Bastaram 20 dias de férias na Tailândia para mudar por completo a vida de Raquel Jerónimo e Luís Lucas. Em 2024, o casal português passou quase um mês a conhecer o país de uma ponta a outra e quando voltou a Portugal, já não conseguia pensar noutra coisa.
Depois de conhecerem o estilo de vida naquele país asiático, a psicóloga e o software developer, ambos com 34 anos, tiveram dificuldade em adaptar-se ao ritmo frenético de Portugal. “Na Tailândia, eles têm tempo para tudo e vivem muito devagar. Era um estilo de vida completamente diferente”, recorda.
Na altura, já eram pais de Francisco, que completou quatro anos em março, e logo perceberam que a rotina do outro lado do mundo parecia mais propícia para o criarem. Assim que regressaram das férias de sonho, começaram a criar planos para deixarem Portugal. No verão passado, a 15 de agosto, partiram sem olhar para trás.
Hoje, a família está instalada em Krabi, no sul da Tailândia, Embora ainda tenha uma forte ligação a Portugal — Raquel e Luís continuam a trabalhar online com clientes portugueses —, já está completamente integrada no estilo de vida tailandês.
Desde o início deste ano, a psicóloga, natural do Cadaval, tem partilhado com mais frequência o dia a dia da família no Instagram. Desde a ida ao cabeleireiro, até a adaptação de Francisco na escola, passando pelos passeios que fazem nos arredores e pelos principais choques culturais que sentiram.
Leia a entrevista da NiT com a psicóloga portuguesa que está a viver atualmente na Tailândia.
Como é que surgiu a vontade de se mudar para a Tailândia?
Foi uma coisa completamente aleatória. Nós viemos de férias durante 20 dias em 2024 e sentimo-nos muito diferentes por aqui, ao ponto de que, quando regressei a Portugal, havia muitas coisas que não me estavam a fazer sentido. Tentei alterar alguns hábitos, como reduzir algum horário de trabalho e escolher melhor onde e com quem é que ia perder o meu tempo. Na Tailândia, admirei muito a forma como eles têm tempo para tudo e até nas ruas eles paravam-nos e perguntavam se precisávamos de alguma coisa. Era uma forma completamente diferente de viver e quando regressei a Portugal, comecei a pensar que queria viver desta forma. No ano passado, começámos a tratar dos vistos e decidimos vir definitivamente.
Já estão a viver na Tailândia há seis meses. Como é que foram os primeiros dias e o que é que sentiram de mais diferente?
A questão da comida, das compras no supermercado e os horários das refeições. Eles comem a toda a hora e não se sentam ao almoço para comer uma refeição, por exemplo. Vão comendo ao longo do dia e tivemos alguma dificuldade em ajustar-nos a essa maneira. Já nos supermercados os rótulos estão sempre em tailandês e estamos sempre a traduzi-los.
Como é que têm lidado com esta diferença na alimentação?
Encontramos formas de cozinhar sempre em casa porque comer na rua é muito barato, mas também é tudo à base de fritos e diferente. Por exemplo, fazem muito arroz, noodles e frango fritos. Não é muito saudável. Uma coisa é virmos de férias e aproveitarmos, mas depois para fazer vida não é muito viável.
O que é costuma cozinhar em casa?
Tento fazer coisas um bocadinho mais saudáveis, como arroz com bifes, uma massa com frango, ou um peixe cozido. Muitas vezes, acabamos por comer na rua, mas temos sempre esta preocupação com a saúde. Portanto, em casa, tento fazer coisas mais saudáveis para equilibrar essa parte.
Para o Francisco, que tem apenas quatro anos, como é que foi esta adaptação?
Acho que foi muito fácil, ou pelo menos muito mais do que eu esperava.
Que receios é que tinha como mãe?
Tinha muito medo por causa da língua, porque ele está numa escola internacional onde falam inglês, mas quando chegámos, ele só falava português. Era mesmo o meu maior medo. Mas ele adaptou-se muito bem e já fez amigos. Está muito integrado e fala inglês, até em casa connosco.
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Sente que o estilo de vida na Tailândia é muito diferente para os miúdos, quando comparado a Portugal?
Aqui, sinto que é tudo mais propício às crianças. Foi por isso que também escolhemos o país. Os miúdos entram na escola às 8h30 e saem muito cedo, por volta das 15 horas. Há muito tempo para brincarem. É habitual encontrarem-se todos os dias no parque e o Francisco adora ir ter com os amigos. Ele às vezes diz que já não quer voltar para Portugal.
Nesses últimos meses, qual foi o maior choque cultural que teve?
A mim faz muita confusão a solidariedade e o afeto das pessoas, no bom sentido. Para mim, é mesmo um choque muito grande. É habitual estarmos na rua e encontrarmos pessoas que não nos conhecem, mas que nos param para oferecer comida, boleia ou simplesmente elogiarem o cabelo e a roupa. Com o Francisco, acontece muito. As pessoas param-nos e querem pegar-lhe ao colo, demonstram mesmo muito afeto. Isto em Portugal é impensável. Estamos sempre na nossa vida de um lado para o outro, quase nem paramos para dizer “bom dia” e aqui faz-me sempre muita confusão o tempo que as pessoas têm.
Tem alguma história marcante com algum desconhecido?
Já nos aconteceu, por exemplo, estarmos meio perdidos na rua e perguntarmos a uma pessoa na rua qual era o caminho certo. Esta pessoa deixou tudo o que estava a fazer para ir acompanhar-nos. Esta solidariedade e este carinho para mim são um choque às vezes.
Está a viver em Krabi, uma região conhecida pelas praias e penhascos. Com que frequência é que passeiam pela região?
Passeamos muito, nunca estamos em casa. Vamos para a praia, que há aqui várias opções, ou então conhecer algo novo. É muito comum ao fim de semana, por exemplo, irmos andar de barco ou pegarmos no carro e irmos conhecer alguma coisa. Temos aproveitado ao máximo porque sentimos que há muita coisa para ver e que é mesmo um desperdício estar em casa aos sábados e domingos.
Quais foram as melhores experiências que já tiveram?
Como é que eu hei de explicar? Nenhum dia é banal, nenhum dia é só mais um dia. Até numa simples viagem de carro, por exemplo, para levar o Francisco até a escola, passamos por sítios muito bonitos. Portanto, quase todos os dias sinto isso e penso: ‘como é que é possível estar aqui num sítio tão bonito?’. Às vezes, ainda nem acredito. Já fizemos muitos passeios e conhecemos muitas ilhas, mas sempre que pensamos que não há nada para nos surpreender, estamos errados. Cada sítio novo que vamos, é mais uma vez aquela sensação de ‘isto é incrível, nem acredito que estou aqui.’ Há sempre esta sensação e acho que é isso mais que nos marca. É sempre uma surpresa todos os dias.
Há alguma coisa em Portugal de que sente muita falta?
Diria só mesmo a minha família, que iria chegar na passada semana, mas que teve o voo cancelado.
Por causa dos conflitos entre os Estados Unidos e Israel contra o irão?
Exatamente.
Além desse problema com o espaço aérea, tem sentido alguma diferença no país desde o início da guerra?
Não, está tudo normal por enquanto. Há uns dias, vimos que as bombas de gasolina estavam com muitas filas. H muitas que já fecharam, porque já não têm gasolina nem gasóleo. Mas foi a única coisa que notámos. De resto, continua tudo igual.
Têm planos para virem para Portugal?
Tínhamos planeado irmos ao final do ano. Estava a contar que a minha família viesse agora e passados uns seis meses, íamos nós. Mas com isso tudo que está a acontecer, não sabemos como vai ser. Temos de aguardar para ver, mas estamos sempre em contacto com a família em Portugal e estamos tranquilos.
Carregue na galeria para ver algumas fotografias da nova vida de Raquel na Tailândia.

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