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O tampão, a conversa picante e a história do maior escândalo de Carlos e Camilla

Em 1993, a divulgação de uma conversa privada entre os novos reis abalou a Casa Real. 30 anos depois, o tema voltou a ser discutido.

“Oh, Deus. Devia viver dentro das tuas calças. Tudo seria mais fácil”, diz ele. Ela ri-se. “Vais-te transformar num par de cuecas?” O par troca gargalhadas, cada um do seu lado da linha. “Ou, Deus me livre, num Tampax. Que sorte seria a minha”, atirou ele, entre risos.

O que poderia muito bem ser uma conversa retirada do guião de um qualquer episódio de um reality show já numa temporada com dois dígitos, revelou ser um dos maiores escândalos a abalar a família real. Ele, já se percebeu, é Carlos, então príncipe, hoje rei. Ela é nada mais nem menos do que Camilla, então a amante secreta, hoje a rainha consorte.

Tudo aconteceu em 1989, três anos antes da separação de Carlos e Diana ser assumida publicamente. Para todos os efeitos, o príncipe de Gales estava ainda muito bem casado — ou pelo menos assim o ditavam as aparências da casa real. Camilla também era uma mulher casada. A divulgação destas conversas seria um embaraço de todo o tamanho para todos os envolvidos.

A verdade é que, durante três anos, essa conversa de pouco mais de seis minutos ter-se-à desvanecido da memória de Carlos e Camilla, que mantinham a relação secreta desde os anos 70, impedidos de assumirem publicamente os seus desejos. Restavam-lhes os furtivos telefonemas onde exorcizavam os desejos.

Infelizmente para os dois, em 1993, pouco tempo antes do anúncio oficial da separação de Carlos e Diana, uma publicação australiana revelava a transcrição completa do telefonema. Do outro lado do mundo, a Casa Real assistia, de mãos atadas, à explosão de dois escândalos. O primeiro: como é que alguém tinha tido acesso a uma chamada privada do príncipe? O segundo: a conversa sexual manchava de vez a imagem de um já fragilizado príncipe.

Era público que a relação de Carlos com Diana tinha chegado ao fim. Sabia-se também que, parte da culpa, era da relação secreta com Camilla. Só que o telefonema tornou tudo inegável — e provocou um embaraço de proporções épicas à realeza britânica.

O furo caiu nas mãos dos editores da “New Idea”, uma revista que pertencia ao império jornalístico global de Rupert Murdoch. Anos mais tarde, o magnata viria a ser julgado pelo uso abusivo e ilegal de escutas telefónicas pelos seus jornais e revistas. O escândalo significou o fim de alguns dos seus títulos mais rentáveis — e especula-se que as suspeitas tenham tido precisamente origem na divulgação da escuta real.

Não foi por falta de tentativas de esconder a origem da escuta. A transcrição em áudio foi vendida como tendo sido captada por um entusiasta da rádio, que com os seus aparelhos terá intercetado a chamada, que por sua vez foi parar às mãos da “New Idea”.

Nessa noite de 17 de dezembro de 1989, a conversa começou morna, mas rapidamente aqueceu. “Seja como for”, desviou Carlos, “esse é o tipo de coisa a que uma pessoa tem que estar atenta. Ir apalpando terreno, se é que me entendes”. Camilla entendeu perfeitamente. “Hmmmm, és particularmente bom a apalpar terreno.” “Oh, pára”, atirou o príncipe. “Eu é que quero apalpar o teu terreno, por todo o lado, para cima, para baixo, por dentro, por fora.” “Oh, Carlos”, desabafou a amante.

Carlos não esmoreceu. “Particularmente dentro e fora.” “É mesmo isso de que preciso neste momento para me despertar. Não consigo aguentar mais uma noite de domingo sem ti”, respondeu ela. Camilla fez uma referência a um programa de televisão chamado “O Início da Semana”. “Não consigo começar a minha semana sem ti”, suspira. “Eu encho-te o depósito”, graceja o príncipe. “Ah, pois enches.”

@jim_nauseum

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O par, entusiasmado, lançou-se num jogo que se tornaria mundialmente famoso e daria o nome ao escândalo: o Tampongate. “Preciso de ti várias vezes por semana”, confessa Carlos. “Hmmmm, também eu. Preciso de ti toda a semana, a todo o tempo”, responde Camilla. “Oh, Deus. Devia viver dentro das tuas calças. Tudo seria mais fácil”, diz ele. Camila contra-ataca: “Vais-te transformar num par de cuecas?” É quando Carlos atira a linha fatal: “Ou, Deus me livre, num Tampax. Que sorte seria a minha”.

O romantismo da conversa esbateu-se de vez com a comparação. “És um perfeito idiota. Mas que ideia maravilhosa”, comentou Camilla, entre risos e a sugestão de que Carlos poderia antes ser toda uma completa caixa de tampões. “Era a minha sorte, ser atirado para dentro do lavatório, para sempre a rodopiar e a voltar à tona, sem nunca ir pelo cano abaixo.”

Entre mais anseios e planos para se tentarem encontrar às escondidas na residência onde Carlos morava temporariamente, a conversa rapidamente entrou nos eixos. Acabariam a discutir percursos rodoviários e a despedirem-se com juras de amor.

O escândalo pouca influência teve no destino da relação de Carlos e Diana, já irremediavelmente arruinada. Teve, contudo, o condão de atirar para a lama a reputação do príncipe de Gales, já às avessas com o público, que o via como culpado pelo fim do casamento real.

Por momentos, a discussão centrou-se na questão óbvia: quem gravou o telefonema? Com o eclodir do escândalo das escutas de Murdoch, muitos apontaram-lhe o dedo, sem provas. Outros arriscaram acusar os serviços secretos britânicos. O “The Daily Mirror”, por sua vez, afirmou que as gravações teriam sido partilhadas com a imprensa por uma “pessoa comum”. Nunca se chegou ao verdadeiro culpado.

Em simultâneo, os britânicos assistiam incrédulos às tropelias pouco habituais da família real. Ou melhor, suspeitava-se de que elas existiam, mas raramente eram tornadas públicas. Camila era vista como uma “destruidora de lares” e, dentro dos círculos reais, muitos começavam a questionar a idoneidade de Carlos e o seu perfil para suceder a Isabel II no comando da Casa Real.

Diana, já afastada de Carlos, mas ainda bem no centro do furacão, terá comentado o caso com as pessoas mais próximas. Segundo o livro de Ken Wharfe, o seu segurança pessoal, a princesa encarou a conversa como “doentia”.

O escândalo acabaria por abrandar e o resto é história. Diana haveria de morrer num acidente de viação e Carlos e Camilla acabariam por casar em 2005. Agora, numa altura em que Carlos ascende finalmente ao trono, o Tampongate volta a ganhar destaque nas redes sociais e a espantar todos os que em 1993 eram ainda demasiado novos para ler as manchetes dos jornais.

E nem a famosa série da Netflix, “The Crown”, que acompanha a viagem épica do reinado de Isabel II e de todos os que lhe eram mais próximos, ousou tocar na “conversa picante” de Carlos e Camilla. Segundo o ator que encarnou Carlos, Josh O’Connor, reencenar a chamada nunca esteve nos seus planos.

“Quando me ofereceram o papel, foi uma das primeiras coisas que disse: não vamos fazer a chamada sobre o tampão.”

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