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Passagem do Gois: a peculiar estrada francesa que desaparece várias vezes por dia

Tem pouco mais quatro quilómetros e faz a ligação até à ilha de Noirmoutier. Pode ser percorrida a pé, de carro ou bicicleta.
Fica completamente submersa.

Em Braga, existe a insólita estrada onde os carros sobem quando deviam estar a descer. Já em França, o fenómeno é diferente: há uma desaparece totalmente várias vezes por dia — e não se trata de nenhum truque de magia ou ilusão de ótica.

A Passagem do Gois (em francês, Passage du Gois) é uma estrada que liga Beauvoir-sur-Mer à ilha de Noirmoutier, onde fica o novo restaurante francês com três estrelas Michelin. Trata-se de uma pitoresca ilha de maré, no Oceano Atlântico, cuja ligação à região continental País do Loire, no oeste de França, fica submersa durante a preamar.

É mundialmente conhecida por ser uma das poucas na Europa que é transitável apenas algumas horas do dia, durante a maré baixa. Estende-se ao longo de 4,2 quilómetros e fica, literalmente, dentro do mar, como se fosse uma espécie de ponte. Contudo, não está suspensa e é “engolida” pela água duas vezes por dia, durante algumas horas, sempre que a maré sobe.

Em certos pontos, à subida das águas podem chegar aos quatro metros, o que torna a circulação impossível. Isto significa que, quem for à ilha de Noirmoutier durante a manhã, pode não conseguir regressar mais tarde. É por esse motivo que é considerada perigosa, mas não se preocupe: desde 1971 existe naquela localidade uma ponte que serve de alternativa ao icónico caminho original.

Contudo, existem muitos aventureiros que continuam a arriscar passar por lá fora das horas autorizadas. Quando há nevoeiro na região, por exemplo, algo que acontece com alguma frequência, a travessia pode ser bastante arriscada e há várias histórias de pescadores que são surpreendidos pela maré alta.

Devido à subida do nível das águas, as autoridades decidiram colocar painéis informativos que avisam se é possível, ou não, fazer a travessia da Passagem de Gois, que pode ser feita de carro, bicicleta ou a pé. Ao longo dos anos também foram instalados pequenos miradouros ao longo do percurso, locais onde os aventureiros se podem abrigar caso exista uma repentina elevação do nível da água.

Outra curiosidade é que, desde 1987, é organizada uma corrida, a Les Foulées du Gois, com um objetivo muito simples: atravessar a estrada antes que a maré suba. Acontece todos os anos, no verão, sendo que este ano está marcada para o dia 10 de junho. As inscrições podem ser feitas online. 

Durante a corrida, o sinal de partida é dado quando a maré começa a subir — e alguns participantes chegam mesmo a cortar a meta já com a água pelos joelhos. O recorde atual é de 12 minutos e oito segundos e foi estabelcido pelo atleta francês Dominique Chauvelier em 1990. Além disso, a via já fez parte do Tour de France, competição anual de ciclismo de estrada, nas edições de 1993, 1999, 2005 e 2011.

A Passagem do Gois foi construída há cerca de 200 anos e, segundo especialistas, trata-se de uma formação geológica que aparece em praias mais rasas: formou-se pelas correntes marítimas norte e sul que, por baterem ao mesmo tempo na Baía de Bourgneuf, levou ao desprendimento de sedimentos da costa, que se depositaram na Baía ao longo de milhares de anos, dando origem à elevação sobre a água. 

Desde o século XVIII que existem registos da passagem em mapas, embora a estrada só tenha começado a ser utilizada com frequência a partir de 1840. Segundo a crença popular, foi nesta época que o caminho recebeu o nome Gois — em francês, pode significar ter os sapatos molhados enquanto se atravessa a rua.

Esta peculiaridade da estrada submersa obriga praticamente todos os visitantes a pernoitarem na ilha, o que acabou por impulsionar a indústria do turismo, quer a nível de unidades hoteleiras, quer a nível de restauração. Quanto à gastronomia, destaca-se sobretudo a ostra, que é cultivada precisamente nos mares da Passagem do Gois.

O novo três estrelas Michelin de França também fica na ilha de Noirmoutier. O La Marine, de Alexandre e Céline Couillon, fica “numa casa pitoresca, com paredes brancas e persianas de madeira azuis, com uma sobriedade e discrição notáveis, que escondem o ponto de partida de novos horizontes”, que o chef se deixa guiar pelo instinto e cozinha a sua vida e a sua terra, transportado por uma energia e uma sensibilidade em alerta constante, lê-se no site do projeto.

O espaço disponibiliza dois menus de degustação, que altera a cada serviço. O primeiro, composto por nove momentos, custa 190€. Já o segundo, com seis, fica por 130€. Os valores sobem, respetivamente, para 250€ e 190€ quando há harmonização vínica. Independentemente das surpresas, a qualidade do peixe, do marisco e dos vegetais está garantida.

Atualmente, vivem cerca de 10 mil pessoas na ilha de Noirmoutier. Por ser um lugar único no mundo, já foi feito um pedido de reconhecimento como património da UNESCO.

Como lá chegar

O aeroporto mais perto da ilha é o de Nantes. Para lá chegar, encontra bilhetes de ida e volta, com partida de Lisboa, desde 84€. Depois, a melhor opção é mesmo alugar um carro, até porque a viagem ainda demora cerca de uma hora. Mas tenha atenção: não atravessa a estrada se vir que há perigo de ficar submersa.

De seguida, carregue na galeria para ver esta incrível estrada que desaparece com as marés.

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