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A misteriosa ilha no Danúbio onde a Seleção Nacional está a dormir

A Ilha Margarida, encalhada entre as velhas Buda e Peste, é terra de lendas, de crimes e de diversão.
É o grande parque da cidade — e muito mais do que isso

Meio mundo conhece a velha história de Buda e de Peste, as duas localidades separadas pelo Danúbio que deram origem à capital húngara. Entre ambas está uma ilha muito particular que não pertence a nenhuma das margens. É um oásis recheado de história e que hoje serve de base à Seleção Nacional de futebol.

Portugal, que arranca a sua participação no Europeu 2021 esta terça-feira, 15 de junho, precisamente frente à equipa da casa, escolheu ficar alojada no Grand Hotel Magritsziget, um de dois hotéis que moram na pequena ilha com pouco mais de 500 metros de largura e 2,5 quilómetros de comprimento.

A Ilha Margarida é uma espécie de mini-cápsula de tudo o que há para ver, fazer e comer na capital húngara. Um enorme parque da cidade encalhado no meio do Danúbio que esconde histórias de santos e de crimes horrendos.

Embora os craques de Portugal estejam circunscritos aos muros do hotel termal, também ele esconde segredos. Afirma ser o mais velho hotel da cidade, construído em 1873 num estilo neo-renascentista.

O edifício elegante foi visitado, ao longo das décadas, por famosos, políticos e artistas, não só pela sua beleza mas também pela sua localização mais isolada. Quem preferir, pode refugiar-se na sua própria piscina com água termal.

Lá fora, o circuito que percorre a orla exterior da ilha percorre-se facilmente em hora e meia — ou em 45 minutos se a atravessar diretamente de ponta a ponta. Inevitavelmente, irá esbarrar nas ruínas de um convento dominicano, onde se encontra a explicação para o nome da ilha, envolta numa história intrigante.

A dramática (e inspiradora) vida de Margarida

Nasceu em 1242, filha de Béla IV, então rei da Hungria exilado na Croácia, depois de uma derrota estrondosa com o exército mongol. Béla terá feito uma promessa: entregaria a filha a Deus, caso a família sobrevivesse à raiva impiedosa dos invasores. Assim foi.

Quando Ogedei Khan, filho de Gengis Khan, morreu, os invasores fugiram e Béla pôde voltar para reerguer o seu reino. Com três anos, Margarida foi deixada, conforme prometido, no convento dominicano na ilha do Danúbio.

Ainda é possível ver as ruínas do convento onde Margarida viveu

À medida que cresceu, a sua beleza tornou-se alvo de cobiça por parte de outras casas reais. Béla IV decidiu então usá-la como trunfo estratégico. Margarida foi proposta a um duque polaco, mas aos 17 anos, recusou casar-se. Aos pais, garantiu que preferia a morte a um casamento forçado.

Ordenada freira, o pai tentou por tudo anular, junto do papa, os votos da filha para forçar novo casamento. Sem sucesso.

Reza a lenda que, ao contrário da sua família, Margarida optou por uma vida sem luxos. No convento onde vivia, fazia um pouco de tudo. Inabalável nas suas convicções, deixou sempre uma ameaça ao pai, caso continuasse a tentar oferecê-la a outros homens: cortaria os lábios e o nariz até que a cobiça parasse.

Margarida tornou-se num nome incontornável, não só pelo seu sangue azul, mas pelos alegados inúmeros milagres que proporcionou aos doentes de quem cuidava. São lhe atribuídos mais de 70. O seu altruísmo veio com um preço: sem cuidados e com saúde frágil, acabou por morrer aos 28 anos.

A lenda permaneceu e mesmo antes de ser canonizada, era já venerada como santa pela população local. O reconhecimento dos seus milagres foi exigido pelo irmão, Stephen V, que conquistou o poder depois de uma guerra com o pai, Béla IV. Mas a canonização só chegaria por ordem do Papa Pio XII, já em 1943.

Na ilha permanecem hoje as ruínas do convento dominicano que chegou a ser uma escola, antes de ser abandonado depois da invasão otomana no século XVI.

O hediondo crime nazi

As margens do Danúbio e da ilha Margarida foram cenário de crimes horrendos durante a II Guerra Mundial. Foi ali que judeus foram perseguidos e mortos por forças nazis entre 1944 e 1945.

O ritual era sempre o mesmo. Os judeus perseguidos e capturados eram alinhados nas margens do Danúbio, forçados a descalçarem-se e a virarem-se para as águas. Depois, um por um, eram baleados na nuca, de forma a que os corpos caíssem diretamente no rio — e fossem levados pela corrente.

Na ilha é possível recordar a atrocidade cometida pelas forças nazis, graças a uma escultura de 2005 da autoria de Gyula Pauer. Ao longo da margem do rio, foram colocados 60 pares de sapatos em ferro, semelhantes aos que eram usados à época. Uma homenagem às vítimas que ali foram assassinadas.

A escultura nas margens do Danúbio

Um Central Park à moda húngara

Avista-se ao longe e é um dos símbolos da ilha: a torre de água ao estilo art nouveau foi erguida em 1911 e é a estrutura que fornece água a todos os edifícios que ali existem. É também palco para exposições e festivais — e serve de miradouro para todos os que não têm medo de alturas.

E numa cidade recheada de banhos termais, é claro que existe também um na ilha, o Palatinus Strand, com a adição de escorregas e até uma piscina de ondas. Foi, por várias vezes, nomeada com uma das melhores piscinas ao ar livre do mundo.

As famosas piscinas do Palatinus

Jardins não faltam nesta ilha: existe o jardim das rosas, ideal para visitar na primavera, e o jardim japonês, com direito a lagos de peixes, jardins de rochas, árvores em miniatura e até uma cascata artificial.

Além de um passeio decorado com estátuas de famosos poetas, autores e pintores hungaros, existe também um local onde é possível ouvir algumas das obras. A Fonte Musical no sul da ilha reproduz música cinco vezes por dia, de temas de Simon & Garfunkel a obras de Vivaldi.

Por estes dias, a estadia no Grand Hotel está impedida, mas isso não significa que não possa também ficar na Ilha Margarida, neste caso a poucos metros, no Hotel Ensana, com um famoso spa de água termal.

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