Viagens

O casal português que largou tudo para viajar pela Europa numa carrinha

Foram com a companhia do Zeca, o cão mais viajado de Portugal. Estão na estrada há mais de 500 dias.
Os três viajantes.

“Ou vamos todos, ou não vai nenhum.” Foi com este lema que Fábio Rodrigues e Cláudia Batista largaram tudo o que tinham em Portugal para darem início a uma aventura pela Europa numa carrinha Fiat Doblo com a companhia do Zeca, que hoje é um dos cães mais viajados do mundo. 

Ela, de 34 anos, era gerente de uma loja de cosméticos em Lisboa. Ele, de 32, trabalhava na área de telecomunicações no segmento empresarial. Enquanto casal, sempre adoraram viajar. Foi precisamente numa das viagens que fizeram que começaram a sonhar com a possibilidade de largar os empregos e partir à descoberta da Europa numa casa sobre rodas. 

“No verão de 2018, no último dia da viagem que fizemos a Itália, ficámos com aquela sensação de que o país tinha muito mais para dar e não conseguimos aproveitar completamente. Quando estávamos no parque de campismo, olhámos à volta e vimos ali várias autocaravanas e começámos a pensar do que precisaríamos para viajar pela Europa”, começa por contar à NiT o casal. 

Não bastava apenas uma semana, nem um mês: “O objetivo era conhecer a nossa casa, que é a Europa, pelo menos durante um ano”. Focados no sonho de uma vida, passaram os últimos quatro anos a poupar dinheiro suficiente para se aguentarem lá fora durante um ano inteiro. 

Ao contrário de muitos viajantes que percorrem as estradas europeias, o casal não investiu numa autocaravana, mas sim numa carrinha. O único requisito era o veículo ter espaço suficiente para colocar, pelo menos, uma cama. “Com uma carrinha, os custos são mais baixos, não dá tantos nas vistas e não tem tantas limitações como uma autocaravana. Podemos dormir em qualquer lado e as portagens e o combustível acabam por ser mais baratas também”, explicam.

Em 2019, compraram uma carrinha Fiat Doblo de 2008, com o objetivo de seguirem viagem em março de 2020, precisamente na altura em que as fronteiras fecharam devido à pandemia. Assim que a situação começou a melhorar, pensaram: é agora ou nunca. Num fim de semana transformaram a carrinha e, sem esperar mais tempo, partiram para a aventura a 6 de janeiro de 2021, juntamente com o cão Zeca, que está com o casal há 11 anos. 

“Nunca fizemos planos nenhuns, até porque acabam sempre por dar para o torto. Como se diz em inglês, ‘go with the flow’. Vamos andando e decidindo tudo na altura”, revela o casal. Em fevereiro deste ano, regressaram a Portugal para fazer a inspeção da carrinha, mas não ficaram por cá muito tempo. Quando perceberam que ainda tinham algum dinheiro de parte, voltaram a pegar na Fiat Doblo e deram continuação a esta incrível aventura.

Durante mais de 500 dias, as noites foram passadas a dormir na carrinha e os dias a andar de cidade em cidade, com altos e baixos e muitos imprevistos pelo meio. Afinal, não há carrinha nenhuma neste mundo que aguente mais de 60 mil quilómetros sem acusar cansaço. 

“Já tivemos muitos problemas com a carrinha, ou porque não pegava por causa do frio, ou por problemas na embraiagem. Parecia que os problemas apareciam todos ao mesmo tempo. Quando estávamos na Roménia, na estrada mais famosa do país, tivemos um problema na embraiagem e descemos a montanha toda em ponto morto”, contam. Mais do que um carro, era também a casa do casal (e do Zeca) e acabava por ser uma situação desagradável. Foram noites passadas em frente a oficinas e dias perdidos, mas nem isso lhes tirou o ânimo. Sabiam bem para o que iam e, a certa altura, já estavam preparados para todos os imprevistos. 

“Nem sempre é tudo bonito. Há coisas muito boas, mas também há situações complicadas.” É precisamente a realidade de uma viagem desta dimensão que procuram mostrar nas redes sociais, onde partilham tudo sem filtros. 

Um ano e meio depois, o casal já passou por 36 países europeus e um dos objetivos desta última viagem era chegar até à China de carro. “Ficámos a dois países da China. O plano era passar pela Arménia e Geórgia e chegar ao Azerbaijão. Lá íamos apanhar um ferry até ao Cazaquistão e já estávamos praticamente na China. O problema é que o Azerbaijão estava com as fronteiras fechadas e tivemos de voltar para trás.”

Não foi, contudo, a primeira vez que foram obrigados a alterar os planos em cima da hora. Como viajam com o Zeca, não fazem nada sem a companhia do animal de quatro patas. “Não conseguimos entrar na Finlândia com o Zeca por falta de informação da nossa parte. Não sabíamos que ele precisava de um desparasitante para entrar no país e, quando chegámos lá, fomos parados pela alfândega e tivemos de voltar para trás”, recorda. Apesar de ser um desafio viajar com um cão, o casal confessa que o Zeca adora viajar e adaptou-se bem desde o início.

O Zeca.

Mesmo com todos os contratempos, é sem dúvida uma viagem inigualável. “A melhor parte é mesmo conseguirmos dormir em locais com vistas fantásticas e o facto de termos tudo aquilo de que precisamos na carrinha.” Por outro lado, o mais complicado são os recursos limitados, que os obriga a gerir os mantimentos da melhor forma e a “adotar um estilo de vida o mais minimalista possível”.

De um modo geral, adoraram todos os países que foram conhecendo ao longo deste ano e meio, mas destacam a Noruega e a Turquia. O primeiro pela beleza natural — mesmo com os 15 graus negativos com que tiveram de lidar — e o segundo pela simpatia das pessoas. 

O casal deve regressar a Portugal no início do próximo ano, já com muitos outros planos em mente. Até lá, vão voltar a juntar dinheiro para realizar mais sonhos em conjunto. De seguida, carregue na galeria para ver alguns dos melhores momentos desta aventura pela Europa.

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