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Os rodeos gays que querem domar a tradição — e dar um pontapé na discriminação

Nasceram na década de 80 nos estados mais conservadores dos Estados Unidos e desafiam os limites das comunidades que os isolaram.
Nestes rodeos ninguém fica à porta

É uma velha (e máscula) tradição americana. Não é só isso que a distingue. “O mundo do rodeo é, obviamente, muito homofóbico e conservador. Há nele tanto machismo. É racista”, revela Luke Gilford, o fotógrafo e cineasta que decidiu mostrar o outro lado destes rodeos. E ele não podia ser mais diferente.

O fenómeno também não é novo, embora ainda relativamente desconhecido: os rodeos gay, onde os chapéus de cowboy fazem par com brincos cintilantes e espalhafatosos. Ainda assim, a essência está lá. Os corajosos saltam para cima dos touros endiabrados e enfrentam-nos sem medo.

Fundada em 1985, a International Gay Rodeo Association abarca as pequenas associações espalhadas um pouco por todo o país, sobretudo naquela zona a que os americanos chamam de Bible Belt, um conjunto de estados conhecidos pelo seu conservadorismo. E onde, previsivelmente, os direitos dos homossexuais chegaram muito mais tarde, se é que chegaram de todo.

Foi essa discriminação que nos anos 80, empolada pela histeria do surgimento da SIDA — vulgarmente (e erradamente) associada às comunidades homossexuais —, fez surgir estes pequenos núcleos onde todos se sentiam acolhidos.

O fotógrafo Luke Gilford viajou pelos rodeos para fotografar os seus heróis

Os primeiros eventos serviram, sobretudo, para recolher fundos para apoiar vítimas da doença que se viam sem capacidade financeira para pagar os caros tratamentos. Pelo caminho, as ajudas também serviram para ajudar membros que não eram portadores da doença.

O ambiente agressivo e conservador do rodeo tradicional tendia a afastas os membro que, mesmo sem assumirem a sua homossexualidade, nãos e sentiam em casa. A criação de um circuito alternativo foi a solução para manterem viva a tradição e a paixão pelo desporto rural.

As competições são amadoras e não têm o profissionalismo do circuito dito normal, mas não é por isso que são encaradas com mais leveza. Além disso, não há qualquer divisão por género no concurso: todos podem participar e são julgados de igual forma.

Também porque nestes grupos nada é levado demasiado a sério, há pequenas competições que acompanham o evento principal. Um deles é o concurso de vestir a cabra, que consiste em pegar num par de cuecas brancas e vesti-las à cabra — se conseguir.

Não é apenas um foco de concentração e de liberdade para pequenas comunidades LGBT encravadas no meio de cidades e vilas habitualmente hostis a desvios da norma. Nas bancadas há também uma maior diversidade racial.

Não é a brincar: também se domam touros endiabrados

“Sim, há muitos brancos de áreas rurais, mas também temos afro-americanos vestidos de chapéu, botas e wrangler jeans, muitos latinos e de origem mexicana”, explica Nadine Hubbs, professora universitária e autora de um livro sobre o fenómeno. 

Há participantes dos 18 aos 70 anos e muitos dos rodeos apostam também em concursos paralelos como a eleição da drag queen e do drag king. E desengane-se quem achar que nestes eventos só entram elementos da comunidade.

“Qualquer pessoa é bem-vinda. Homens, mulheres, pais, filhos e filhas, todos competem juntos”, revela um dos organizadores do Texas Gay Rodeo Association, organização que já dou mais de dois milhões de euros para a luta contra a SIDA. 

Sob um mandato de um presidente conservador com tradição de proteger as franjas mais extremistas, a normalidade parece imperar. “É frustrante que hoje em dia as pessoas pareçam estar presas no papel que as sociedade lhes deu, em vez de o desafiarem. Seja como for, aqui o animal não quer saber se eu sou homem ou mulher, gay ou heterossexual. Quando estou em cima dele, pelo menos nesse momento, sei que ninguém me vai julgar”, conclui uma das participantes. 

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