegou o momento de escolher o curso que queria tirar na faculdade. No mesmo ano, conheceu a Gap Year Portugal (GYP) na Futurália e foi aí que tudo mudou: levou os flyers todos para casa e inscreveu-se, com a mãe, num evento promovido pela associação para ouvir histórias de outros viajantes. Nessa altura, disse-lhe que não queria ir imediatamente para a faculdade — mas foi precisamente o que fez.

A minha mãe torceu o nariz à ideia e esperou-me a faculdade, com a promessa de que um dia iria embarcar na minha aventura. Prometeu-me que, depois de terminar essa etapa, teria a sua aprovação para viajar sozinha para onde me fizesse sentido na altura”, diz. Ainda hoje tem guardado o áudio que gravaram juntas e que o prova. 

Enquanto não chegava o tão esperado momento, Matilde foi fazendo outras viagens: passou um mês em Bali com amigos da faculdade — e descobriu que viajar “não precisa de custar um balúrdio” — e fez o primeiro périplo sozinha para se desafiar a si própria e, em duas semanas, fez a costa da Croácia, explorou a Bósnia e conheceu Itália.

“Nem tudo correu bem, mas fui sempre capaz de encontrar uma solução para os problemas e tomar as decisões necessárias à progressão da viagem. Isso empoderou-me”, revela. Depois destas experiências, ainda participou num projeto de voluntariado com crianças refugiadas em Itália, desafiou a família a acamparem na ilha das Flores e, durante a pandemia, explorou o País de norte a sul com o cão, o namorado, um carro e uma tenda.

Após todas estas aventuras, o fim do percurso académico chegou — era o tempo de começar a concretizar o seu sonho. Nos nove meses seguintes trabalhou em regime full-time e continuou com as explicações para conseguir juntar o dinheiro que precisava para fazer o gap year. “A minha mãe teve dificuldade em acreditar que o meu desejo de adolescente, cinco anos depois, ainda residia dentro de mim. Acho que só caiu nela quando comprei o bilhete de avião.”

O bilhete só de ida para o sudeste asiático

Quanto mais se aproximava o dia da despedida, mais sentia um “frio na barriga e um aperto no peito”. Estava a abdicar do conforto e segurança que tinha, mas isso não a impediu de partir em busca do sonho de miúda. “Sempre soube que era isto que precisava, e era o que estava destinada a fazer há muito tempo”, refere.

Assim, dia 12 de outubro de 2022, embarcou no avião que a levou até ao Vietname. “Pisei a Ásia com a sensação de ter concretizado um sonho, e estava prestes a começar um novo capítulo da minha vida”, confessa. Nessa altura criou a uma página de Instagram, que nomeou “Dharma”, onde vai partilhando todas as experiências.

“Queria dar um nome a este capítulo da minha vida,  a esta aventura que estou a viver, mas não queria forçar nada nem andar propositadamente à procura. Queria que fosse natural, queria encontrá-lo de forma espontânea”, explica. Antes de começar a traçar os primeiros planos de viagem, Matilde passou por uma fase em que se sentia descontente com o rumo que a vida estava a tomar, até porque a única grande vontade que tinha era viajar.

Nesse período em que sentia um caos interno, encontrou um livro chamado “Propósito ‒ A coragem de ser quem somos”. Aí conheceu o significado da palavra Dharma: “é o propósito interno de cada um de nós, a missão que viemos cumprir ao mundo”. É quase como se fosse a “impressão digital da nossa alma”, algo que deveria ser instintivo.

O que vemos acontecer é pessoas a perseguirem um caminho que alguém traçou para elas, mas que não é realmente o que querem. Revi-me neste conceito e dei-me conta de que que também estava a seguir um caminho traçado por outros e não o meu”, explica. Isso mudou quando pisou o continente asiático.

Começou a jornada no Vietname, em Hanói, voou para Chiang Mai (Tailândia) e apanhou vários autocarros para chegar a Laos, onde está atualmente. Ao longo destes três meses, já viveu momentos que a marcaram bastante. Como quando ficou presa num nevoeiro cerrado em Sapa (Vietname) e foi salva por um grupo de motards, ou quando doou bens essenciais a crianças de um orfanato. Também já andou a cavalo sem sela no meio de um rio e sem qualquer experiência, e fez uma “viagem de autocarro amaldiçoada” desde a fronteira de Laos (Huay Xai) até Luang Prabang. Algumas dessas aventuras vai partilhando no Instagram, outras escreve-as no diário de bordo que, um dia, espera dar a conhecer.

Neste momento, Matilde está a fazer voluntariado numa quinta em Laos e é responsável por tratar dos cavalos e ajudar nas aulas de equitação e passeios. Como está a viajar em modo low budget, o objetivo é ir intercalando o trabalho de voluntariado com as deslocações.

“Laos foi o primeiro país em que integrei um projeto de voluntariado e agora espero fazer parte de um outro no sul da Tailândia”, diz. Além disso, pretende fazer parte de projetos relacionados com áreas que lhe interessam, como a sustentabilidade, a ecologia e a vida animal.

Até ao momento, a viagem tem corrido muito bem. E não esconde que adora a liberdade e simplicidade da vida na Ásia: “A maioria das pessoas não ganha praticamente dinheiro nenhum ao fim do mês, mas são as primeiras a oferecer-te comida se te sentares à mesa com elas”, conta.

O maior desafio tem sido enfrentar todos os momentos — complicados ou não — sozinha. “É não ter alguém ao meu lado para me dar uma opinião, ou apenas para partilhar a frustração. Sou eu e eu, a todo o momento. Por outro lado, são estas situações que me permitem conhecer-me melhor”, sublinha a viajante.

Agora, três meses depois do início da aventura, sente que está finalmente sintonizada com o seu dharma. “Quando estamos alinhados com o nosso propósito e a nossa vontade interior, tudo flui. Esta viagem é a prova disso, o caminho que percorri até agora aconteceu de uma forma natural e tudo o que veio até mim foi exatamente o que precisava. naquele momento.”

Apesar de não ter comprado bilhete de volta, espera regressar a Portugal em maio. Até lá, pode ir acompanhando o percurso de Matilde nas redes sociais.

De seguida, carregue na galeria para ver algumas das fotografias que tem partilhado no Instagram.

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