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O implacável porteiro que terá barrado a entrada a Elon Musk num mítico clube de Berlim

Sven Marquardt é um dos profissionais mais temidos do mundo. Odeia "os VIP de merda". No Berghain, só entra quem ele deixa.
Quase ninguém passa por Marquardt

No início de abril, chegavam os primeiros relatos não-oficiais de que Elon Musk, o homem mais rico do mundo, estaria por Berlim a divertir-se nos mais curiosos e concorridos clubes noturnos da capital alemã. O caminho terá levado Musk até à porta da catedral, o clube Berghain, um dos mais exclusivos do mundo — e segundo relatos de várias testemunhas, terá sido rejeitado à porta e obrigado a voltar para casa.

O profissional que terá passado uma guia de marcha ao homem mais rico do mundo tem também ele fama mundial: a de ser o porteiro mais mal-encarado. Sven Marquardt é quase tão famoso como a própria casa, uma discoteca instalada numa antiga central de aquecimento erguida no pós-guerra — e que hoje é palco das mais incríveis raves de Berlim (e, dizem, também do mundo).

Marquardt não é apenas um porteiro, é uma instituição. O seu ar não é propriamente simpático. Nas orelhas carrega dois enormes e grossos brincos prateados, que parecem cansar e distender ao limite os frágeis lóbulos. Combinam com dois piercings semelhantes, colocados simetricamente nos lábios de baixo. No nariz, outro piercing atravessa o septo e espreita discretamente por cada uma das narinas.

De barba grisalha, bem aparada e cabelo comprido, sempre cuidadosamente puxado para trás, intimida com as suas tatuagens faciais: traços com espinhos e arame farpado percorrem-lhe o lado esquerdo da cara e prolongam-se pelo pescoço. Nos dedos e ao pescoço, mais joalharia pesada, bruta, tétrica: caveiras, cruzes.

“Nunca me arrependi [da tatuagem facial]”, recorda à “GQ”, enquanto explica que teve que convencer o tatuador a fazê-la, perante a sua relutância. “Por essa altura, tornou-se particularmente claro que não iria ter uma carreira na banca.”

Mais intimidante do que a aparência, é a fama que o persegue: a taxa de rejeição à porta do Berghain é alta. Altíssima. A elevada procura leva a que muitos passem horas à porta, sob temperaturas negativas, chuva e neve, para poderem ter uma pequena chance de entrar. Terminada a provação, ficam à mercê do juízo de Marquardt.

Seguindo várias testemunhas, Musk terá sido a mais recente vítima da indiferença total do porteiro que não quer saber da fama, do dinheiro ou do poder de quem quer entrar. Aquela pequena porta é o seu mundo e, ali, ele é dono e senhor.

A rejeição de Musk às portas do Berghain tornou-se numa espécie de mito urbano. Sabe-se que o dono da Tesla andaria por Berlim, que percorreu vários clubes. Sabe-se que Marquardt não hesitaria em aplicar essa humilhação. Mas será que aconteceu mesmo?

Abriu em 2004 e é um dos mais exclusivos clube de Berlim

O incidente levou a que a “Vice” lançasse uma investigação sobre o tema e embora não existiam dúvidas de que poderia mesmo acontecer, há quem coloque em causa a disponibilidade de Musk para aguentar a provação apenas apara chegar à porta do Berghain.

“Escreveram PAZ na parede do Berghain”, escreveu Musk no Twitter, a comprovar que, pelo menos, passou pelo local, que colocou a inscrição nos últimos meses. “Recusei entrar”, escreveu. Horas depois, voltou ao ataque: “Paz. Paz? Odeio a palavra. Aqueles que se preocupam com a paz (eu incluído) não precisam de ouvir isso. E aqueles que não querem saber da paz? Bem…”

No ar ficou a dúvida se Musk teria tido paciência para aguentar as previsíveis horas de espera na fila, apenas para chegar à porta e ser rejeitado — e depois lançar-se num dos seus habituais frenesins nas redes sociais. Ou se, porventura, percebeu que não perderia o seu tempo e encontrou uma forma de, mais uma vez, criar polémica no Twitter.

Há, porém, algo de que ninguém tem dúvidas: se alguém teria a coragem de obrigar o homem mais rico do mundo a fazer o já épico walk of shame de saída da fila do Berghain, esse alguém seria Sven Marquardt.

A rigidez da política de entrada é de tal forma famosa que em 2016, num festival de música holandês, foi criada uma réplica da fila do Berghain. As pessoas esperavam alinhadas umas atrás das outras e, quando chegavam à porta, eram mandadas voltar para trás. Apenas e só isto.

Foram criadas aplicações que dão dicas para todos os que pretendem tentar viver uma noite de festa na Berghain. No YouTube, multiplicam-se os vídeos sobre dicas e de tentativas falhadas. O mito torna-se ainda mais idílico pelo facto de pouco se saber sobre o interior da discoteca, que mantém uma política rigorosa de proibição de fotografias e gravção de imagens no seu interior.

À frente de tudo isto está o berlinense de 60 anos, fotógrafo de profissão. E quem pensa que consegue fintá-lo com um par de dicas sobre roupa e atitude, está bem enganado. É que no reino de Sven Marquardt, a única regra é o seu instinto. Não há políticas de admissão: tudo é subjetivo.

“Quando alguém chega à porta do clube, eu é que decido se entra ou não. A decisão é subjetiva”, explicava em 2017 ao “El Mundo”. “O Berghain não é um sítio para curiosos, é um sítio para passar um bom momento. As duas ideias-mestras do espaço são a música e a festa — e eu devo assegurar-me de que quem entra e ali está é porque sente a música e quer fazer a festa. A minha responsabilidade é a de que a noite decorra da forma mais pacífica possível.”

E assim funciona: Marquardt tanto diz não a um jovem estudante local como ao famoso norte-americano de passagem por Berlim. Terá acontecido com Elon Musk, e aconteceu com o comediante e apresentador Conan O’Brien — que terá batido o recorde de rejeição a maior distância da porta, para a qual pouco terá ajudado ter chegado com uma equipa de filmagem — e um dos conhecidos nomes da cena eletrónica, o DJ Felix da Housecat.

O estilo pessoal de Marquardt também dita tendências no Berghain.

Para que não se duvide que Marquardt tem algo contra ricos e famosos, o diário espanhol afirma, por exemplo, que a atriz Claire Danes era presença habitual no Berghain, quando passou pela cidade para gravar a série “Segurança Nacional”. Ainda assim, assegura, não tem a mínima paciência para “os VIP de merda”.

“Jogamos o mesmo jogo com eles: acham que são importantes, mas para nós, é mais importante o ambiente que se cria dentro do clube”, afirma. O processo de seleção à porta é muito simples e rápido. “Tu chegas, olho-te nos olhos, inspeciono-te e digo-te se entras ou não”, descreve.

O alemão é muito mais do que um porteiro glorificado. Além de ser fotógrafo profissional, já publicou três livros e uma autobiografia — e já assinou uma parceria com a Hugo Boss.

Sven conhece bem o ambiente da noite. Iniciou-se como frequentador, antes de saltar para a porta de um pequeno clube berlinense. “Foi aí que conheci os donos do Ostgut, o clube anterior ao Berghain”, recorda. Era nesse espaço que, três a quatro vezes num ano, se faziam festas gays “apenas para homens pervertidos”.

“Pediram-me que fosse gerir a porta, passei a ficar lá todos os fins de semana e quando o Ostgut se transformou em Berghain, acabei por ficar.” Ali comanda a porta, num regime absolutista, há 12 anos.

Marquardt é também um ícone de estilo e define o tom e estética do Berghain, gótico, minimalista. “Os meus colegas picam-me com isso, dizem-me para me vestir de forma mais colorida para ver se os clientes param de usar apenas roupa preta”, explica à “GQ”. “Calhou de o preto estar na moda na nova geração também. E, honestamente, acho que as sapatilhas são cool, mas simplesmente não são a minha onda (…) Ainda no outro dia apareci na porta todo vestido de branco, só para surpreender toda a gente.”

Na autocracia de Marquardt, existe alguma benevolência. “Apenas alguns dos meus tipos podem fazer seleção à porta”, nota. “Mas antes de o poderem fazer têm que perceber a essência do Berghain, têm que ter essas bases. A partir daí, não há regras fixas (…) Queres, no entanto, que haja sempre alguma fricção. Esse é o segredo de qualquer bom clube: diversidade, fricção.”

Para o porteiro mais difícil do mundo, o espírito do clube é a sua religião. Existem uma fé, uma ordem e uma tradição a serem respeitadas. Quem não as respeita, nunca poderá entrar e fazer parte dele.

“Sinto que tenho a responsabilidade de fazer do Berghain um local seguro para quem vem puramente para apreciar a música e celebrar — de preservá-lo como um sítio no qual as pessoas podem desprender-se do espaço e do tempo por um bocadinho, de se divertirem”, nota. “O clube teve origem na cena gay de Berlim dos anos 90. É importante que preservemos parte dessa herança que defende que devemos ser um sítio que acolhe bem todo o tipo de frequentadores de clubes. Se fôssemos um clube recheado de modelos, de pessoas bonitas vestidas de preto, teria interesse durante uma meia hora, depois, meu Deus, quão aborrecido seria. E seria também muito menos tolerante.”

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