Viagens

Sexo, traições e drogas. O que realmente acontece nos cruzeiros (e ninguém conta)

A NiT esteve à conversa com tripulantes portugueses que contaram as histórias mais escandalosas dos navios onde trabalham.
Parece uma série de comédia.

É uma daquelas viagens que muitos gostariam de fazer — pelo menos uma vez. Os cruzeiros são uma oportunidade para conhecer alguns dos destinos mais bonitos do mundo de uma assentada, a bordo de um navio onde a diversão nunca se esgota.

Clubes infantis, parques aquáticos, jacuzzis, espetáculos, vários restaurantes e bares são apenas algumas das valências com as quais pode contar. As embarcações parecem mundos completamente à parte, onde não falta luxo nem ostentação. 

Muitos sonham com viagens perfeitas, mas o que poucos sabem — principalmente quem nunca se aventurou num cruzeiro — é que nem tudo é tão civilizado como parece. A bordo das embarcações gigantes (com capacidade para milhares de pessoas), acontecem todo o tipo de peripécias, incluindo algumas das histórias mais insólitas de sempre. E quem mais sofre são os tripulantes.

A NiT esteve à conversa com dois colaboradores portugueses para descobrir o que acontece, realmente, em alto mar. De solicitações sexuais a vómito por todo o lado, o que não faltam são situações caricatas. Se umas podiam fazer parte uma série de comédia, outras podiam ser cenas de um drama (ou mesmo tragédia). 

Nuno [nome fictício] tem 32 anos e trabalha como content manager na Carnival Cruise Line há quase seis. É responsável por “manter o standard” da marca a bordo e admite que já assistiu “a tudo e mais alguma coisa”. 

O dia em que um espetáculo correu mal

Nunca se vai esquecer, por exemplo, do dia em que assistiu a um espetáculo que terminou da maneira mais inusitada de sempre. Estava tudo a correr com normalidade, até aos últimos minutos em palco. “No final, durante um momento de silêncio (cerca de cinco segundos) um dos dançarinos teve um ataque de flatulência. O ruído foi perfeitamente audível e veio do palco, começa por contar à NiT.

A “rir às gargalhadas” e “com as lágrimas a cair”, os colegas que estavam em cena também não conseguiram disfarçar e nem conseguiam cantar em condições. Aliás, ninguém se aguentava — exceto um grupo de surdos que estava na primeira fila da plateia. “Tinham um tradutor de língua gestual e a tradutora no final perguntou se aquilo tinha feito parte do espetáculo, porque tinha traduzido o som ao grupo”, recorda.

Outra das histórias mais marcantes aconteceu durante as chamadas auditorias. Andava num dos corredores quando encontrou um passageiro americano, com cerca de 60 anos. “Percebi que tinha alguma coisa a cair no meio das calças e, quando me aproximo, percebo que tinha feito uma descarga intestinal, mas continuava a andar como se nada fosse. Ainda perguntei se precisava de ajuda, mas disse-me que não e continuou com a sua vida”, conta.

Agressões, solicitações sexuais e vómitos

Já presenciou vários momentos caricatos, mas admite que o que mais acontece é “pancadaria” a bordo, principalmente quando os passageiros já estão “com um copo a mais”. Por volta das 17 horas, o navio transforma-se “numa verdadeira batalha naval” nos dias em quando não fazem paragens em cidades. 

Entre discussões agressivas e solicitações sexuais, não sabe o que é pior. Seja qual for os casos, são ambos recorrentes nas viagens de cruzeiro. O assédio sexual aos tripulantes é uma realidade. “Já tive um casal com cerca de 50 anos que me perguntou se queria ir para a cabine deles para ter sexo com o marido enquanto a mulher observava”, confessa.

Neste tipo de situações, a única coisa a fazer é virar costas ou responder da forma mais educada possível: “Não estou autorizado a relacionar-me com os passageiros”, costuma dizer.

O sexo em público também é algo recorrente. No jacuzzi, então, é praticamente todos os dias. “Se está a haver uma festa ao pôr do sol, há sempre alguém ali a ter sexo. Já nem é estranho”, admite Nuno.

Viajar de cruzeiro parece ser realmente uma experiência de charme e elegância, mas há muito pouco glamour nos dias em que o mar está agressivo e há vómito por todo o lado. “Nunca vou esquecer um adolescente que encontrei com a mão no peito e sem conseguir respirar. Pensei que estava a ter um ataque cardíaco, mas vomita-me para cima”, recorda.

O dia em que uma das bailarinas escondeu um pássaro no navio

Nem todas as histórias estão relacionadas com os passageiros. Por vezes, até os próprios tripulantes ou dançarinos são protagonistas destes momentos. Nuno recorda-se de uma colega em particular que encontrou um pássaro com uma asa partida no navio, que terá batido contra uma janela. Às escondidas, a bailarina decidiu levá-lo para a cabine para cuidar dele durante uns dois dias.

Um dia, no meio de um espetáculo, saiu do palco de propósito para o ir alimentar. Foi apanhada e arriscou um processo disciplinar. “É crime levar um animal de um país para o outro, por isso, decidiu convocar uma espécie de homenagem. Lembro-me que fomos ter com ela ao deck, ao pôr do sol, para nos despedirmos do pássaro, a pensar que já estava em condições de voar. Assim que o larga, cai a pique uns nove decks até ao mar”, recorda. “Tanto cuidado para nada”.

Os piores passageiros

À NiT, confessa que os piores passageiros são mesmo os americanos: “Falam alto, são pouco educados, agressivos e fazem perguntas completamente sem sentido. Exatamente como nos reality shows.” A opinião de Nuno é partilhada por outro português que também vive embarcado.

Tiago [nome fictício] trabalha há cerca de um ano numa companhia americana de seis estrelas conhecida por receber “as pessoas mais ricas do mundo” (como a família Bacardi, astronautas, políticos e atores de Hollywood). “Os americanos são aqueles clientes que dá para enganar a torto e direito. Lembro-me de uma vez em que estávamos no Alasca e perguntaram que montanha era aquela lá ao fundo. Dissemos que era o Monte Kilimanjaro e acreditaram sem questionar”, recorda.

Traições e drogas

Além destas situações mais divertidas, adianta que há dramas com os passageiros “praticamente todos os dias” — e (mesmo) muitas traições e zangas entre casais. Já encontrou um dos passageiros a dormir na piscina porque tinha sido expulso do quarto pela mulher. Outro, decidiu trair a mulher (que também estava a bordo) com outra cliente. “É sempre um caos”, admite.

As solicitações sexuais são uma constante em todos os cruzeiros, independentemente da companhia que os opera. Poucos tripulantes que conseguem escapar. “Há uma mulher mais velha, viúva, que costuma viajar sozinha e está sempre a dizer que quer fazer sexo com pessoas mais novas. Olha para nós de cima a baixo, sem qualquer vergonha”, conta.

Apesar de não ser tão comum, por vezes há envolvimento entre os trabalhadores e os clientes. Nesses casos, é “despedimento certo”. 

Também já encontraram um dos passageiros a vender droga (erva, marijuana e cocaína) pelo cruzeiro. “Não sabíamos como a trazia, até porque há bastante segurança, mas a certa altura já toda a gente sabia que ele vendia.”

Pode ser um luxo fazer um cruzeiro, mas prepare-se para viver as situações mais caricatas de sempre. “Acontece de tudo um pouco, parece mesmo que estamos numa série de comédia”, assegura Tiago.

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