Viagens

“Todos os dias eram uma prova de fogo”. Como Sandra May fez a EN2 sozinha e de bicicleta

A escritora escolher divulgar o mais recente livro de uma forma inédita e desafiante. A viagem começou no dia 31 de julho.
Foi um verdadeiro desafio.

Missão cumprida. Mesmo com altos e baixos e vontade de desistir a meio do caminho, a escritora Sandra May conseguiu superar os obstáculos e concluir o desafio de percorrer a mítica Estrada Nacional 2 sozinha, de bicicleta e com os seus livros às costas.

Sandra May tem 28 anos, nasceu em Viana do Castelo — apesar de ter sido criada no Porto e estar atualmente a viver na Chamusca — e mantém um diário desde os seus 12 anos. Sempre adorou escrever, mas nunca pensou fazer disso profissão. Antes de se tornar escritora, foi bailarina profissional e militar do exército durante três anos e meio. Duas áreas que não podiam ser mais opostas uma da outra, mas que contribuíram para a decisão de se dedicar ao que realmente a fazia feliz: escrever.

Enquanto escritora independente, lançou em fevereiro a obra “Ainda Não é Desta” (à venda por 14€), o primeiro volume livro de uma trilogia. “Este livro fala das peripécias da vida real, sobre aquele balde de água fria que levamos quando chegamos à fase adulta e percebemos que não é nada do que estamos à espera. É uma comédia romântica, com amores e desamores e muito autoconhecimento”, explicou à NiT.

O livro.

Sandra decidiu publicitar o seu livro da forma mais inédita e original possível: fazendo uma viagem pela EN2 de bicicleta e com vários exemplares às costas, para ir assinando e vendendo nas várias paragens ao longo do percurso. Durante três meses, preparou-se física e psicologicamente para esta aventura, que teve início no dia 31 de julho e terminou 19 de agosto, na passada sexta-feira.

Com uma bicicleta de 19 quilos, 10 exemplares do livro, dois alforjes (bolsas grandes) com cinco quilos cada um e uma mochila às costas onde guardava a água, a escritora pedalou de Chaves até Faro durante 20 dias. Uma viagem que se revelou tão emocionante como desafiante.

Tive alguns altos e baixos porque é um percurso realmente muito difícil e que requer uma preparação física muito grande. Logo no terceiro dia apanhei a subida íngreme de Lamego e foi muito assustador. Tive de voltar para trás”, começa por contar à NiT. Completamente sozinha e com as pernas a tremerem de cansaço, nesse momento pensou seriamente em desistir —, mas foi capaz de superar a exaustão, tanto física como psicológica que sentiu.

Depois de descansar dois dias num hotel na Régua, voltou a ganhar coragem para continuar o percurso, desta vez com a ajuda do companheiro. “O meu marido veio ter comigo e serviu de carro de apoio. Meti o que levava às costas dentro do carro e voltei a tentar a subida”, revela. Partiu de Régua à meia-noite e, uma hora e meia depois, conquistou uma das etapas mais difíceis do trajeto.

Poucos dias depois, voltou a ficar frente a frente com outra subida que parecia não ter fim, em Góis. “Não era tão íngreme como a de Lamego, mas era bastante extensa, com cerca de 18 quilómetros. Foi muito dura em termos psicológicos porque parecia que não estava a avançar nada”, recorda.

Mais do que o cansaço físico, a escritora admite que o maior desafio foi ultrapassar os medos e receios, tendo em conta que estava a fazer a viagem completamente sozinha. Como pedalava sobretudo à noite ou de madrugada, as estradas estavam praticamente vazias e era inevitável não pensar no pior. “Todos os dias eram uma prova de fogo. Se me sentisse mal, não teria ali ninguém para me ajudar. Pedalava durante horas sozinha e não tinha ninguém com quem falar e tinha de me automotiva, mesmo quando só me apetecia atirar a bicicleta pela ravina abaixo”, confessa.

A primeira fase da viagem foi a mais complicada devido às subidas, mas quando chegou ao Alentejo, tudo começou a correr melhor — até porque a estrada era reta e o percurso era mais fácil. Como o trajeto foi feito de bicicleta e não era possível acelerar tanto como quem viaja de carro, conseguiu apreciar de outra formas as diferentes paisagens atravessadas pela icónica estrada nacional. “A beleza do Norte é mais montanhosa, com muitas encostas. O Alentejo é maioritariamente castanho e dourado, é tudo muito mais calmo”, descerve.

Se tivesse oportunidade de recuar no tempo, uma coisa era certa: ter-se-ia preparado muito mais. “Atrevo-me a dizer que treinaria entre seis meses a um ano. Fui muito inocente e tive muitas surpresas ao longo do caminho”. Ainda assim, conseguiu cumprir o plano traçado e chegou um dia mais cedo do que o previsto.

Apesar dos obstáculos com que se deparou, considera a experiência enriquecedora: “Sinto-me uma pessoa muito diferente, genuinamente mais humilde. Como fiz a viagem sozinha, obriguei-me a ultrapassar todas estas dificuldades porque não tinha ninguém para me ajudar a ultrapassar aqueles momentos duros”.

No que toca à divulgação do livro, o balanço não poderia ser melhor. Com o apoio dos municípios, a escritora apresentou a obra em várias bibliotecas do País e partilhou a sua história com três gerações diferentes. “Foi uma viagem transformadora, não sabia que tínhamos um País tão bonito. Fiquei a conhecer as várias culturas regionais e muitas pessoas com sotaques e formas de viver diferentes umas das outras”, sublinha. 

Nas etapas mais complicadas e nos momentos em que achava mesmo que não ia conseguir pedalar até ao fim, a vontade de completar o desafio foi mais forte que tudo o resto. Numa última nota, deixa um conselho a todos aqueles que têm um sonho por concretizar, como ela tinha. “Não oiçam ninguém além da vossa própria voz. Ouvi muitas pessoas dizerem que não ia conseguir fazer a viagem toda. E consegui. É difícil, mas não é impossível”.

De seguida, carregue na galeria para ver algumas das fotografias desta aventura de Sandra May. 

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