Viagens

Sobreviveu ao cancro e mesmo com uma prótese vai voar até ao espaço

Aos 29 anos, Hayley Arceneaux, vai tornar-se na mais jovem turista espacial — a bordo de uma tripulação só com civis.
Vai ser uma viagem inédita

Tinha apenas 10 anos quando um pequeno alto no joelho despertou a atenção dos médicos. Quando o diagnóstico chegou, o medo instalou-se. “Lembro-me que fiquei assustada, porque toda a gente que conhecia que tinha tido cancro, tinha morrido”, confessa ao “The New York Times”.

Pouco tempo depois, foi admitida no hospital pediátrico de St. Jude, uma referência no tratamento de cancro pediátrico. Felizmente, o caso não era muito grave e estava circunscrito à perna. Submeteu-se a árduas sessões de quimioterapia e uma operação obrigou a a trocar os seus ossos por próteses. O cancro estava vencido.

Nos anos seguintes dedicou-se a apoiar a instituição que a salvou. E já nessa altura confessava que gostava de estudar e regressar ao hospital “para ser enfermeira”. O regresso aconteceu mesmo e hoje é assistente médica e trabalha de perto com crianças diagnosticadas com cancro.

São já vários feitos dignos de registo numa vida apenas com 29 anos, mas o maior está mesmo para chegar. Há um mês que guardava um segredo que finalmente foi revelado: Arceneaux vai ser uma das tripulantes do primeiro voo espacial apenas com civis, e pelo caminho quebrar mais alguns recordes.

Quando a viagem acontecer, será não só a primeira civil mais jovem no espaço, mas também a mais jovem mulher norte-americana no espaço e a primeira a fazê-lo com uma prótese óssea — um problema que, em circunstâncias normais, seria motivo de impedimento de voar, por exemplo, com a NASA, devido aos seus rigorosos requisitos físicos. Neste caso, essas regras não se aplicam, já que se trata de um voo privado.

Não será, contudo, a primeira turista espacial. A honra coube ao empresário norte-americano Dennis Tito, que em 2001 financiou a sua própria viagem até à Estação Espacial Internacional, transportado pela nave russa Soyuz. Terá pago mais de 20 milhões de euros pelo bilhete.

Venceu um cancro ósseo com 10 anos

A missão será comandada por Jared Isaacman, um empreendedor da área da tecnologia e, claro, um bilionário capaz de pagar o valor exigido pela SpaceX para garantir tudo o que precisa. Aos 38 anos, o norte-americano está cheio de boas intenções. Os outros três lugares seriam entregues como forma de angariar 200 milhões para o St. Jude — metade do valor será oferecido por Isaacman.

Arceneaux foi a escolhida pela instituição para ser a sua representante. Os outros dois lugares serão sorteados, um para um dos doadores individuais do hospital e outro para os clientes da empresa de Isaacman, a Shift4Payments.

“A minha batalha com o cancro preparou me para uma viagem espacial. Tornou-me mais forte e ensinou-me a esperar o inesperado e a aproveitar tudo ao máximo”, revelou à “Associated Press”.

“Desde o início que queríamos um membro da tripulação que representasse o espírito da esperança e não consigo pensar numa pessoa mais perfeita do que a Hayley para assumir essa responsabilidade”, revelou Isaacman.

Vai ser uma das quatro civis da missão

Arceneaux soube no início do ano que queriam falar com ela sobre uma “oportunidade”. “Pensei que seria algo comercial ou eventualmente dar uma palestra nalgum sítio”, disse. Quando soube que queriam fazer dela uma astronauta, ficou perplexa. “Ri-me um bocadinho. Mas depois disse ‘O quê? Sim, sim, por favor.” “Deixem-me só falar com a minha mãe”, acrescentou.

O último pedido é crucial, até porque as viagens aeroespaciais não são propriamente um tema desconhecido à mesa dos Arceneaux. Depois da bênção da mãe, consultou o irmão e a cunhada, ambos engenheiros aeroespaciais.

Antes do voo, programado algures para o final de 2021, terá que enfrentar um período rigoroso de preparação, entre simulações em gravidade zero. O SpaceX Dragon deverá partir do Centro Espacial Kennedy, na Florida, e fará uma viagem de órbita à Terra.

“Acho que esta missão pode inspirar as pessoas de muitas formas diferentes. E mostra-lhes que qualquer coisa é possível.”

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