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Sem brinquedos, gadgets e perus: britânicos preparam-se para um Natal desastroso

Entre a falta de trabalhadores provocada pelo Brexit e a escassez global de materiais, toda a gente teme o pior.
Ninguém quer ver este cenário no Natal

“Numa deliciosa ironia, verifica-se uma escassez de tudo, exceto de escassezes”, escreve Ed Cummings, cronista do “The Guardian”, numa crónica que concentra os anseios os medos dos britânicos, prestes a verem o Natal cancelado pela segunda vez consecutiva. O surgimento de uma perigosa mutação estragou os planos da nação no final de 2020. Agora, as consequências políticas do Brexit ameaçam pintar uma época festiva tão ou mais deprimente do que a anterior.

Dizer que os britânicos vivem num mundo mais parecido ao de Mad Max pode parecer um exagero, mas a verdade é que os últimos dias têm ajudado a pintar um retrato surreal. No início de outubro, a passagem de um camião de transporte pelas autoestradas britânicas não passou despercebida a mais de 20 condutores desesperados por combustível.

No meio de uma crise e com os tanques dos postos vazios, o instinto de sobrevivência veio ao de cima. Ávidos por atestar o depósito e sem vontade de passarem horas numa fila, perseguiram o camião durante o percurso de mais de 100 quilómetros — apenas para constatarem, já à chegada, que transportava cimento e não combustível. 

Ao contrário do que seria de esperar, não existe qualquer escassez de gasolina e de gasóleo, mas sim de condutores que possam transportar os combustíveis até às bombas de gasolina. Entre condutores que se reformam e a demorada reintrodução de novos profissionais — cujo processo de formação e licenciamento foi atrasado pela pandemia —, simplesmente não há mão de obra necessária para alimentar as necessidades do país.

O problema foi, claro exacerbado pela saída do Reino Unido da União Europeia — consequência da votação do referendo de 2016 — , que terá provocado o êxodo de muitos condutores de mercadorias, estrangeiros a viverem no país e que assim foram forçados a mudar-se.

A Road Haulage Association — uma organização privada que promove os interesses da indústria de transportes — revela que há falta de fperu100 mil condutores qualificados no Reino Unido. Perante este caos, o governo de Boris Johnson foi obrigado a lançar nas ruas um cenário de aparente emergência no qual os militares saem à rua para serem eles próprios a operar o transporte de combustíveis.

A escassez atirou os britânicos para um verdadeiro pânico. Receosos por não terem combustível nos seus automóveis, aglomeraram-se em filas de espera à porta dos postos, onde esperavam horas a fio pela sua vez, muitas vezes para encontrarem um depósito vazio. A frustração levou a que fossem relatados inúmeros episódios de violência um pouco por todo o país.

Os britânicos esperaram horas para poderem atestar

A falta de trabalhadores nas mais diversas indústrias, potenciada pela pandemia, explica-se também com a saída de mais de 200 mil cidadãos da União Europeia só no último ano. “A perda ajuda a explicar a falta de trabalhadores que afeta o Reino Unido, bem como as prateleiras vazias nas lojas, o aumento dos preços e uma ameaça pendente sob a recuperação da recessão provocada pela pandemia”, nota a “Bloomberg”

Com a crise dos combustíveis a ser a face mais visível dos recentes tumultos britânicos, a verdade é que no dia a dia, pequenas mudanças começam a ser visíveis. Muito antes das filas rodearem os postos.

Em abril, a McDonald’s anunciava a retirada dos batidos dos seus menus, precisamente por não haver quem transportasse as matérias-primas. Em agosto foi a vez da cadeia Nando’s encerrar 45 dos seus restaurantes, igualmente pelo mesmo motivo, mas também devido a uma falta de mão de obra nos matadouros e quintas de produção de frango. Neste cenário, nem o Natal está a salvo.

Mesa que é mesa de Natal tem que ter, no Reino Unido, um peru bem confecionado. Infelizmente, eles poderão não chegar para todos. A produção nacional de carne de aves baixou, segundo o British Poultry Council, cerca de 10 por cento e a produção de perus em 20 por cento.

“Quando não há pessoas, tens um problema — e isto é algo que se observa ao longo de toda a cadeia de produção. A crise laboral é um problema criado pelo Brexit, algo que tem sido amplamente reportado em todo o setor de comidas e bebidas”, explica em comunicado Richard Griffiths, diretor do British Poultry Council.

O fenómeno espalhou-se um pouco por todas as lojas e supermercados. Aqui e ali, os vazios nas estantes foram-se tornando cada vez mais comuns. O que era atribuído a um pequeno percalço, começou a ameaçar tornar-se numa ameaça permanente.

“Antigamente, os consumidores britânicos tinham a expectativa de poder encontrar praticamente todos os produtos que pretendessem no supermercado ou nos restaurantes. Isso acabou — e creio que nunca mais voltaremos a esse cenário”, avisa o dirigente da Food and Drink Federation, em declarações à “BBC”. Segundo a organização, a indústria de comidas e bebidas precisaria de mais 250 mil trabalhadores para funcionar em pleno. 

A ação tardia do governo tem sido criticada, mas Boris Johnson anunciou no final de setembro que o país iria emitir mais de 10 mil vistos temporários para condutores de transportes e trabalhadores da indústria aviária. Uma decisão que é vista como um retrocesso na implementação do isolacionista plano de saída da UE. 

Os receios de um Natal passado entre filas e acessos de raiva, em busca dos poucos brinquedos e perus que restam nas prateleiras, começa a preocupar os britânicos. As declarações do primeiro-ministro não são propriamente reconfortantes. “Faço-vos uma previsão bastante confiante”, gracejou. “Este Natal vai ser consideravelmente melhor do que o anterior.”

Vem aí um Natal sem peru?

“O Natal vai acontecer. Vamos poder ver os nossos amigos e familiares. Haverá comida, haverá presentes”, reassegurou Grant Shapps, o ministro dos transportes. A verdade é que as sucessivas garantias do executivo são um relembrar constante de que algo no equilíbrio normal da sociedade britânica foi desalinhado. 

Opinião contrária tem Andrew Woolfenden, o diretor de distribuição da Tesco, a maior cadeia de supermercados a operar no Reino Unido. “A nossa preocupação é que no Natal, as imagens de prateleiras vazias sejam 10 vezes pior [do que as atuais], e depois teremos que lidar com o pânico da corrida às compras.”

Se um Natal sem peru é um grande inconveniente, um Natal sem brinquedos seria desastroso. Mas é para esse cenário que os grandes retalhistas de brinquedos do Reino Unido têm alertado. Espera-se que seja muito difícil compensar a falta de stock prevista de produtos com muita procura como as Barbies e os personagens da Patrulha Pata.

“Nunca haverá lojas de brinquedos sem brinquedos. O que poderá haver é lojas de brinquedos sem os brinquedos que normalmente esperariam ter”, explica Cary Grant, responsável da “The Entertainer”. Além da falta de condutores de transportes, verifica-se também uma falta de mão de obra nos portos, que tem atrasado todo o processo de abastecimento de stocks.

A verdade é que o Reino Unido é apenas o pior exemplo de uma tempestade perfeita que, além do Brexit, envolve um mundo desequilibrado a recuperar de uma pandemia global, a que se acrescenta um atraso generalizado nos portos de mercadorias, bem como falta de materiais essenciais como chips e semicondutores — fatores que poderão inclusivamente afetar o Natal em Portugal.

Esta quinta-feira, 14 de outubro, o diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição falava num “cocktail explosivo” de falta de matéria-prima e crise nos transportes” que poderia implicar uma escassez de artigos eletrónicos e brinquedos nas lojas.

Com os portos a abarrotar de contentores — sobretudo o de Felixstowe, por onde passa mais de um terço das importações do país — e sem capacidade para escoar os produtos, muitos dos bens que tinham o Reino Unido como destino estão a rumar a outros portos europeus. E quem olha para Boris Johnson à espera de uma solução para o Natal, dificilmente a encontra.

O primeiro-ministro olha para toda a crise como apenas um sintoma “da força da recuperação económica”. Quanto à falta de trabalhadores, “a indústria terá que se adaptar e encontrar os trabalhadores de que necessita”. O seu trabalho, explica, não é o de “resolver todos os problemas dos negócios”.

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