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O magnífico trilho japonês de 1000 quilómetros que está a ajudar a curar uma nação

O percurso de longa distância entre Fukushima e Aomori passa por praias e florestas e destaca a ruralidade desta zona do Japão.
Não é fácil.

A 11 de março de 2011 o mundo parou para ver o que se passava no Japão, onde um terramoto de magnitude 9 na escala de Richter destruía várias regiões do país. Foi o quarto maior desde 1900, ano em que a atividade sísmica começou a ser registada. Tohoku, no nordeste do Japão, foi a região mais afetada — não parou de tremer durante seis minutos. O pior, porém, ainda estava para vir. Uma onda gigante acabou por ceifar a vida de 18 mil habitantes e deixou milhões sem casa.

Após a catástrofe, Tohoku investiu 259 milhões de euros para tentar reverter os danos causados. Construíram-se estradas e paredes que protegem as casas da ondulação do mar. Outra iniciativa, que se tem vindo a destacar cada vez mais, foi a criação de um trilho de 1.000 quilómetros.

O Trilho Costeiro de Michinoku, pensado em 2012, pretendia revitalizar as comunidades mais afetadas pelo tsunami, tentando dar alguma esperança à região ao mesmo tempo que promovia a sustentabilidade. “O percurso de longa distância entre Fukushima e Aomori pode agir como uma ponte que liga a natureza, os estilos de vida locais e os vestígios do desastre aos caminhantes”, afirmou o governo na proposta inicial.

Ficou completo sete anos depois, embora tivesse sido pouco explorado durante os 18 meses seguintes, devido à pandemia. O percurso começa na cidade de Soma, em Fukushima, e segue por norte passando por Iwate e Miyagi — duas localidades nas zonas mais gravemente afetadas pela onda gigante — antes de chegar a Hachinohe, em Aomori.

“Segue a costa do Oceano Pacífico, entre florestas, praias remotas e altíssimos penhascos, até portos de pesca”, conta à “BBC” Paul Christie da Walk Japan, uma empresa de visitas guiadas que organiza expedições e experiências pelo trilho. Revela que em algumas das aldeias pela qual o percurso passa, os efeitos do tsunami foram mínimos, enquanto que noutras as reconstruções continuam, mesmo mais de dez anos depois.

Segundo Christie, o longo caminho já atraiu a atenção de caminhantes nacionais e internacionais. Estima que o verdadeiro boom do percurso ocorra durante este ano, à medida que as restrições da Covid-19 vão sendo aligeiradas um pouco por todo o mundo.

Para os locais, foi-se tornando num caminho diário. Os pescadores percorrem-no para chegarem aos seus postos, que funcionam também como espaços que ligam as pessoas às atividades locais, como a criação de sal e a gastronomia da região. Outrora, o espaço estava completamente em ruínas. “As pessoas de cá têm-se estado a usar o trilho desde os seus primórdios, ajudando a construir a estrada. Agora juntam-se ao trabalho de conservação, gerindo, em simultâneo, atividades e visitas para viajantes”, conta à mesma publicação Naoko Machida, um guia turístico. “Muitos de nós temos uma ligação muito forte ao percurso. Tornou-se num símbolo da esperança.”

Ali, as boas ações são retribuídas. Quando a região ficou devastada pelo tsunami, os habitantes das áreas circundantes ajudaram os locais. Desta vez, são eles que oferecem ajuda aos visitantes, dando-lhes tendas e lugares onde dormir. “Quando a minha filha de 18 anos percorreu o trilho, um senhor ficou tão preocupado com ela, que ia acampar nas montanhas, que lhe ofereceu um quarto e comida”, recorda-se Kumi Aizawa, uma das responsável pela ONG que gere o Trilho Costeiro de Michinoku.

Embora o caminho tenha importância económica, uma vez que acaba por beneficiar os afetados pelo tsunami (e as aldeias por onde passa), também desempenha um papel emocional importante, criando um espaço seguro para várias conversas sobre o desastre.

“Os caminhantes são, para os locais, alguém com quem podem falar. Os locais não podem conversar uns com os outros sobre o desastre. Podias conhecer alguém num bar, mas não sabes se perdeu um filho ou a mulher, então não falas do assunto. Mesmo dentro das família, o assunto é quase tabu. Os viajantes são de fora, então é mais fácil falar com eles. Dez anos depois, as pessoas ainda têm muito do tsunami dentro de si”, revela.

E recorda uma história que lhe contaram, sobre um adolescente que estava a ser socorrido por uma mulher, que o ajudava a subir uma parede. Quando o jovem se virou para trás para a ajudar a ela, já tinha sido levada por uma onda. “O rapaz demorou quatros ano até conseguir contar isto a alguém. Demora tempo. Mas é importante falarmos, por isso é que Tohoku precisa de alguém que ouça — os visitantes podem ser essas pessoas durante o seu percurso”, conclui Aizawa.

Como chegar

Este trilho é perfeito não só para os caminhantes mais experientes, mas também para aqueles que querem criar uma forte ligação com a natureza e com os locais que, entre si, têm centenas de histórias para contar.

Para lá chegar, pode apanhar um avião de Lisboa para Tóquio, com os preços a começarem nos 625€. Após isso vai embarcar no comboio Shinkansen, que tem uma paragem na região de Fukushima.

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