Viagens

Três filhos, hemodiálise, pandemia: nada trava a família portuguesa que vive a viajar

A All Aboard Family largou tudo para cumprir um sonho e tornou-se um sucesso das redes sociais. Agora lança um livro com dicas.
A família nos Açores.

Estávamos em 2019, o ano em que tudo ainda era normal, quando Catarina, Filipe e o filho Guilherme (prestes então a fazer dois anos) decidiram largar tudo para viajar pelo mundo. O que tinham na vida era bom mas não era suficiente: sem tempo para o filho, sem se verem muitas vezes devido aos trabalhos e à rotina, decidiram deixar tudo para trás e simplesmente mudar. 

Venderam a casa, despediram-se e foram em busca de um sonho. Com um pequeno—enorme detalhe: levavam consigo uma insuficiência renal do pai Filipe, nada que os impedisse de perseguir o que idealizavam. Começou aí a aventura pelo mundo desta família, e a bordo decidiram levar todos os interessados, que se tornaram seus fãs e seguidores.

Para mostrarem que é possível fazer uma viagem com um bebé e um doente crónico criaram logo uma página no Instagram, a All Aboard Family, que hoje conta com mais de 70 mil seguidores.

Dois anos depois, muita coisa mudou: vieram mais dois filhos, uma pandemia mundial, restrições de viagens e um livro. O casal acabou por resumir todas as suas aventuras, conectar-se de forma diferente com os seus seguidores, dar dicas e recomendações para quem quiser embarcar numa aventura destas, tudo num novo livro.

O objetivo é simples: passar a mensagem. “Queremos mostrar que é possível viajar com crianças, que é possível viajar com uma doença, que é possível largar o trabalho e seguir em busca de um sonho”, explica o casal.

Apesar de todas as dificuldades e medos, sem dinheiro, com um filho pequeno e a preocupação com a doença renal do Filipe que o obriga a fazer regularmente hemodiálise, o casal arriscou tudo e conta agora à NiT que nem por um dia se arrependeu.

“Vendemos a casa e o negócio do Filipe, a Catarina despediu-se após dez anos como team leader numa multinacional, enfrentámos o espanto da família e partimos numa viagem de sonho. Queríamos mostrar ao mundo que era possível fazer esta viagem em família, com um bebé e um adulto que sofre de doença crónica. Para isso, criámos a página no Instagram onde fomos mostrando as nossas aventuras”.

O livro veio como complemento, para servir de guia e de inspiração para todos os que gostam de viajar. “Partilhamos as nossas histórias e a forma como fomos vendo o mundo, juntamos muitas dicas e recomendações para quem quer viajar de forma económica e descomplicada”.

Catarina Almeida e Filipe Almeida têm ambos 32 anos e nasceram em Lisboa. Ela é apaixonada por viagens, escrita, fotografia e pessoas, e acredita em desafiar tudo o que já foi feito. Estudou marketing e publicidade, trabalhou dez anos como team leader numa multinacional.

Largou tudo em busca do tal sonho de uma vida. Até hoje, conheceu perto de 40 países. E considera-se mãe de uma família feliz e pouco convencional. O Filipe adora música, toca piano e chegou a gerir uma empresa de tuk-tuks, mas foi  viajar que sempre o completou. Faz hemodiálise há quatro anos, mas nem isso o limitou.

O Guilherme tem agora quatro anos e é o filho mais velho do casal. Já conhece 28 países e segundo os pais adora explorar, participar. Tem dois irmãos mais pequenos, o Manuel com um ano e o Vasco que nasceu em julho.

A NiT falou com o casal para saber mais sobre como gerem as viagens, os filhos, a saúde e a pandemia. E as respostas são motivadoras, no mínimo, para todos aqueles que adoram explorar o mundo mas por vezes só encontram entraves.

Desde o Guilherme, que era bebé quando se despediram já tiveram mais dois filhos certo? E continuam a viajar com eles, já o fizeram?
Sim, continuamos a viajar com eles. O Manuel já foi duas vezes aos Açores e uma à Madeira. Estamos agora numa viagem a Itália e é a primeira do Vasco que tem apenas dois meses. Viajei grávida e só não fomos mais longe porque as clinicas de hemodiálise não aceitavam o Filipe para tratamento. Além destas viagens que implicavam avião, fomos ainda a várias zonas do país: Porto, várias zonas do Alentejo, Algarve…

Quais são os grandes desafios de viajar com crianças? E os melhores conselhos que podem dar aos pais que o queiram fazer?
As crianças são mini pessoas. É importante criar roteiros onde eles se encaixem. Ao planificar uma viagem com crianças temos de ter em conta se os hotéis os aceitam, agora que somos família numerosa, equilibrar os custos e respeitar sempre o tempo dos mais pequenos. Acreditamos que não exista um grande desafio porque eles estão bem onde nós tivermos bem também. A única coisa que eles precisam mesmo é dos pais, de resto vai-se fazendo. Para os pais: descomplicar. Não tentem criar muitas expetativas nas vossas viagens quando o fazem com filhos. Temos de perceber como se sentem, perceber também que imprevistos acontecem e que muitas vezes os planos saem furados e está tudo bem. As viagens com crianças são autênticas experiências e histórias que todos podemos recordar juntos no futuro.

E quais os maiores desafios de viajar precisando de hemodiálise? Obviamente exige muito mais pesquisa, cuidados, restringe alguns destinos?
Neste momento, é encontrar clinicas que aceitem pacientes em tratamento. A Covid veio limitar muito as viagens. Se já era um desafio encontrar clínicas (existe muito pouca informação na internet porque também existem poucos doentes a viajar) hoje em dia não chegam os certificados ou os testes, ainda existem países e clinicas a recusar pacientes de fora. Para a viagem de Itália ficámos até ao último dia para conseguir fechar dois tratamentos uma vez que as clínicas não me aceitavam. Em tempos normais, temos de garantir que a saúde não é colocada em causa e, por isso, sabemos de antemão que existem lugares no mundo onde não poderemos fazer os meus tratamentos. Adorávamos ter explorado África mas infelizmente não é possível, existem países que simplesmente nem têm hemodiálise.

Em pandemia, viajaram? Se sim como, quando, para onde?
Sim, viajámos mas cá dentro. Fomos até aos Açores e viajámos dentro do país. A gravidez de risco (além dos tratamentos de hemodiálise) obrigaram-nos a voos mais curtos e seguros.

Já tem mais viagens planeadas?
Temos sim. Uma até ao final do ano e que será uma bela surpresa e uma coisa que já queremos fazer há muito tempo.

Tinham boas carreiras e profissões, uma boa vida… nunca se arrependeram de largar tudo?
Nunca nos arrependemos. Foi o melhor que fizemos em toda a nossa vida. Acreditamos que tudo acontece por um motivo e foi a altura certa.

Como será quando os miúdos tiverem de frequentar a escola, já planearam?
O facto de não terem escolaridade obrigatória faz com que tenhamos a possibilidade de continuar a viajar. Neste momento já voltámos a ter casa (a pandemia, a gravidez e a hemodiálise mantiveram-nos mais por cá) e os miúdos têm também escola. Ainda assim, todos na escola sabem que eles são crianças que vão ter sempre as viagens como extra e que a ida deles ao mundo é tão ou mais importante do que a escola em si. Quando existir escolaridade obrigatória ainda vamos ter de descobrir como faremos uma vez que vamos ficar limitados às férias da escola para poder viajar.

Como surgiu a ideia do livro e o que esperam: do feedback, da publicação?
Era um sonho de sempre. Os nossos seguidores mais antigos sabem que sempre quisemos escrever um livro no final da viagem onde contássemos ainda mais histórias. É uma herança brutal para os nossos filhos e um orgulho imenso ver a nossa história publicada e em todo o lado. Tínhamos muito medo do que diriam as pessoas. Foi a primeira vez que escrevemos um livro e é tudo novo. Até agora tem sido um feedback incrível. As pessoas devoram o livro em dois dias e isso só pode ser positivo 

Como costuma ser o feedback no Instagram? Qual a melhor, ou pior, ou mais insólita coisa que já vos disseram ou fizeram?
Temos uma comunidade incrível. Fomos criando esta relação com as pessoas desde o primeiro dia e só queremos connosco quem quer realmente estar. Preocupamo-nos muito mais com as pessoas do que com os números que elas representam e acreditamos que isso seja a chave para ser uma conta livre de haters ou pessoas mal intencionadas. Conta-se pelos dedos de uma mão as mensagens negativas que nos chegaram. A pior de todas foi quando disseram que o Filipe devia ter vergonha de meter filhos no mundo quando sabia que podia morrer a qualquer momento. Sabemos que o digital cada vez mais abre portas para que as pessoas digam coisas que frente a frente não teriam coragem de dizer ou que, simplesmente, larguem as suas frustrações. É importante combater isto porque do outro lado estão pessoas que sentem, que têm família e que também ficam tristes com o que lhes é dito. Amor é o que pedimos sempre a quem nos segue e é também o que por lá encontram.

Qual o destino que mais vos marcou até agora?
Bali, sem dúvida. Já visitamos a ilha quatro vezes e sabemos que vamos voltar. Bali é especial pelo que se sente. Visitámos a primeira vez em 2013 e depois em 2014. Quando regressamos em 2017 vimos que a ilha está diferente, muito mais turística e que as visitas passaram a ser por Bali ser agora lugar da moda e não pela sua verdadeira essência. Bali é muito mais do que se vê e só quem realmente consegue sentir é que vai gostar da ilha como ela é.

Mas a lista de países é enorme por isso é difícil escolher só um: amamos as Filipinas e queremos voltar. É talvez dos lugares mais bonitos do mundo. Agora só poderemos voltar quando as nossas vidas mudarem e o Filipe for presenteado com um transplante renal. Em Bali existe hemodiálise, nas ilhas que mais gostamos das Filipinas, não. Na Europa somos fãs de Itália, daí esta viagem e depois todos os lugares onde já estivemos são especiais por algum motivo.

Nas viagens é impossível escolher os preferidos; porque todos têm alguma coisa que nos atrai.

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