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Viagens

O primeiro português a completar o Pacific Crest Trail: foi do México ao Canadá a pé

A monumental caminhada de mais de 4.200 quilómetros é icónica e histórica. Foi retratada, entre outros, no filme "Wild".
Fábio Inácio na sua aventura.

São mais de quatro mil quilómetros a pé: 4.270, para sermos exatos. É o rei dos reis das caminhadas, dos desafios pessoais e naturais, do levar o corpo e o espírito ao limite. O Pacific Crest Trail é um percurso pedestre que atravessa literalmente os Estados Unidos da América: liga a fronteira a sul, com o México, até à fronteira a norte, com o Canadá. Como se isto não bastasse, passa por percursos e naturezas inóspitas, da Sierra Nevada ao Cascade Range, por lagos, desertos, por lugares sem humanos e quase sem comida.

Fábio Inácio é português, tem 35 anos e é um fotógrafo e viajante de Torres Vedras. É também o primeiro português, pelo menos de que há registo (como o próprio frisa), a completar o Pacific Crest Trail. O trilho que une fronteiras é, em grande parte do caminho, feito longe da civilização, no meio de florestas, montanhas, lagos e desertos. Fábio fez tudo isto a pé no ano passado, em 2019: levou 108 dias a completar todo o caminho, o que dá uma média de 39,5 quilómetros por dia.

Pelo meio esteve frente a frente com cinco ursos e um puma, sempre sozinho. Também passou por tempestades, por muito frio, muito calor, fome e desidratação, entre outras coisas. Mas diz que valeu tudo a pena.

À NiT, o português explica que o bichinho pelas viagens começou aos 14 anos, quando se iniciou a praticar bodyboard. Via muitos filmes da Austrália, Indonésia e Havai e sentia-se à vontade para viajar. Mas havia um impedimento: “sempre aprendi que viajar era para pessoas com muito dinheiro, que há coisas bem mais importantes”, explica.

Até que, no verão de 2010, um grande amigo, Francisco, convidou-o para ir com ele e outros três bodyboarders até à Indonésia. “Queria que eu fosse fotografar, coisa que começara a fazer três ou quatro anos antes de forma muito amadora. Aceitei e feliz da vida lá fui eu”, conta-nos. Estiveram um mês na ilha de Sumatra e as ondas não estavam muito boas, pelo que passaram a maior parte do tempo a explorar e a conviver com os locais, o que deixou Fábio completamente apaixonado. Deu-se o clique: “ainda lá, disse para mim mesmo que queria viver e fotografar o mundo”.

Foi aí que tudo começou, relata-nos: “voltei, fui estudar fotografia, fiz dois interrails pela Europa sozinho, para ver como me sentia a viajar sozinho. Quando voltei do segundo no fim de 2012 decidi que era altura de ir dar a volta ao mundo”. Faltava só o dinheiro. “Continuei a trabalhar em restauração, coisa que fazia desde 2010 e no ano de 2013 não saí uma única vez para festas e jantares, foi casa-trabalho e trabalho-casa com uma folga semanal e muitas horas extra. Até que no fim de 2013 despedi-me e a 14 de fevereiro de 2014 voei para a Turquia”, conta.

Fábio na sua aventura.

Esta viagem era para ter 18 meses e acabou por durar 20. Ao segundo mês, os planos que levava desapareceram e preferiu viajar de forma livre. Quando gostava do local onde estava ficava vários dias, quando não gostava ia embora no próprio dia.

Ainda durante essa viagem, Fábio conseguiu o emprego perfeito para o que estava a viver: foi contratado para ser líder de viagens da agência The Wanderlust. Começou como líder na Índia e, hoje em dia, faz também tours no Irão, Vietname e Nepal. “Cheguei em outubro de 2015, em fevereiro de 2016 fiz a primeira viagem como líder, onde já levei dezenas de pessoas, e no verão de 2016 publiquei o meu primeiro livro com o nome ‘Walking Around’ sobre essa viagem”, conta.

Eis que surge o Pacific Crest Trail na sua vida. Muitos conhecem-no de contos, notícias, ou histórias reais entretanto retratadas em filme — como “Wild“, em português “Livre”, em que Reese Witherspoon protagoniza a história verídica de Cheryl Strayed.

Fábio conheceu o trilho através de uma notícia. “Eu sempre fiz muito desporto, bodyboard, futebol, correr, caminhadas pela minha aldeia. Moro numa das zonas mais bonitas do mundo, Maceira, em Torres Vedras, a dois quilómetros da praia e a poucos metros dos montes, há muita natureza e paz por aqui”, conta.

“Foi ainda antes de estar no mundo das viagens que o meu primo Daniel me mostrou um artigo sobre o Pacific Crest Trail e eu fiquei fascinado com aquilo. Depois passou, até que quando planeei a grande viagem de 2014 e 2015 pensei em ir lá — não fui. Em 2017 e 2018 tentei patrocínios, não consegui e disse a mim mesmo que no ano de 2019 não ia tentar nenhum patrocínio e que ia esquecer essa caminhada para já. Até que chegou o início de 2019 e, ao fazer o balanço da minha vida, de tudo o que queria fazer que dependesse só de mim, o Pacific Crest Trail surgiu como primeira opção. O ano de 2018 correu muito bem, muito trabalho e assim investi em mim e mais uma vez, lá fui eu.”

O fotógrafo diz que nunca leu livros sobre a caminhada, apesar de ter comprado um em 2016, mas não lhe chegou a pegar. “E vi o filme ‘Wild’, mas, por acaso, já queria fazer o caminho antes disso, não foi relevante na minha decisão.”

Com a decisão tomada, começaram os preparativos: “a minha preparação física não foi nada de extraordinária: continuei a fazer as minhas corridas matinais, nas duas últimas semanas antes de ir fiz alguns dias de 20 e poucos quilómetros de caminhada”, conta-nos.

E partiu, com uma aventura imponente e monumental pela frente. “O Pacific Crest Trail liga a fronteira do México à do Canadá ao longo de mais de 4200 quilómetros. Ora, para quem não consegue ver bem a distância, é a mesma coisa do que caminhar desde Lisboa até Moscovo. Quase todo o caminho é feito longe da civilização, com tudo o que é preciso para viver às costas: tenda, saco de cama, capa da chuva, roupa e comida para cada quatro a cinco dias, depende do tempo que cada um demore a chegar à próxima vila”, frisa.

Durante a viagem.

No caminho, “é permitido acampar em qualquer lado desde que não se estrague nada: uma das máximas de quem faz este caminho é ‘leave no trace’, deixar tudo como estava antes. Eu demorei 108 dias a fazer o percurso, o que deu uma média de 39,5 quilómetros por dia; acampei em 96 noites, 44 sozinho e 52 acompanhado e as outras 11 noites fiquei em vilas, para aproveitar para tomar banho e tomar uma refeição melhor”.

Só que Fábio fez isto com um twist: “grande parte das pessoas faz o caminho do México para o Canadá, só 10 por cento é que faz o oposto, eu fui um deles. Além de estar no meio da natureza com toda aquela vida eu queria desafiar o meu corpo e mente, por isso tentei passar o máximo de tempo possível sozinho. A certa altura o corpo fica uma máquina e comecei a andar mais de 50 quilómetros por dia várias vezes, depois cheguei aos 60, até aos 70 e um dos dias fiz 81, foi o meu máximo. Quando fiz os 81 quilómetros acabei quase à 1 da manhã, deitei-me debaixo de uma árvore sem montar a tenda, só dentro do saco de cama, coisa que fiz várias vezes no sul da Califórnia, e voltei a andar às 5 da manhã, sem nenhuma dor ou cansaço. Senti que o meu corpo ficou muito forte”.

Apesar disso, houve efeitos no seu corpo. “Comecei o caminho com 74 quilos e cheguei a ter 61. Sangue pisado na cintura e nas costas porque o cinto da mala não apertava. Num dos dias completamente desidratado urinei 11 vezes sangue, esta foi talvez a vez que tive realmente medo que alguma coisa acontecesse com o meu corpo, felizmente mais tarde voltei a hidratar-me bem. Tive encontros imediatos com vida selvagem, cinco ursos e um puma, de todas as vezes estava sozinho. Com os ursos foi lindo, senti uma adrenalina gigante. Com o puma foi mais agressivo psicologicamente, ele estava sentado no trilho às dez e tal da noite, eu sozinho vejo ele a olhar para mim a dez metros ou pouco mais. Acho que tive medo, mas falei com ele de forma a tentar fazê-lo ir embora. Ele foi, mas quando deixei de o ver fiquei aterrorizado”, conta o português à NiT.

Deste episódio recorda-se bem, porque teve um impacto psicológico forte. “Eles [os pumas] caçam de noite e sempre pelas costas, pelo que quando encontrei um lugar montei logo a tenda — na altura andava sempre a dormir sem tenda. Mesmo assim, por uma semana não consegui andar de noite, sempre que o sol começava a descer as minhas pernas tremiam, e só saía da tenda com luz lá fora. Felizmente consegui ultrapassar isso e uma semana depois voltei a andar de noite, mas aí ia sempre a cantar aos gritos, pelo que sei devemos fazer barulho sempre que andamos sozinhos para os afastar. Eu queria muito ver ursos e pumas, só não queria que fosse de noite. Apesar de ter tido muito medo deste último fiquei muito feliz de ter tido a oportunidade de estar frente a frente com um animal daqueles, é lindo estar no habitat deles e sentir que eles é que mandam lá e não nós, não gosto de circos com animais, assim como de zoos nem de explorações turísticas onde os têm presos. Ali no meio da natureza é onde eles devem estar”, explica-nos.

A viagem começou a 4 de julho, mas Fábio só chegou ao monumento na fronteira com o Canadá no dia 5, que é a data oficial do seu quilómetro zero. De lá desceu por Washington, Oregon e Califórnia. Chegou à fronteira com o México a 20 de outubro de 2019.

“Como disse, o caminho é quase todo feito longe da civilização, mas às vezes passa por estradas e aí é possível apanhar boleia para a vila, na vila compramos comida até à próxima paragem, podemos ficar a dormir, tomar um banho, ir à Internet. Depois de lá voltamos a apanhar boleia para o mesmo ponto e continuamos a caminhada. Em média, por dia, andava 13 ou 14 horas. Parava várias vezes para nadar em lagos, quase sempre sem ninguém, fazia várias paragens para descansar, onde tirava sempre os ténis, e deitava-me a contemplar as paisagens. Por falar em ténis, utilizei quatro pares e devia ter utilizado cinco, só tive dores no corpo duas vezes e foram as vezes que os ténis já estavam gastos. No percurso entre vilas, no último dia passava quase sempre fome, depois de algumas semanas o corpo só pedia para comer, nunca estava completamente saciado. Assim, tinha de ter cuidado a gerir o que tinha e falhei quase sempre. Tive no meio de uma tempestade em Oregon e em alguns dias aconteceu não conseguir parar durante o dia para comer porque não tinha força nas mãos para abrir a mala e porque não queria entrar em hipotermia”, continua.

Um dos encontros imediatos.

E acrescenta: “eu pensava que ia demorar pelo menos mais umas três ou quatro semanas a fazer, já que a média é de cinco meses, mas depois de fazer o caminho sei bem que conseguia mais rápido, o meu corpo ficou muito forte e a cabeça também estava feliz ali. Só não o fiz porque queria também aproveitar todas aquelas paisagens, nadar nos lagos — quando cheguei às serras no centro da Califórnia abrandei muito, porque a cada curva a paisagem era mais bonita, quase que posso dizer que era um exagero de tão bom que era. Agora, sim, depois de ter feito e aproveitado à minha maneira, gostava de voltar e fazer em menos de três meses”, diz ainda à NiT.

Para quem pensa em fazer o mesmo mas hesita, o conselho de Fábio Inácio é claro. “Eu aconselho esta viagem a qualquer pessoa, e sei que qualquer pessoa consegue fazer, desde que esteja disposta a sofrer um bocado. 10 a 15 por cento das pessoas que começam acabam o caminho e desses só realmente 20 por cento, para não dizer menos, é que realmente acabam. Muita gente salta secções, apanha boleias para locais diferentes, se tem neve ou está mau tempo avançam. Ou seja, esta viagem não são as típicas férias, é uma viagem linda, com muita coisa boa a acontecer mas também tem algumas partes mais agressivas, algumas dores, lesões, fome, sede… Se forem abertos para tudo, conseguem fazer, mais rápido ou mais devagar, não é esse o ponto importante”.

E deixa algumas dicas. “Para me manter bem física e mentalmente praticamente todos os dias meditava e alongava junto ao local onde dormia. Tive poucos dias maus, aconteceu só uma vez estar mesmo muito mal em que a minha cabeça começou a questionar tudo, parecia que estava de volta à idade dos porquês, sobre a minha vida, sobre o amor, sobre o universo e fiquei duas noites sem dormir e à terceira comecei a chorar compulsivamente. Depois passou e continuei mais tranquilo.”

O português lançou no final de novembro um livro sobre esta aventura, uma edição de autor, à venda exclusivamente no seu site Walking Around e pelo Instagram @walkingaround.pt. Quem quiser, pode comprar este livro em separado ou juntamente com a sua primeira obra, sobre a tal viagem de 20 meses que fez pelo mundo. Os livros têm o mesmo design, o que faz deles uma coleção. Ambos têm a história da viagem contada primeiro em texto e depois em imagens a preto e branco porque, explica, “é assim a maneira que sinto e vejo a fotografia”.

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