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Nesta velha linha férrea do Douro, o caminho faz-se a pé — com paisagens incríveis

Feita em 1887, ficou sem circulação em 1985. No ano passado estreou-se como percurso pedestre junto à fronteira portuguesa com Espanha.
O percurso foi inaugurado na primavera de 2021

O último comboio passou por estes carris há 37 anos. A preciosa linha ferroviária, após os seus tempos áureos, ficou ao abandono. Só ocasionalmente era visitada por exploradores mais curiosos. Em 2021, porém, tudo mudou. O caminho de ferro criado para estabelecer a ligação entre Porto e Salamanca voltou a ser explorado. Sem comboios, mas com turistas.

O percurso pela linha construída entre 1883 e 1887 começa do outro lado da fronteira e dá uma nova vida à infraestrutura. O Camino de Hierro, ou Caminho de Ferro em bom português, tem uma extensão de 17 quilómetros que foram reaproveitados pelo Turismo de Salamanca, que conseguiu reanimar a rota. O caminho de ferro original foi, aliás, uma espécie de obra conjunta e cujos impulsionadores, explica a organização, foram o Sindicato dos Bancos do Porto e a Associação de Comerciantes local, com o objetivo de fortalecer a ligação entre a cidade e Salamanca.

“Henry Burnay e Ricardo Pinto da Costa formaram a Companhia do Caminho de Ferro de Salamanca e encarregaram-se da construção da linha e da sua exploração inicial. O afinco que Ricardo Pinto da Costa pôs no impulso deste projeto valeu-lhe a nomeação de Conde de Lumbrales”, revela a empresa espanhola sobre a história do percurso.

Construir a rota não foi uma tarefa fácil, sobretudo por causa do terreno acidentado da região. Consta que chegaram a trabalhar na obra mais de dois mil trabalhadores.

Chamavam-lhe “o caminho de ferro impossível” que só conseguiu ultrapassar os vales e montes do Parque Natural das Arribas do Douro graças a um total de vinte túneis e dez pontes, uma delas com traços da escola de Gustave Eiffel.

O percurso arranca da antiga estação de La Fregeneda e dirige-se rumo à fronteira com Portugal. É nessa localidade que está a receção e o ponto a partir do qual se equipam e se preparam os caminhantes — este não é um trilho como os outros.

O objetivo passa por completar o percurso que começa em La Fuente de San Esteban e termina em Barca d’Alva, já em território português. Dos 17 quilómetros totais de linha, quatro deles são feitos na penumbra dos túneis. O mais longo é logo o primeiro, com 1,5 quilómetros — há ainda um com um formato curioso, o terceiro, em forma de u, que alberga uma das maiores colónias de morcegos da Península Ibérica. O percurso acompanha na sua maioria o rio Águeda, até chegar finalmente ao Douro.

Para o realizarem com sucesso, os exploradores devem carregar consigo um colete refletor, uma lanterna e água. Nos túneis, recomenda-se que caminhem sempre pelo meio da velha linha. Não é um percurso fácil. Estima-se que dure em média cerca de seis horas a percorrer, de La Fregeneda à fronteira com Portugal.

Recuperar a linha foi um processo difícil. Só lhe foi reconhecido o estatuto de Bem de Interesse Cultural em 2000 e foi preciso esperar mais de 20 anos até que fosse encontrado um novo uso. Por essa altura, já a natureza havia tomado conta da infraestrutura que, mais de cem anos antes, tanto custara a construir.

“Era uma selva. Em alguns dos sítios nem se conseguiam ver as vias”, explica ao “El Mundo” Maribel Bartol, técnica da província de Salamanca e uma das impulsionadoras do projeto. Foram necessários três anos para recuperar a linha que, nos primeiros meses, recebeu uma média de 145 visitantes por dia.

Já Javier Harcía Hidalgo, responsável pelo Turismo na região de Salamanca, revela que no primeiro ano, o Camino de Hierro recebeu um total de 27 mil visitantes e, desses, perto de 10 por cento eram portugueses.

O êxito recente contrasta com a lenta degradação a que a ferrovia sofreu nos anos 80. Com o aumento do uso do carro e a construção de novas autoestradas, o recurso ao comboio foi sendo colocado num segundo plano. A exploração das linhas do Douro deixou de ser rentável.

A Renfe decidiu encerrar a operação em 1985. Em Portugal, o troço de 28 quilómetros entre o Pocinho e Barca d’Alva deixou de explorado em 1988. Desde lado da fronteira há, no entanto, planos para a reabertura da linha, num investimento que poderá rondar os 75 milhões de euros.

Entretanto, do lado espanhol, quem quiser pode ir à descoberta das paisagens maravilhosas do Douro através de um caminho único, seguindo os carris. O bilhete tem um preço de oito euros e, no final dos 17 quilómetros, não se preocupe: o regresso é assegurado pelas carrinhas da organização.

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