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A mórbida “casa do caçador” descoberta por exploradores portugueses

A urban explorer Rita Constantino conta à NiT como foi a experiência de entrar nesta espécie de museu macabro no meio do nada.
Foi uma descoberta incrível.

15 dias, 5.544 quilómetros de carro, três países e 40 locais abandonados. Os urban explorers Rita Constantino, Hugo Venade e Daniel Pereira partiram, no final de fevereiro, para uma aventura sem igual. O objetivo? Procurar lugares abandonados e cheios de história que parece que ficaram paradas no tempo.

De Lisboa, seguiram viagem pelo norte de Espanha, passando por Salamanca, Bilbao e San Sebastian, e continuaram pelo sul de França, até chegarem a Bergerac. Acamparam uma noite no Pirinéus e, posteriormente, foram para Andorra, “mais para descansar”.  “Foi uma viagem cheia de grandes aventuras e que vamos recordar para sempre”, começa por contar a jovem de 30 anos.

O roteiro já estava delineado ainda antes de partirem, mas, nesta vida de exploradores urbanos, a imprevisibilidade é quase certa. Pelo caminho encontraram tantos outros lugares abandonados que desconheciam e que não faziam parte do itinerário. Um deles foi a “casa do caçador”, nome dado pelos próprios devido a tudo o que encontraram no interior. 

Situada “no meio do nada”, nas montanhas do norte de Espanha — os urbex nunca revelam a localização exata para preservar o local e evitar potenciais roubos — estava uma propriedade que parecia abandonada. O grupo nunca tinha ouvido falar dela, muito menos tinha visto fotografias, pelo que a curiosidade era ainda maior.

A porta abriu-se com um simples empurrão e as suspeitas confirmaram-se: já ninguém vivia naquela casa. Quem quer que fosse o antigo proprietário, desapareceu sem levar o recheio. “Não estava à espera de encontrar o que encontrei. Era uma casa muito pequena, de campo, e normalmente quando entramos em locais do género vemos tudo desleixado e não foi o caso. Apesar de estar degradado, tudo estava intacto. Foi quase como encontrar um tesouro”, recorda à NiT. 

Através de documentos que foram deixados para trás, conseguiram juntar algumas peças. Não descobriram o nome do antigo proprietário, mas perceberam rapidamente o que fazia nos tempos livres: era um caçador que gostava de colecionar as suas presas e embalsamá-las.

“Caçava todo o tipo de animais e gostava de os embalsamar. Havia javalis, perus, esquilos, águias, bois, peixes, tudo. Parecia um mini museu de história natural”, refere. Os esquilos, por exemplo, estavam colocados de uma determinada forma, quase como se estivessem a interagir um com o outro. 

Encontraram também uma fotografia do caçador com uma cabra que tinha acabado de matar. “Era um ambiente muito mórbido”, aponta a exploradora. Os próprios cabides eram patas de veado embalsamadas. 

Além dos animais, a propriedade estava cheia de materiais relacionados com caça, como armas e binóculos. Na garagem, por exemplo, só existiam “coisas de animais”, principalmente cornos. “Era a garagem que tinha todas as ferramentas e onde trabalhava para a sua coleção”, revela. 

Já no piso superior, as divisões estavam muito mais estragadas, possivelmente devido à chuva, que costuma ser abundante naquela zona. Havia uma casa de banho e três quartos, alguns deles com algumas fotografias. 

@ritalexandraconstantino

A CASA DO CAÇADOR ABANDONADA! E VOCÊS? TERIAM CORAGEM DE ENTRAR?🦌🐗🐃🔦😱🏚️🇪🇸 #foryou #fyp #fy #abandoned #urbex #lost #adventure #fypage #old #spain #pov #animals #aventura #fypシ #foryoupage #hunter #fy #foryou

♬ som original – Ritinhamaisfofa

Entre os documentos estavam recibos de hospital que revelaram que o proprietário ficou doente e morreu em 2016, altura em que a casa terá ficado abandonada. “Aquilo deu-nos a entender que a família já tinha ido a casa tirar os pertences pessoais e tudo o que era de valor, deixando para trás os animais, talvez por não gostarem de caça”, conta.

Para o grupo, o mais incrível nesta exploração foi mesmo todo o recheio, algo pouco habitual em lugares como este. “Esta pequena casa foi para nós uma grande e incrível descoberta, entrámos num lugar completamente novo. Ver todos estes animais embalsamados foi uma experiência diferente”, confessa.

Rita tem 30 anos, estudou História da Arte na Faculdade de Letras de Lisboa. É guia turística privada na empresa Inside Lisbon e, nos tempos livres, dedica-se ao urbex, uma abreviação da expressão em inglês urban exploration, ou exploraão urbana

É curiosa desde que se lembra e apaixonada por tudo o que é ligado à arte e ao património. “Sempre estive ligada ao turismo e gosto muito de história. Foram essas paixões que me fizeram começar a visitar locais abandonados. É uma compilação de tudo, mas com mais aventura e adrenalina”, contou a guia turística, que começou a explorar estes sítios quando tinha 16 anos. Desde então, já explorou mais de 300.

 Já visitou “um bocado de tudo” e, quando acha que já nada a vai surpreender, consegue encontrar coisas novas. Como quando foi explorar um palacete gigante, com três andares, e encontrou vestidos de noiva num dos quartos. Ou quando, depois de um longo fim de semana de explorações, estava a caminho de casa e encontrou bonecos de Carnaval abandonados na berma de uma estrada nacional.

Apesar da maior parte das suas aventuras serem em Portugal, já comprou bilhetes de avião só para conhecer locais abandonados fora do País, como a Luková, a igreja dos fantasmas na República Checa, considerada um dos sítios mais assustadores do mundo.

Carregue na galeria para ver algumas das fotografias tiradas pelos exploradores urbanos.

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