Viagens

O destino paradisíaco no Brasil que faz lembrar a Comporta (mas sem melgas)

O humorista e cronista da NiT, Miguel Lambertini, passou uns dias com a família em Trancoso, no Brasil. E não quis voltar.
É uma maravilha. Foto: Rodrigo Soldon

Viajar até ao Brasil é algo extraordinário, em todas as dimensões. Desde logo porque temos de atravessar 5.600 quilómetros de oceano para chegar a terra firme e, se tudo correr bem, fazemo-lo sem nunca tocar numa gota de água. Eu gosto de andar de avião, mas a ideia de ficar fechado num autocarro com asas durante 10 horas, não é das coisas que mais me entusiasmem.

Meço 1m92, por isso, como viajo em económica, aquele anúncio inicial da hospedeira, a mim soa-me mais ou menos assim: “Senhores passageiros, em nome da Air Tortura, sejam bem-vindos a bordo do nosso voo com destino a São Paulo. O vosso martírio, que terá a duração de demasiadas horas, vai iniciar dentro de momentos, pelo que pedimos que apertem os cilícios de segurança e coloquem a cadeira na posição vertical, pelo menos até ao momento em que o vizinho da frente se lembre de reclinar as costas do assento esmagando-lhe as rótulas até ao final da viagem. Nesse momento poderão fazer o mesmo e desfrutar do resto do suplício enquanto os joelhos do passageiro do banco de trás fazem papa Cerelac dos vossos rins”.

Não obstante, no momento em que fingia ouvir as recomendações de segurança no ecrã à minha frente, dei por mim a pensar que, antigamente, esta mesma viagem durava meses e não horas. Além disso, em vez de pacotinhos de cacoetes, recebíamos um carradão de escorbuto e já íamos com sorte. Por isso, não podia mesmo queixar-me, até porque aparentemente não havia bebés por perto e entre dois filmes, revistas, livros, jogos de telemóvel e uma soneca (cortesia do meu querido Actifed), o trajeto fez-se muito bem.

Chegados ao Brasil, o destino final era Trancoso, na região da Bahia, um verdadeiro paraíso escondido, do município de Porto Seguro. Segundo nos explicou o Adriano, o nosso simpático e incansável guia durante esta viagem, a vila foi a primeira aldeia jesuíta no Brasil, fundada em 1586, com o nome de São João Batista dos Índios.

Até aos anos 70, só era conhecida por nativos, até que um grupo de hippies a descobriu e pouco a pouco foi revelada ao mundo. Hoje, Trancoso continua a ser um género de destino hippie, só que agora é hippie chic e os gadelhudos com símbolos da paz ao peito foram substituídos por turistas e milionários de São Paulo, que encontram nesta povoação o refúgio ideal para as suas férias. Desse ponto de vista a vila é um género de Comporta do Brasil, mas com mais charme, menos mosquitos (e menos tias também).

O ex-libris e ponto de encontro em Trancoso, é o famoso Quadrado – uma praça que foi batizada por alguém que faltou às aulas de Geometria, já que na verdade forma um retângulo – rodeado de casinhas coloridas que hoje são restaurantes, galerias e lojas modernas. Este é um espaço difícil de descrever, porque tem um encanto muito próprio. Ao caminhar por aquela relva ao pôr do sol, enquanto um grupo de “moleques” jogavam uma peladinha, senti que estava num filme do Fernando Meirelles.

Ao fundo do Quadrado ergue-se a bonita igreja de São João Batista, considerada a segunda igreja católica construída no Brasil. E atrás da Igreja, descobrimos o miradouro com uma vista de tirar o fôlego, e de onde podemos ter uma panorâmica da mata atlântica, do oceano e da foz do Rio Trancoso.

Quando o sol se põe, o local ganha uma segunda vida. Não há postes de iluminação elétrica, a única luz vem das lanternas dos restaurantes, das fogueiras (se tiverem a sorte de visitar, como nós, durante a época das festas de São João Batista) e da lua que reflete no mar o seu brilho e compõe o céu noturno de Trancoso, que é uma visão espantosa.

As opções de alojamento em Trancoso passam essencialmente por pousadas. Claro que há pousadas e pousadas e aquela onde ficámos é, na verdade, um resort magnífico que dá pelo nome de Pousada Estrela d´Água.  Localizada na Praia dos Nativos, uma praia semi deserta e uma das mais belas daquela zona, esta unidade é o refúgio ideal para quem procura conforto e tranquilidade com o pé na areia.

A pousada.

A pousada está colada à praia e das cadeiras da piscina conseguimos literalmente avistar o mar e a areia branca onde, de quando em vez, se passeiam vendedores de artesanato local. Felizmente eu estava com as mãos bastante ocupadas pelas caipirinhas que teimavam em não parar de chegar e por isso consegui resistir a comprar o equivalente a dois contentores de artesanato nas primeiras duas horas de estadia no Brasil.

Nesta pousada, que começou por ser a casa de férias da cantora Gal Costa, há 28 acomodações de um bom gosto incrível e imersas na vegetação exuberante daquela região. Algumas têm varandas com vista para o mar, outras como o bungalow onde eu fiquei, estão rodeadas de árvores e têm espaço para alojar duas equipas de futebol, bem como a sua respetiva prole e animais de estimação (sim o espaço é pet friendly).

São realmente descomunais as vilas do empreendimento, com áreas interiores amplas mas também com pátios à frente e atrás, bem como piscina privativa. Foi por isso uma estadia muito complicada, como poderão imaginar, porque eu não sabia se havia de descansar ou organizar um festival de verão no meu quarto.  

Para quem gosta de praia, as de Trancoso são aquilo que podemos considerar o protótipo de paraíso. Cercadas por areia fina, imensos coqueirais, falésias coloridas e mar com piscinas naturais, todas elas se encaixam no imaginário de qualquer viajante para dias de puro descanso à beira-mar.

Um desses exemplos é a Praia do Espelho, um areal exótico com pousadas charmosas e restaurantes na areia. É considerada uma das praias mais bonitas do Brasil e fica a 30 minutos de carro de Trancoso. Tem este nome porque quando a maré baixa e os reflexos do sol tocam a água, o mar torna-se um enorme espelho, que reflete o céu e revela a vida marinha do local, repleta de corais.

Depois de um passeio de lancha, chegámos à praia do Espelho para um pequeno-almoço absolutamente divinal num dos espaços mais charmosos daquela localidade. O Maion Hotel e Boutique tem uma localização privilegiada e das suas suítes os hóspedes podem vislumbrar o mar a poucos metros. “Maion” na língua indígena pataxó significa “luz” e isso é definitivamente algo que não falta na fantástica experiência de quem passa por lá.

Outra das visitas que quem for a Trancoso não pode deixar de fazer é conhecer a vila de Caraíva. Com quase 500 anos de história e 700 habitantes, esta é sem dúvida a praia mais encantadora da Costa do Descobrimento. Com ruas exclusivamente de areia, construções rústicas e sem nenhum tipo de veículos motorizados, que são substituídos por carroças puxadas por burros, Caraíva é um destino que nos deixa apaixonados à primeira vista e com vontade de ali ficar.

Situada entre o rio e o mar, a vila de Caraíva é um destino rústico e ao mesmo tempo charmoso, mas acima de tudo um lugar para nos desconectarmos do stress da vida agitada e deixar-nos envolver pela natureza. Descer o rio Caraíva de bóia, praticar Stand Up ou caiaque, caminhar até a praia do Satú, ou fazer o passeio de buggy até a Ponta de Corumbau e conhecer a Reserva Indígena do Porto do Boi, são opções que tornam Caraíva um destino a não perder.

Se quiser ficar alojado nesta vila, a “Casa de Paixão” é a melhor escolha que pode fazer. Inaugurada em 2018, este hostel de charme com quartos com varandas privadas, alguns incluem um pátio privado com vista para o rio, é propriedade de Tati Paixão e Tati não podia mesmo ter outro nome. Esta carioca que se deixou enfeitiçar pela Bahia é uma mulher cheia de energia que nos guiou de forma verdadeiramente apaixonada pelos encantos de Caraíva. 

Mas é fácil ficar enamorado de Trancoso. O verde garrido da mata atlântica recheada de coqueiros, palmeiras e mais de 450 outras espécies; as praias extensas, de águas cristalinas quase inexploradas; a fauna repleta de  papagaios e pica-paus que, lá do cimo, assistem aos macaquinhos trapezistas nas copas das árvores; a comida baiana que é uma mistura de cores e de sabores, com influências africanas, indígenas e portuguesas que conquistam qualquer um; e claro, as pessoas, o povo brasileiro e em particular estas gentes baianas tão singulares que usam a simpatia como cartão de visita e nos fazem sentir em casa.

Viajar até ao Brasil é algo extraordinário. Principalmente quando vamos sem esperar nada em troca e saímos de coração cheio. E uma ligeira dor de rins, vá, mas também ninguém me mandou ter a constituição física de um gigantone. 

Como chegar

Para chegar a esta paradisíaca cidade brasileira, primeira terá que apanhar um avião até à cidade de Porto Seguro, no Brasil. Encontra bilhetes de ida desde 529€ (Lisboa) e 590€ (Porto).

A partir do aeroporto de Porto Seguro, é possível seguir para Trancoso de carro, autocarro ou transfer particular. O primeiro passo é chegar até Arraial d’Ajuda. Pode ir de táxi ou Uber ou então apanhar um ferry que faz a travessia até lá. Quando chegar, só precisa de apanhar o autocarro que o leva diretamente para Trancoso, numa viagem de hora e meia.

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