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O estranho fenómeno que está a afundar uma das maiores cidades do mundo

O governo indonésio acaba de aprovar a criação de uma nova capital. Em Jacarta, as casas afundam-se a um ritmo assustador.
As cheias são cada vez mais comuns e perigosas

Jacarta não é apenas uma cidade. É uma mega cidade com mais de 30 milhões de habitantes em toda a área metropolitana da capital do maior país muçulmano do planeta. E, no entanto, pode ser uma cidade a prazo.

É isso que indica a ciência e também o governo indonésio, que acaba de anunciar o nome da nova capital que irá substituir Jacarta. Será a 1300 quilómetros de distância que nascerá Nusantara, que se tornará na capital depois de uma mudança absolutamente épica — e aparentemente impossível.

O objetivo passa por criar na ilha de Bornéu o epicentro político e administrativo do país e, dessa forma, retirar alguma da pressão de Jacarta, a maior cidade da ilha de Java. O projeto imaginado em 2019 continua, no entanto, a preocupar ambientalistas, apesar das suas boas intenções.

“A nova capital terá uma função central e será o símbolo de identidade da nação. Nela gravitará o nosso centro económico”, revelou o ministro Suharso Monoarfa numa declaração feita esta terça-feira, 18 de janeiro, após a aprovação parlamentar da mudança. Trata-se de um projeto megalómano que terá um custo estimado de mais de 28 mil milhões de euros.

É, no entanto, a única solução apresentada pelo governo para um problema gravíssimo: a cidade com 10 milhões de habitantes está a afundar-se. Desde 1970, há registos de várias zonas terem perdido até quatro metros de altura — e a tendência é que o afundamento acelere.

Além de uma extrema sobrepopulação, Jacarta é também uma cidade extremamente poluída. Mas o problema do afundamento reside nos terrenos pantanosos nos quais assenta, sobretudo porque através dela correm 13 rios.

A mesquita submersa

Um dos exemplos mais paradigmáticos é a mesquita de Waladuna, hoje em ruínas, praticamente engolida pela água do mar, abandonada desde 2001. A subida do nível da água do mar, fruto das alterações climáticas, não é o único perigo que a cidade costeira enfrenta. Esse risco é exponenciado pelo gradual afundamento de cerca de 25 centímetros por ano. Prevê-se que milhões de casas possam estar completamente submersas até 2050.

O fenómeno do afundamento tem uma explicação simples. Com tanta população, não existe água suficiente para todos. Existe uma real e efetiva carência de água potável canalizada e, por esse motivo, muitos indonésios optam por criar os próprios poços que retiram água dos aquíferos subterrâneos.

À medida que a água é retirada desta camada rochosa, as pesadas camadas superiores, com o seu peso, abatem-se sobre os aquíferos porosos. A solução para este problema existe na natureza: as águas da chuva infiltram-se no solo e repõem a água retirada, ajustando um ponto de equilíbrio. O problema é que Jacarta ultrapassou todos os limites.

A cidade com seis vezes a área de Lisboa está sobre-desenvolvida, os prédios e os pisos em cimento impedem que a água se infiltre no solo e pare o afundamento.

Para evitar as perigosas cheias, o governo começou a construir enormes barreiras reforçadas nas zonas costeiras, que ajudaram a travar o mar. Só que estão, também elas, assentes no solo que teima em afundar-se. E com pouco mais de 60 por cento da população com acesso a água canalizada, a perspetiva dos próximos anos é obscura. 

O problema de Jacarta não é exclusivo da capital indonésia. Também Pequim sofre do mesmo problema, potenciado pelo facto de que a cidade se encontra longe da costa. A extração excessiva da água do subsolo tem provocado um afundamento de cerca de 10 centímetros em algumas zonas. Caso semelhante é o de Houston, no estado norte-americano do Texas, onde a extração de água já provocou um afundamento de até três metros desde 1920, embora registado em apenas algumas áreas da cidade.

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