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A montanha sagrada dos Himalaias que ninguém pode escalar

Só por uma vez se tentou chegar ao cume do Machhapuchhare. Hoje, as escaladas estão proibidas.
É o único cume inviolável dos Himalaias

“A Cauda do Peixe. Não é um nome romântico mas é certamente mais fácil de pronunciar”, escreveu em 1958 o autor e montanhista britânico Wilfrid Noyce. “Visto do Annapurna IV, parece realmente uma cauda de um peixe: uma cunha virada para o céu e dividida em dois cumes, um deles alguns metros mais alto do que o outro.”

O Machhapuchhare não é sequer um dos picos mais altos dos Himalaias, bem longe dos todos poderosos 8.849 metros de altitude do Evereste, fica-se pelos 6.993. Situada na região dos picos do Annapurna, está à distância suficiente para que brilhe por si só. E esta não é a única magia que esconde: é um cume virgem, nunca escalado.

Nunca ninguém conseguiu erguer a sua bandeira no pico e não se prevê que tão cedo isso aconteça, isto porque as aproximações ao topo estão proibidas. Os 5.587 metros de altitude do Mardi Himal é o mais próximo que se consegue chegar do cume em forma de cauda de peixe — e segundo a autora de viagens Neelima Vallangi explica à “BBC”, “oferece uma das melhores e mais próximas vistas do Machhapuchhare”.

A vista de Mardi Himal

Houve apenas uma tentativa oficial de tentar escalar a montanha até ao cume. Foi organizada por Jimmy Roberts, condecorado militar britânico e apaixonado por montanhismo, em 1957.

A sua obsessão com o Machhapuchhare já tinha mais de duas décadas, desde que leu uma carta escrita por um militar em 1936,que detalhava a vida e a beleza do pico e das vilas que ficavam no sopé.

Em 1950 viu-a pela primeira vez e descreveu-a no prefácio do livro de Wilfrid Noyce: “Brilhava sob o luar, aquela grande pirâmide branca incrivelmente distante. Tornou-se no meu ideal de montanha, uma posse pessoal que não pertence a este mundo, inatingível mas minha por direito irracional.”

A expedição ao cume da Machhapuchhare foi organizada por Roberts e incluía outros montanhistas, mas seria liderada por Wilfrid Noyce, um dos elementos mais experientes. A escalada difícil demorou vários dias e sofreu inúmeros percalços.

Fotos de Noyce, tiradas durante a escalada de 1957

A poucas centenas de metros, já na fase final, as dificuldades obrigaram ao regresso da equipa de apoio. Roberts voluntariou-se para os acompanhar e deixou para trás o sonho de conquistar o cume da sua fixação. Deixou a honra para Noyce e outro montanhista.

A dupla bem tentou, mas a apenas 45 metros do cume, uma tempestade colocou a expedição em risco e tomou-se a difícil decisão de recuar, já tão perto do fim. A Machhapuchhare continuaria invicta até à próxima tentativa. Só que a expedição seguinte nunca aconteceu.

Em mais de 60 anos, não há registos de quaisquer expedições oficiais ao seu cume. A culpa, dizem, é de Roberts. É que durante a sua estadia no Nepal, tornou-se numa espécie de “pai do trekking” na região.

Jimmy era conhecido por ser “o pai do trekking” no Nepal

Durante anos promoveu visitas, expedições, caminhadas, mas também a proteção da cadeia montanhosa mais famosa do mundo. Era também apaixonado pela cidade e pelo povo de Pokhara, que assenta no sopé de Machhapuchhare.

Terá sido Roberts que, depois da tentativa falhada de ascender ao cume, pediu ao governo que protegesse a montanha e proibisse as escaladas. Surpreendentemente, o pedido foi aceite e a Machhapuchhare mantém-se território virgem. Mais ou menos.

Consta que durante a década de 80, o montanhista neozelandes Bill Denz terá feito uma ascensão a solo até ao cume. O feito nunca foi confirmado oficialmente e Denz acabaria por morrer vítima de uma avalanche nos Himalaias em 1983.

Foto do cume, tirada na expedição falhada de 1957

A verdade é que não só a Machhapuchhare se mantém livre de lixo e de filas de turistas — em contraste com o que acontece no autêntico circo montado no Evereste — como conserva uma aura sagrada de território inviolável.

Roberts, que morreu em 1997, conseguiu o que pretendia, não se sabe se por uma questão de ego ou se por querer preservar a herança sagrada do povo gurungue, para quem a montanha é sagrada.

Do pico restam apenas os registos de Wilfrid Noyce, que dedicou à escalada um pequeno livro que relata com precisão o fatídico momento em que, a escassos metros da glória, tomaram a decisão de regressar a casa.

A imponência do Machhapuchhare

“Acredito que a culpa foi da deusa da montanha, que enganadoramente nos atraiu e que, agora, traçava uma linha no limite do cume. Dei dois ou três passos, cada um levou minutos a completar. Um trabalho árduo. Estes dois homens respeitáveis e casados decidiram então que deveríamos dar a devida privacidade à tempestade e descer.”

Dez dias depois, a dupla de montanhistas chegava a outro cume, o da Singu Chuli, a distância visível da Machhapuchhare, no centro do santuário de Annapurna.

“Hei de lembrar-me sempre dessa subida pela visão da Machhapuchhare, erguida, majestosa e isolada, uma figura estranha e extraordinária, quase dominadora no meio daquele círculo de gigantes. Bater-se-ia com qualquer companhia: a mais íngreme, excitante e tentadora montanha que conheço.”

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