Viagens

Os 4 jovens portugueses que estão a caminho do Catar à boleia para verem o Mundial

Arracaram a 6 de outubro e querem chegar a Doha antes do primeiro jogo da seleção. Já percorreram 4 mil quilómetros e 10 países.
Uma aventura de quase 8000 quilómetros.

Uns dizem que são loucos, outros que são destemidos. Afinal, nem todos se atrevem a ir até ao Catar à boleia de desconhecidos. Cerca de 8000 quilómetros separam os dois países e o objetivo destes quatro ambiciosos jovens portugueses é chegarem ao destino antes da estreia da seleção no Mundial 2022, que está marcada para o dia 24 de novembro. 

Francisco Albuquerque (25 anos), Duarte Delgado (26 anos) e Bruno Carvalho (25 anos) andam pelas beiras das estradas com o polegar erguido e um cartaz na mão para desde 6 de outubro. Mais tarde, juntar-se-á também ao grupo o amigo Daniel Estima (25 anos), para concluírem o grande objetivo desta aventura: chegarem ao Catar em 50 dias. Se costuma andar pelo YouTube, é bem provável que reconheça a cara de dois dos aventureiros: há cerca de três anos, Daniel Estima, engenheiro biomédico, e Francisco Albuquerque, editor de vídeos, criaram o canal Andamente, um projeto onde se desafiam a viver de forma espontânea, sem medos e arrependimentos — e sempre com uma história para contar. Com mais de 50 mil subscritores, já foram até ao Egito só para verem o concurso Preço Certo, visitaram o homem e a mulher mais isolados do País e até superaram o medo de saltar de avião. Depois de terem percorrido Portugal de norte a sul em três dias à boleia, decidiram amplificar o desafio, desta vez com a companhia de dois amigos.

“Andar à boleia já é um desafio recorrente no nosso projeto. A viagem ao Catar surgiu da vontade de fazermos algo relacionado com o mundial de futebol, o qual acompanhamos de perto” contam à NiT.  Inicialmente, a ideia seria atravessar cada um dos países do grupo da seleção nacional: Uruguai, Gana e Coreia do Sul. Contudo, “o tempo e o orçamento necessários”, inviabilizaram o projeto. Não desanimaram. Em contrapartida, decidiram ir ver o primeiro jogo da seleção à boleia.

De mochila às costas, a aventura começou em Lisboa, numa das estações de serviço da Segunda Circular, no dia 6 de outubro. A primeira boleia, como contam à NiT, foi dada por dois amigos que iam a caminho de Viseu. Pararam em Torres Novas, Entroncamento, Abrantes e Guarda ainda antes de atravessarem a primeira fronteira do desafio (uma de muitas). Uma semana depois da partida já tinham percorrido cerca de 2300 quilómetros e pararam para descansar uns dias em Bolonha.

“Inicialmente, definimos o percurso desejado incluindo as cidades pelas quais queríamos passar (Toulouse, Mónaco, Bologna, Split, Istambul), sendo que para chegarmos ao destino temos recorrido ao nosso mote ‘adapt the plan’, visto que estamos constantemente limitados pelos destinos dos condutores”, revelam. Com a experiência, também foram aprendendo a negar uma boleia caso se desvie muito do destino planeado. 

Como todos os dias são uma incerteza, nem sempre sabem onde vão acabar a noite ou se vão poder dormir numa cama. Apesar da adrenalina, nem tudo é um mar de rosas: quando anoitece, torna-se mais difícil conseguir boleias. Nesses casos, o que os salva são as tendas que transporam com eles e que “funcionam como último recurso”. “Às vezes é preferível passar a noite em hostéis, por uma questão de higiene pessoal”.

Quase um mês após o início do desafio, já percorreram cerca de 4000 quilómetros (metade do percurso até Doha), passaram por 10 países e muitas outras cidades. Atualmente estão em Istambul, na Turquia, e foi de lá que falaram com a NiT.

Encontraram um cantor chamado Pep’s numa estação de serviço perto de Montpellier que, não só canta bem é também bastante conhecido em França. Foram à boleia até Itália com um homem cujo hobby é estudar cogumelos e atravessaram o Mónaco enquanto davam toques numa bola. Peripécias que podem ser acompanhadas através do canal de Youtube ou do Instagram.

Um dos maiores desafios (quase tanto como arranjar um condutor) acaba por ser a alimentação. “Acabamos por ficar tão distraídos com o desafio e com a vontade de apanhar a próxima boleia que, às vezes, passamos bastante tempo sem comer. Além disso, atravessar fronteiras em zonas de maior tensão política cria também alguns desafios não tão agradáveis”, confessam.

Dentro da União Europeia, passar de um país ao seguinte não é um problema. Contudo, certos países que podem vir a ser uma preocupação, como poderá ser o caso do Irão. “Nesta fase da viagem a instabilidade política que se vive no Médio Oriente é, de facto, uma preocupação, que nos obriga a pensarmos duas vezes antes de tomarmos uma decisão e a aumentarmos o nível de cautela. Não queremos, no entanto, ficar reféns do receio do que possa vir a acontecer.”

Também já viveram momentos em que “as horas iam passando, o sol batia-nos na cabeça, e ninguém parava para nos dar uma boleia”. Tem sido uma viagem cheia de altos e baixos, pelo que têm de ter “a capacidade de entender quando devemos adotar uma nova abordagem caso não esteja a resultar”, mudar de sítio, caminhar até uma bomba de gasolina ou abordar as pessoas diretamente.

“O que nos tem surpreendido mais têm sido as histórias das pessoas que temos conhecido. Temos a oportunidade de viver um pouco do dia delas, mesmo que seja numa conversa de automóvel”, destacam. Um dos episódios mais marcantes até ao momento foi o dia em que apanharam uma boleia de um casal, já às 22 horas, que lhes deu muito mais do que a viagem de carro: “tiveram a amabilidade de nos abrirem a porta de sua casa para que pudéssemos passar lá a noite em segurança e com conforto”.

O grande objetivo da viagem, depois de percorrerem os cerca de 8000 quilómetros, é conseguirem estar presentes no primeiro jogo de Portugal no Mundial e desejarem “boa sorte ao Ronaldo e restante seleção”. Já têm os bilhetes reservados e têm sido apoiados pela equipa do grupo Solverde, o patrocinador oficial, e também pela Decathlon e a IATI Seguros, no caso do equipamentos e seguros. 

De seguida, carregue na galeria para descobrir os melhores momentos deste primeiro mês de boleias.

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