opinião

Tenham calma e sigam em frente: o lockdown à inglesa

O cronista Nuno Bento escreve sobre a experiência de viver em Londres durante pandemia.
O metro em Earl's Court barrado aos non essential workers

Dois meses se passaram desde a última vez que vos escrevi. Estávamos no início da pandemia e eu comparava o cenário londrino a um episódio de “Black Mirror”. Entretanto, o criador da série, Charlie Brooker, já confessou que a realidade lhe roubou palco para os seus pesadelos imaginários. As ruas de Londres estão praticamente desertas, tal como no primeiro episódio da série (já há contas no Instagram a retratar este cenário), mas agora, em vez de estarmos todos em casa a ver o primeiro-ministro a sodomizar um porco, estamos em casa a trabalhar e só saímos para ir à janela às 8 da noite, para bater palmas ao NHS.

Há porém um rasto de destruição nesta calmaria. Os hotéis da minha rua em Earl’s Court estão fechados. Desde o início desta distopia, já perdi alguns dos meus amigos londrinos de volta para Portugal. Outros estão em casa, sem emprego, a fazer contas à tarefa impossível de pagar renda nesta cidade, sem dinheiro a entrar. Outros mais sortudos, como eu, mantêm os seus empregos e estão em casa a trabalhar, à espera de regressar às nossas vidas normais. Só que quando esse dia chegar, a vida normal nada terá de, digamos, normal.

O governo aconselha o uso de proteções faciais em lugares onde o distanciamento social não é possível, sem nunca especificar o uso de máscaras. Este tipo de indicações vagas são lidas pelos meus vizinhos britânicos como “não preciso usar máscara até que me obriguem”. Da minha varanda, vejo muito poucas pessoas a usar máscara na rua. Ok, “estão a passear”, dizem vocês, “o distanciamento social está precavido”. Mas depois eu vou ao meu Sainsbury’s local e entre clientes e até funcionários, são poucos os que têm protecção facial. Meus amigos, mesmo na utopia que a distância higiénica entre clientes seja respeitada (o Sainsbury’s pintou linhas de separação nos corredores para os mais distraídos), não é possível que o mesmo aconteça entre as pessoas e as prateleiras. Máscaras no supermercado não deviam ser opcionais.

Entendam, para os ingleses é difícil seguir estas regras de aprisionamento. E não é pela mesma razão pueril que os americanos que gritam nas ruas por uma suposta “liberdade” que pode ferir os outros. É diferente com os ingleses. Este é o povo do “Keep Calm and Carry On”. Foram ensinados a seguir com as suas vidas ‘no matter what’, independentemente das circunstâncias. Esta gente saía à rua para ir trabalhar com toda a normalidade, ao mesmo tempo que a sua cidade estava a ser bombardeada. É a cultura deles. Por isso se continuam a juntar nos parques ao fim-de-semana como se nada fosse. Por isso o meu antigo chefe, natural de East London, me liga a tentar convencer a ir a um pub secreto que ele sabe que está aberto. Por isso não querem usar máscaras. Na verdade, é fácil reconhecer os ‘mascarados’ na rua. Normalmente são os mais morenos — presumivelmente espanhóis, italianos, gregos e outros irmãos nossos do sul da Europa. Talvez seja essa a grande diferença entre nós e os ingleses. Eles estão preparados mentalmente para viver em estado de guerra. Nós temos medo. Nós e o Boris, que deve ter apanhado um susto daqueles.

Continua a ressoar a frase forte do discurso inspirador da Rainha Isabel no início do lockdown: “we will meet again” (encontrar-nos-emos novamente). Não por acaso, este era o título de um dos hinos da Segunda Guerra Mundial — a primeira guerra da rainha — um tema que Vera Lynn cantou aos soldados britânicos que saíam para a guerra, sem saber se voltariam a ver as suas famílias ( referência mais tarde recuperada por Roger Waters no tema “Vera”, do álbum “The Wall”). Com famílias e amores separados pela guerra contra a Covid-19, fez todo o sentido recuperar esta frase. Resta-nos a esperança que se concretize rapidamente.

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