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Testes inconclusivos e férias arruinadas: o pesadelo de uma família portuguesa na Grécia

Com um teste rápido positivo à chegada, um PCR negativo e sem respostas das autoridades, os Reis correm o risco de ficar fechados até 14 de agosto.
Estão isolados desde sábado, 21 de juhlo

Por esta altura, a família portuense Reis deveria estar a aproveitar umas férias de sonho na bela ilha grega de Paros. Aterraram no aeroporto de Atenas a 31 de julho, numa escala que seria rápida, mas que se tornou num verdadeiro pesadelo.

À chegada a Atenas, tudo parecia estar a correr bem, pelo menos até que a família portuguesa se deparou com uma fila “com mais de 200 pessoas amontoadas”, sem “qualquer tipo de distanciamento”. Cinco dias depois, já se mentalizaram de que as férias na ilha terão que ficar para outra oportunidade.

Nessa fila, Jaime Reis, de 45 anos, foi escolhido para ser submetido a um teste rápido, aparentemente prática corrente na Grécia, onde um elemento de cada grupo é testado.

“Tivemos que preencher um formulário 24 horas antes da entrada na Grécia, onde damos os nossos dados e morada, à imagem do que já acontece em Portugal ou Espanha. Como era o meu marido que estava responsável pelo formulário, foi ele que foi testado. E o teste rápido deu positivo”, recorda à NiT Brenda Domingues, médica de 35 anos que viajava com os filhos de 7 e 11 anos.

Nem o certificado digital de vacinação os livrou do teste que, sendo positivo, levou a que fossem imediatamente separados no aeroporto. Jaime foi então sujeito a nova colheita para um teste PCR, de forma a confirmar o positivo do teste antigénio. E foi a partir daqui que toda a situação se complicou.

Duas horas depois, davam entrada num hotel de três estrelas da capital grega, onde deveriam permanecer separados. O marido num quarto, Brenda e os dois filhos noutro. Das autoridades veio apenas uma informação: dado o positivo, Jaime ficaria em quarentena; igualmente em quarentena ficariam os dois filhos, por não estarem vacinados; Brenda, no entanto, não estaria forçada a qualquer isolamento. Pior: nenhum dos outros elementos da família foi testado, mesmo sob suspeita positiva de Jaime.

“Disseram que não estava obrigada à quarentena por estar vacinada e isso não faz sentido nenhum”, explica à NiT. “Os quartos são para duas pessoas, mas optei por ficar com os miúdos porque se entretêm melhor se estiverem juntos. Mas são quartos muito pequeninos, não tinha sequer oito metros quadrados.”

“Eu e os miúdos nunca fomos testados, quando em Portugal seríamos, porque se fazem testes no início da quarentena”, sublinha. A esperança residia numa eventual falha do teste rápido, que poderia ser esclarecida com o resultado do teste PCR colhido no aeroporto. Só que esse teste, que deveria ser processado entre 24 a 48 horas, nunca chegou.

“É uma incongruência muito estranha”, frisa Brenda Domingues. “Mesmo que ele esteja positivo, eu também podia estar ou algum dos miúdos. Achei muito estranho, sobretudo dizerem-me que eu não teria que fazer quarentena.”

Brenda e os filhos, durante o isolamento no aeroporto

Assim que abandonaram o aeroporto e chegaram ao hotel, os contactos com as autoridades cessaram. Convictos em esclarecer toda a situação, apressaram-se a requisitar um teste PCR a um laboratório privado e certificado, tudo pago do seu bolso. Um dia depois, o resultado indicava que Jaime Reis não estaria infetado.

Apesar da revolta, até porque revelam que tinham todos os cuidados, queriam esclarecer o assunto, nem que fosse para certificar que Jaime estava infetado. “Se viesse positivo, vinha positivo e pronto”.

“Ele enviou o certificado para as autoridades de saúde,mas nunca tivemos contacto da parte deles. Enviámos mails e fizemos chamadas todos os dias, sempre sem resposta. Mesmo no hotel não havia qualquer contacto ou alguém com quem pudéssemos falar”, explica Brenda. “Em Portugal, quem está em quarentena é contactado várias vezes, para saber se há sintomas. Há até uma plataforma de auto-referenciação de sintomas. Aqui nunca fomos contactados.”

Sem resposta das autoridades gregas, recorreram à embaixada e serviços consulares portugueses, que também demonstravam dificuldade em obter qualquer tipo de esclarecimento. “Ao terceiro dia sem novidades, recorremos às plataformas digitais para tentarmos fazer alguma coisa. Só assim, com alguma pressão, é que conseguimos.”

Foi então que, ao terceiro dia, chegou uma justificação das autoridades gregas: o teste PCR do aeroporto destinava-se a averiguar qual a variante que havia infetado Jaime. Não era essa a informação que chegava ao casal através de um contacto pessoal no Ministério da Saúde grego.

“A informação que nos chegou foi a de que o teste nunca deu entrada em qualquer laboratório ou hospital. Não está em lado nenhum e não foi inserido em qualquer sistema”, conta.

Ao mesmo tempo que tentavam resolver esse problema, procuravam uma forma de, a terem que suportar uma quarentena de 14 dias, o poderem fazer na companhia uns dos outros. A única alternativa passava por conseguirem arranjar um local onde pudessem ficar todos em isolamento.

“Era possível alugarmos uma casa em determinadas condições: se o proprietário estivesse a par da situação, o aceitasse e fornecesse os dados à Proteção Civil. Nesses termos eles aceitavam a transferência”, explica. Encontrada a casa e preenchidas todas as burocracias, a família pôde finalmente juntar-se esta quarta-feira, 5 de agosto, rumo a uma casa com mais espaço.

“Acabamos por conseguir ficar num local um bocadinho mais simpático, onde os miúdos podem dar mais do que três passos”, nota.

Conseguiram sair do quarto de hotel minúsculo, mas ainda sem ordem para voltar

Ainda antes da mudança, mais um avanço: o Ministério da Saúde grego iria proceder a um novo teste PCR a Jaime; mas não iriam testar o resto da família que, por enquanto, permanece num limbo de incerteza.

“O que pode acontecer? Não sei dizer. Temos um teste negativo nosso, mas não sei se mesmo com dois testes negativos nos dão autorização para sair. Pelo sim, pelo não, vamos tentar fazer testes a todos por nossa conta.”

No pior dos cenários, terão que cumprir os 14 dias impostos a Jaime e aos dois filhos, o que acarreta mais despesas e mais problemas. Com as férias em Paros totalmente pagas — e sem certezas se o seguro irá ressarcir parte do valor —, o regresso estava agendado para 10 de agosto, sendo que os 14 dias terminam já depois da data prevista.

“Se ficar os 14 dias ultrapasso as minhas férias e perco um dia de trabalho. Teria que ter uma justificação e oficialmente não temos nada. Nunca nos deram um documento oficial a dizer que estávamos em quarentena.”

Tão ou mais preocupantes do que as férias arruinadas são, para Brenda, as inúmeras “incongruências em todo o processo”. “Se ele é considerado positivo, como é que eu posso circular livremente? Não faz sentido”, desabafa. “O que nós colocamos em causa é a falta de informação, de contacto, de apoio, não conseguimos falar com ninguém e isso não é expectável se consideram que alguém testou positivo.”

“Pode ser um falso positivo? Pode, não são tão frequentes como os falsos negativos, é um facto. Também podem alegar que o PCR foi um falso negativo”, explica a médica de 35 anos, que nunca colocou a hipótese de sair à rua, mesmo estando autorizada. “Nunca saí porque não sei o meu estado e, pela lógica, na pior das hipóteses estaria positiva e a colocar pessoas em risco.”

A família do Porto viu, assim, as férias arruinadas e o problema pode não ficar por aqui. Eles que em 2020 pretendiam visitar a Turquia, mas cancelaram a viagem por causa do intensificar da pandemia. Este ano decidiram-se pela Grécia que, julgavam, seria um destino mais seguro.

“Queríamos ficar dentro da União Europeia, porque caso acontecesse alguma coisa, a comunicação é sempre mais fácil. E nunca esperámos um teste positivo porque não temos comportamentos de risco que o justifiquem.” No meio de toda esta confusão, tem uma certeza: “Não eram estas as férias que queríamos.”

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