Viagens

Tiago anda “ao sabor do vento” pelo mundo, mas “não é rico” — vive com muito pouco

Tem 29 anos, é natural de Setúbal e está a concretizar um dos seus grandes sonhos. Partiu nesta aventura em julho.
É a viajar que se sente livre.

Em agosto passado, Tiago Albuquerque andava a viajar pelo Egito. Ia tranquilamente a caminho da Necrópole de Gizé — onde se localizam as famosas pirâmides — quando foi abordado pela polícia militar na estação de metro de Giza (a mais próxima do complexo com os imponentes monumentos, situado a 25 quilómetros do Cairo, onde o português havia começado a viagem).

Tiago andava a filmar o que o rodeava, para depois fazer publicações nas redes sociais, quando “militares armados até aos dentes” o levaram para um gabinete onde estava o comandante. “Lá, fui completamente revistado, tive de dar provas do que andava a fazer e quais as minhas intenções. Obrigaram-me a apagar todas as gravações que tinha feito”, conta à NiT.

Mias tarde, no final do dia, quando regressava ao Cairo, foi interpelado pelas mesmas pessoas. Teve de revelar para onde ia, tiraram-lhe fotografias e só passado algumas horas é que o deixaram seguir. “Achei a situação um pouco estranha, mas disseram-me que fizeram aquilo para minha segurança”, recorda.

Esta é apenas uma das muitas histórias insólitas que já tem para contar tem desde que o jovem de 26 anos começou uma viagem pelo mundo a 26 de julho deste ano. Natural de Setúbal, mais especificamente do Pinhal Novo, Tiago é oriundo de “uma família humilde”, explica. A primeira vez que viajou além-fronteiras, há cerca de duas décadas, foi com destino à Disneyland Paris. A vontade de conhecer outros destinos nasceu nessa altura. No entanto, as pessoas à sua volta “nunca foram de viajar”.

Só anos depois, em 2018, embarcou numa aventura maior. Com alguns amigos, fez um interrail de 20 dias pela Europa. Passou por países como a Bélgica, Hungria, República Checa, Polónia, entre outros. Para conseguir fazer esta (longa) viagem de comboio teve de juntar dinheiro “durante muito tempo”, algo que voltou a fazer para conseguir pagar a odisseia pelo mundo.

Tiago trabalha na Autoeuropa como alinhador. “É uma área relacionada com a qualidade. Após a montagem estar feita, verifico se está tudo correto, como os espaçamentos das portas e outras características”, explica. Tirou uma licença sem vencimento e, quando chegar, tem o posto à sua espera.

Quando terminou o interrail percebeu que conhecer novos destinos era aquilo que queria mesmo fazer a seguir. Em 2019 começou a viajar sozinho pela América do Sul, porque não tinha ninguém que o pudesse acompanhar. Agora é novamente um viajante a solo. “Não pensava que isto iria tornar-se realidade, mas fui atrás dos meus objetivos”, realça.

Apesar de viajar sozinho, está quase sempre acompanhado. “É raro o momento em que estou só. Conheço muita gente pelo caminho, como outros viajantes, comemos todos juntos e é com eles que conheço todos os lugares”, garante.

O roteiro começou em Joanesburgo e, depois, foi para o Botswana. Os safaris que fez ali estão no topo das melhores experiências que já teve na vida. Seguiram-se a Namíbia, Zimbabué, Cape Town e, depois, regressou ao ponto de partida. A passagem por aquela região do continente africano ficou marcada pelo tempo dedicado à natureza, à vida selvagem e às pequenas vilas.

Em agosto já estava no Egito, onde foi abordado pela polícia militar. Ali esteve durante duas semanas e meia. Ligeiramente assustado com a situação, decidiu rumar ao Nepal, onde permaneceu durante um mês. “Quando estava lá fiz um trilho de montanha e cheguei aos quatro mil metros de altitude”, conta. A experiência foi, claro, bastante dura, mas, ao mesmo tempo, “inigualável”.

Antes de chegar ao país na Ásia Meridional, fez uma curta escala de um dia nos Emirados Árabes Unidos. Contudo, aquelas 24 horas foram suficientes para virarem a viagem do avesso.

Quando desembarcou não tinha visto, porque ia só transitar no aeroporto. Fez o check-in e a bagagem foi para o porão. Para a ir buscar, tinha de entrar em território da Arábia, que já era num país diferente. “Fui à zona de trânsito para saber o que podia fazer e disseram-me que não havia problema e que ela chegaria ao Nepal, mas quando lá cheguei ela não apareceu”.

Em pânico, contactou aeroportos e companhias aéreas, mas ninguém o conseguia ajudar. Felizmente, já tinha contactos de vários viajantes que conheceu no passado, e um deles falou-lhe sobre uma enfermeira portuguesa que trabalhava nos Emirados Árabes Unidos. “Ela foi presencialmente ao aeroporto e tratou da situação, mas ainda estive cerca de 14 dias apenas com a roupa que tinha no corpo”, recorda.

Acabou por comprar as coisas essenciais, como escova, pasta de dentes e sabão. Acabou por conhecer uns rapazes israelitas que lhe doaram umas peças de roupa. Quando, finalmente, recuperou as malas, teve de pagar 250€, visto que foram transportadas pela DHL.

Está atualmente em Islamabade, capital do Paquistão. Chegou lá esta quarta-feira, 11 de outubro, e já está rendido, especialmente à simpatia das pessoas. Chegou lá de noite e a Internet do aeroporto não funcionava. Também não havia nenhuma loja perto dele onde pudesse comprar um cartão SIM do país. “Um rapaz ofereceu-me boleia para o hostel e não pediu nada em troca. Já vi que a gente daqui é ótima. Percebem que sou turista e diferente deles e tentam meter conversa”. Por vezes Tiago está a jantar sozinho num restaurante, juntam-se a ele e ainda pagam a conta. Em suma, “são muito calorosos”.

É naquele tipo de alojamentos que fica a dormir sempre que possível, porque são mais económicos. Para o viajante, poupar é um estilo de vida que segue já há muito tempo — e foi assim que juntou o dinheiro necessário para aquela aventura.

Também vive de forma minimalista, gasta muito pouco no dia a dia, e evita comprar “coisas supérfluas”. É essa a dica que dá a pessoas que queiram fazer o mesmo que ele. “Não sou rico e não venho de uma família abastada. Tive de abdicar de algumas coisas. O principal é definir prioridades”, confessa.

O futuro da aventura de Tiago pelo mundo ainda não está 100 por cento planeado, porque “não gosta de se sentir amarrado”. “Adoro ir ao sabor do vento. Para mim, viajar é estar livre, e algo muito definido desmotiva-me.”

Já sabe, porém, que depois do Paquistão vai para a China, entrando por Hong Kong para tratar do visto. Depois disso vai descer para o Sudeste Asiático, onde gostava de fazer voluntariado e trabalhar em troco de dinheiro, porque as poupanças poderão estar perto de terminar naquela altura — e Tiago não se importa de arranjar um emprego, nem que seja em troca de comida e estadia.

A Austrália e a América Central são os últimos territórios da sua lista, “mas isto pode mudar a qualquer momento”. O plano é terminar a viagem pelo mundo em julho do próximo ano. Até lá, vai partilhar as suas aventuras e fotografias (arte de que gosta muito) na sua conta de Instagram.

A seguir, carregue na galeria e veja algumas fotografias da odisseia de Tiago Albuquerque.

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