Viagens

O ex-militar de 63 anos que anda a conquistar o mundo de bicicleta

Hernâni Cardoso vendeu tudo para viajar sem destino. Já participou num reality show no Irão e esteve entre a vida e a morte.
Tem 63 anos.

Já fez parte de uma espécie de reality show no Irão, comeu carne de cão sem saber, partiu a clavícula num acidente na Índia e percorreu meio mundo para devolver uma bicicleta a um chinês. Os últimos anos de Hernâni Cardoso têm sido marcados por aventuras singulares. Tudo começou quando se reformou e decidiu vender todos os seus bens para conhecer o mundo a pedalar.

Apesar de ter nascido em Vila Nova de Gaia, a infância foi passada em Angola, país onde teve o primeiro contacto com uma bicicleta. “Costumava ir a casa dos meus primos, que ainda era um bocado distante, de bicicleta”, começa por contar à NiT o ex-militar da Força Aérea, de 63 anos. 

Quando regressou a Portugal, em 1975 — aos 14 — perdeu o hábito de pedalar. Na altura, estes veículos de duas rodas eram caros e não tinha condições para comprar um. Só por volta de 2000 comprou uma bicicleta e, lentamente, recomeçou a pedalar. “A minha ex-mulher não gostava de andar, achava que era cansativo. Só depois de me ter divorciado é que comprei uma. Custou-me 75€”, recorda.

Ainda esteve parada durante uns tempos, mas quando os colegas da Força Aérea o desafiaram a ir de bicicleta para a base que tudo mudou. “Morava em Miraflores, perto de Algés, e trabalhava no Estado-Maior da Força Aérea, na Amadora. Fui para lá de bicicleta uma vez e depois comecei a ir quase todos os dias”, recorda.

Esse trajeto voltou a recordar-lhe de um sonho de criança. Quando vivia em Angola, sonhava vir um dia a viajar pelo mundo, mas o dinheiro era escasso. “Tinha de ser de bicicleta, a pé ou à boleia, mas os meus pais nunca deixaram. O tempo foi passando, mas não desisti desse sonho. Só quando comecei a ter maior liberdade pessoal e financeira é que comecei a viajar”, explica o ex-militar.

Hernâni recorda-se perfeitamente da primeira grande viagem além-fronteiras que fez, corria o ano de 2009. Em jeito de treino, pedalou entre Porto e Lisboa com a tal bicicleta de 75€, em 2008, e de Lisboa até Sagres, no início do ano seguinte, para testar um veículo novo. 

Pouco depois, partia para a aventura fora do País: da Áustria à Bulgária, fez 30 dias a pedalar. Um ano depois, foi de Lisboa a Santiago de Compostela e fez outras viagens curtas em Portugal — mas ansiava por mais. Queria planear uma coisa em grande, mas o trabalho não lhe permitia fazer deslocações longas. Até que chegou a reforma e tinha todo o tempo do mundo.

A 1 de janeiro de 2014, aos 53 anos, Hernâni passou a reserva da Força Aérea. Cansado da rotina, sabia que era o momento certo para deixar tudo para trás e embarcar numa jornada única: uma volta ao mundo.

O encontro com o chinês Eric Feng

“Vendi tudo, desfiz-me dos meus bens materiais e fiz-me à estrada. Fui muito influenciado por cicloturistas que se cruzaram no meu caminho quando vivia em Almada, até porque oferecia-lhes alojamento”, recorda. Nunca se vai esquecer de Eric Feng, que pedalou da China até Portugal em 2012. Quando chegou a Sagres, roubaram-lhe a bicicleta.

“Pediu-me ajuda e emprestei-lhe uma para conseguir acabar o percurso da viagem. Depois regressou à China, mas, entretanto, recebeu um e-mail da GNR a dizer que a tinham encontrado. Mandou-me mensagem a perguntar se havia possibilidade de a ir buscar, porque tinha um valor sentimental, e eu disse que sim”, recorda.

Podia ter enviado o veículo de avião, mas não foi o caso. Hernâni pensou que o melhor seria ir mesmo devolvê-la pessoalmente. Já estava a pensar fazer a volta ao mundo, então só teria de fazer uma ligeira mudança de percurso. Estava tudo planeado, mas não correu da melhor maneira. Tudo porque sofreu um acidente na Índia com um camião do exército. “Parti a clavícula e a bicicleta ficou desfeita num oito. Ainda a mandei arranjar, mas não ficou boa, já não tinha condições, então tive que enviar por terra para o meu amigo chinês e comprar outra para mim”, diz.

O estado da bicicleta.

Apesar do objetivo principal não ter sido cumprido, Hernâni manteve o percurso e pedalou até à China para reencontrar Eric Feng. Foi apenas um dos países que conheceu na volta ao mundo que começou a 20 de maio de 2014 e terminou quatro anos depois, em agosto de 2018. 

O dia em que participou num programa iraniano

Pelo meio, ainda teve a oportunidade de participar num programa de televisão iraniana, uma espécie de reality show em que pegavam numa viajante estrangeiro e punham-no a viver com uma família do Irão. “Já tinha estado no país antes e tinha feito algumas amizades. Entretanto, quando estava em Omã, recebi uma mensagem com essa proposta. O programa, do qual já não em recordo nome, consistia em ver como o viajante se adaptava à cultura e como a própria família se adaptava a nós”, explica.

No caso de Hernâni, ficou com uma família que passava os dias num jardim público e perguntava às pessoas que mais velhas, que estavam a jogar às cartas, quais eram os seus sonhos de infância. Na segunda parte do programa mudou-se para um centro de recuperação de mutilados da guerra, onde só comunicavam por gestos. “O objetivo era dar-lhes apoio, comida, tratar da roupa, juntamente com os enfermeiros. Lembro-me que íamos jogar basquetebol em cadeiras de rodas”, revela. Cada episódio mostrava um viajante diferente e, para o português, foi “uma experiência muito interessante”.

O acidente na Austrália

Na altura, ainda não sabia que teria de interromper a volta ao mundo por motivos de saúde. Depois do susto que apanhou na Índia, onde ficou sem pedalar durante cerca de um mês, viveu outra situação em que esteve entre a vida e a morte na Austrália. A ideia era atravessar o país de costa a costa, mas não conseguiu completar o deserto australiano. 

“Não se via vivalma e só passavam carros de vez em quando. Houve um dia em que chegou a uma zona de descanso e tinha lá um depósito de água. Perguntei a um senhor se aquela água era boa, disse que sim e bebi e cozinhei com ela. À noite, percebi que afinal não era assim tão boa”, recorda. Começou a sentir-se mal, um desconforto que continuou nos três dias seguintes, até decidir ligar para uns portugueses conhecidos que viviam na Austrália a pedir ajuda.

“Disseram-me que quanto mais avançasse, mais sozinho ia estar. Foram-me buscar, deram-me comprimidos para a diarreia, mas estava cada vez pior, com um mal-estar interno enorme”, conta. Entretanto decidiu ir para a Goa — onde comprou uma casa em construção na última vez que lá esteve — para recuperar, uma vez que na Austrália ficava muito dispendioso.

Ainda assim, continuou sem melhorar e apanhou um avião de volta para Portugal, onde ficou 15 dias. “Depois regressei ao mesmo sítio na Austrália, fiz mais 100 quilómetros, mas estava cansado psicologicamente. Só queria sair dali, então fui para Bali durante 30 dias”, diz.

No meio de tudo isto, entre viagens de avião e barco, quando não é possível atravessar fronteiras terrestres, Hernâni não tem noção de quanto dinheiro gastou. “A única coisa que sei é que, com a reforma que recebo, acabo por poupar mais a viajar por estes países do que se ficasse em Portugal”, afirma. Acampa quando tem de acampar, mas não nega dias passados em hotéis quando “quer ter um momento de luxo”.

As comidas estranhas pelo caminho

Nesta primeira volta ao mundo percorreu cerca de 50 países e regressou a Portugal em agosto de 2018, mas a estadia não durou muito tempo. Dois anos depois, voltou a pegar na bicicleta para uma aventura no Norte da Europa, enquanto que em 2021 fez o trajeto entre o Chipre e Turquia a pedalar. Em 2022 fez Marraquexe e Dakar em bicicleta, mas não contou apanhar o Ramadão pelo meio, que o obrigou a “pedalar cheio de fome”. Logo ele, que come “tudo o que puserem à frente”.

Prova disso foi o que lhe aconteceu quando estava no Vietname e comeu carne de cão, sem saber. Estava a pedalar quando passou pela beira da estrada e viu um restaurante com a imagem de arroz frita e umas frases escritas. Mal olhou para aquilo quando entrou, tal era a fome. 

“Eram só vietnamitas lá dentro e olhei para os pratos que estavam a comer, que era arroz frito com carne em cima. Pensei que devia ser porco então pedi um prato igual à rapariga, mas ela não me queria vender. Continuei a insistir até que me trouxe o prato para a mesa e todo o restaurante ficou a olhar para mim. Pensei que era por ser o único europeu”, recorda.

Começou a comer a carne desfiada, “que sabia muito bem”, até que um vietnamita se aproxima e começa a ladrar. “Só aí é que percebi que era carne de cão, mas já tinha comido meia travessa”, diz.

O mesmo não aconteceu quando comeu rato assado, na Tailândia. Dessa vez, sabia bem aquilo que estava a pôr na boca. “Passei por uma daquelas bancas e vi umas coisas penduradas com um rabo grande. Só podia ser um rato, então voltei para trás para confirmar e era mesmo. Estavam ali a grelhar aquilo, como fazemos no churrasco, então pedi um. Não me queria vender, mas insisti, consegui comprar e provei. Sabia a frango assado”, conta.

A última viagem

Já na viagem mais recente, que terminou no ano passado, o português pedalou numa bicicleta de três rodas desde a Europa Central até chegar ao Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, passando pelo Quénia, Tanzânia, Zâmbia, Botsuana e Namíbia. Foi neste último destino que voltou a ter outra acidente. “Por um centímetro ainda estou cá”, diz.

O ex-militar estava a pedalar tranquilamente numa estrada, com as dunas do deserto de um lado e o mar do outro, quando um carro surgiu “como se não houvesse amanhã” e bateu-lhe no retrovisor da bicicleta. “Fiquei em pânico, porque o retrovisor tem a mesma largura que as rodas da frente. Se tivesse apanhado mais um centímetro tinha sido grave”, recorda.

Já na África do Sul, quando estava em Saldanha Bay, esteve frente a frente com homens armados e só se apercebeu depois de ter passado por eles. “Vi que muitos carros estavam a parar ao pé´deles, pensei que era uma espécie de peditório. Quando foi a minha vez segui em frente, eles ficaram a olhar para mim e só depois é que me caiu a ficha. Um deles tinha uma pistola, mas já nem me atrevi a olhar mais”, confessa.

Agora vive entre o Porto e Goa, cidade onde acabou por comprar a tal casa em construção que viu quando passou pelo país na primeira volta ao mundo. Era para ter arrancado numa nova aventura no início do ano, mas por motivos pessoais teve que adiar a viagem. Contudo, adianta que, no início do próximo ano, gostava de fazer o trajeto entre o Chile e a Patagónia.

Carregue na galeria para ver algumas das fotografias de viagem de Hernâni Cardoso. 

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