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Nesta cidade irlandesa, a infância vive-se sem telemóveis. Pais e professores agradecem

A cidade costeira de Greystone propõe uma proibição experimental de dispositivos inteligentes entre os miúdos. Quase toda a gente aderiu à iniciativa.

Para Bodie Mangan Gisler, um jovem irlandês de 12 anos, um telemóvel tem uma função muito específica. Enquanto colecionador de moedas, não precisa dele para fazer chamadas, descobrir novos jogos ou fazer scroll no TikTok, mas para saber quanto vale alguma das suas edições especiais ou quantos metais contêm as peças.

“Quero viver muito tempo e manter-me saudável”, afirmou o rapaz em entrevista ao jornal “The New York Times”, mostrando-se receoso com as possíveis consequências dos dispositivos eletrónicos no seu dia a dia. “Talvez diga à minha mãe: ‘posso descarregar este jogo?’. Ela dirá que sim e que posso ficar viciado.”

Este é um dos vários miúdos que vivem na cidade costeira de Greystones, na Irlanda, onde está a ser testada uma “proibição voluntária do uso de dispositivos inteligentes” por estudantes em idade pré-adolescente. Quase toda a gente, desde pais a professores, passando por lojistas, aderiu ao projeto.

A iniciativa, liderada por pais locais, diretores escolares e membros da comunidade, foi lançada em 2023. O objetivo era diminuir a dependência dos mais novos em relação à tecnologia, através da realização de mais workshops e outros eventos sociais. “Abordar o assunto de forma conjunta é a solução”, defende Jennifer Whitmore, deputada do Parlamento irlandês e mãe de quatro filhos em Greystones.

Três anos depois, o movimento denominado “It Takes a Village” expandiu-se muito além desta pequena cidade, com 22 mil habitantes. “Foi um dos primeiros locais a tomarem medidas coletivas”, sublinhou, por sua vez, Daisy Greenwell, que cofundou o movimento britânico “Smartphone Free Childhood”, no final desse ano.

O plano original foi idealizado quando os alunos regressaram às aulas após os confinamentos impostos pela pandemia. Uma das professoras, Rachel Harper, ficou impressionada com os relatos que ouvia dos miúdos. Alguns tinham dificuldades em adormecer, outros recusavam-se a ir à escola. Havia quem tivesse aplicações de contagem de calorias ou quem chorasse por mensagens enviadas na noite anterior.

Após cerca de 800 pais responderem a um inquérito enviado pelas escolas primária, onde mais de metade afirmava que os filhos estavam ansiosos, grande parte da cidade decidiu que estava na altura de agir.

“Acho que era tão óbvio o dano que os telemóveis estavam a causar”, disse ao mesmo jornal norte-americano um dos moradores, Ross McParland, que organizou uma assembleia pública no Teatro Whale, que é sua propriedade. Duas semanas depois, todos os diretores das escolas enviaram uma carta em apoio a um código voluntário e 70 por cento dos educadores assinaram.

“O que os meus alunos mais me diziam é que gostavam de não ter que ver mais decapitações”, conta Eoghan Cleary, vice-diretor de uma escola secundária em Greystones, Temple Carrig, também citado pela reportagem do “The New York Times”. “Não querem ver pessoas a ser mortas, não querem ver pessoas a ser abusadas online.”

Para manter a cidade unida à volta desta experiência, aprimorou-se a vida desportiva para os jovens, organizaram-se oficinas para adultos e miúdos, lançaram-se podcasts locais sobre o tema e realizaram-se eventos como festas na praia sem telemóveis.

Graças a este esforço coletivo, Greystons têm assistido a uma mudança significativa nos hábitos e saúde social. Os pais dizem que já não sentem pressão para dar um smartphone aos filhos antes do ensino secundário. Quanto aos mais novos, a professora Harper garante que eles brincam mais ao ar livre e estão “simplesmente a ser crianças”.

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