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O hotel abandonado que destruiu uma das mais belas paisagens de Espanha

Está no centro de uma batalha legal com décadas. Enquanto se degrada, a demolição está presa num labirinto jurídico.
O Greenpeace tem tentado forçar as autoridades a agirem

A costa árida e inconfundível da Andaluzia é, ainda em muitos locais, inóspita e desbravada; a salvo dos resorts de arranha-céus que proliferam costa acima. Foi também por isso, recorda o “The New York Times”, que o realizador David Lean escolheu o local para gravar várias cenas do seu icónico “Lawrence da Arábia”.

A beleza, porém, começa a esgotar-se, responsabilidade dos humanos e da sua vontade de usar o turismo como potenciador da economia. Pelo caminho, a natureza passa a ser um mero detalhe burocrático. E não existe exemplo melhor do que o bicudo caso do hotel de Algarrobico, uma construção no centro de um caso jurídico com mais de trinta décadas de discussão — e cuja controvérsia chegou ao outro lado do oceano.

Por Espanha, a discussão continua e, mais do que acordar sobre a melhor forma de resolver o problema, todos se colocam a mesma pergunta: como é que se autorizou construir um horrendo e disforme gigante de betão num Parque Natural?

A história começa há mais de 30 anos, precisamente porque foi nessa altura que foram estabelecidas as normas de construção no local inserido no Parque Natural Cabo de Gata-Níjar. O terreno não era urbanizável e, no entendimento de todos os responsáveis, essa estipulação legal deveria ser suficiente para cumprir o propósito.

No início de 2001, depois de sucessivas (e complexas) alterações aos mapas e aos planos diretores municipais — nem sempre cumprindo as regras —, é feito o pedido de construção de um hotel de luxo que revolucionaria a zona.

Ficaria assente numa escarpa em cima do mar, a 50 metros das ondas do Mediterrâneo. Se contarmos com a piscina, a esplanada e as construções de praia, o hotel fica a meros 14 metros do mar. El Algarrobico, na praia com o mesmo nome, teria 21 andares e 411 quartos, mas acabou por nunca ser concluído.

A meses do final das obras, tudo fico paralisado por ordem judicial. Uma decisão que deu origem a uma batalha legal que leva já 15 anos.

“Como o hotel de Algarrobico continua a existir, é um mistério. Infelizmente, a verdade é que não se trata de um caso isolado e têm existido vários casos semelhantes ao longo da costa espanhola”, refere ao “The New York Times” Pilar Marcos, biólogo ligado ao Greenpeace, organização que tem feito vários protestos no local. Inclusivamente, a organização ecologista pintou um enorme “ilegal” nas fachadas.

“Temos repetidamente ignorado todos os regulamentos em busca da galinha de ouro”, critica Marcos sobre as decisões das autoridades espanholas.

A construção destruiu parte da encosta

A construção do hotel começou em 2003. O terreno, comprado pela empresa espanhola Azata, tinha uma autorização de construção dada pela autarquia local de Carboneras, à revelia do plano do Parque Natural. O projeto havia de ser interrompido em 2006 e, ao fim de uma batalha legal de uma década, o Supremo Tribunal espanhol declarou a construção ilegal por estar em “solo não-urbanizável” e de “alta proteção”.

Deveria ser um final feliz, mas não foi. Faltava decidir quem deveria arcar com a pesada fatura de demolir um hotel construído a 95 por cento. Entre dezenas de casos que se acumulam e acabam num burocrático beco sem saída, o hotel torna-se cada vez mais uma mancha na paisagem andaluza.

Apesar de haver mais de 20 sentenças judiciais que confirmam a ilegalidade do hotel, as últimas notícias não auguram nada de bom. Em julho de 2021, o Tribunal Superior de Justiça da Andaluzia recusou o pedido da Greenpeace para avançar com a demolição. De acordo com os juízes, a ação não poderá avançar enquanto o município de Carboneras não anular a licença de construção dada em 2003.

A lentidão do processo assegura que o hotel se irá continuar a degradar a olhos vistos na paisagem (quase) intocada do parque natural que, durante décadas, se manteve como refúgio selvagem da costa espanhola no Mediterrâneo — e que agora se vê cada vez mais ameaçada. “No que toca à promoção do turismo, a natureza é mais facilmente danificada do que reparada”, conclui o jornal norte-americano.

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