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Um dos arquitectos do maior estádio do Mundial é português e jogou nos clubes de Ronaldo

O madeirense Décio Ferreira esteve envolvido no projeto do recinto de Lusail, que vai receber o jogo decisivo da competição.
É o maior do país.

O Estádio Lusail, nos arredores de Doha, no Catar, é o maior do país e tem capacidade para 88 mil espectadores. Cerca de 40 arquitetos desenvolveram o projeto do recinto que será palco do último jogo do Mundial. Curiosamente, um dos que esteve envolvido no projeto é português e nasceu na mesma ilha que o craque de futebol detentor de cinco Bolas de Ouro, Cristiano Ronaldo.

O madeirense Décio Ferreira tem 47 anos e, ainda antes de sonhar que um dia seria arquiteto, gostava de dar uns toques na bola. “O futebol era daqueles desportos que todos os miúdos jogam e foi o primeiro desporto que joguei como federado”, conta à NiT. Apesar de não ter seguido carreira futebolística, jogou durante uns tempos nos mesmos clubes do capitão da seleção — o Nacional da Madeira e o Andorinha.

Não chegou a conhecer Cristiano Ronaldo, até porque têm dez anos de diferença e jogavam em escalões diferentes, mas lembra-se de ver o pai do jogador, José Diniz, no Andorinha. “Na altura nem sabia quem era, mas quando a comunicação social começou a falar do Ronaldo, lembro-me de identificar a pessoa e cheguei mesmo a confirmar com os meus pais”, diz.

Ambos começaram no futebol, mas acabaram por seguir caminhos diferentes: um tornou-se num dos melhores jogadores do mundo; o outro foi um dos responsáveis pela obra do estádio mais importante deste Mundial.

Quando terminou o secundário, Décio Ferreira saiu da ilha, em 1994, para estudar arquitetura em Coimbra. Terminou os estudos em 2000 e, a partir daí, começou a sua carreira profissional. Primeiro com projetos em Portugal e, mais tarde, em grupos internacionais.

Em 2015, foi contratado para trabalhar na Foster + Partners, a maior empresa de arquitetura do Reino Unido, precisamente na altura em que assinaram o projeto do estádio escolhido para ser palco da final do Mundial 2022. “Quando me juntei à equipa, o objetivo inicial não era o estádio, mas sim as torres altas que ainda estavam a ser construídas na envolvente do recinto, perto do mar”, explica.

O arquiteto Décio Ferreira.

Entretanto, acabou por se juntar também ao projeto do Estádio Lusail. “Estive mais na parte da coordenação das equipas, não era tanto direcionada para a parte do design. Era responsável por fazer a ponte entre as várias áreas”, refere.

Quando a Foster + Partners venceu o concurso para desenvolver o recinto, já sabiam que seria palco do último jogo do Mundial. O projeto foi desenvolvido todo em Londres e Décio só ia ao Catar ocasionalmente, quando existiam reuniões com os clientes ou com a FIFA. 

Até ali havia trabalhado em projetos de moradias, prédios de habitação e centros de dia, com quatro pisos no máximo. O estádio do Lusail foi um dos maiores desafios de toda a sua carreira profissional. “É muito complexo do ponto de vista da conceção. A FIFA, a entidade máxima do futebol, é muito exigente até mesmo nos detalhes mais pequenos. Foi interessante e desafiador, e foi um dos projetos mais simbólicos e icónicos em que trabalhei. Tenho muito orgulho em ter feito parte da equipa”, revela o arquiteto.

O desenvolvimento do projeto terminou em 2016 e a construção do estádio teve início em abril de 2017. Como foi construído numa cidade que praticamente não existia, “que foi criada no meio do nada”, onde nem havia estradas, a obra demorou cerca de quatro anos até estar concluída.

Foi inaugurado oficialmente em novembro deste ano e um dos primeiros jogos a ser realizado no novo estádio do Catar foi o Brasil contra a Sérvia. “Estava no Brasil na altura e vi o jogo colado à televisão. Tive assim um nervoso miudinho, aquela ansiedade boa de ver o resultado do edifício com aquela complexidade”.

Este Mundial fica marcado pelas grandes construções e as arquiteturas luxuosas dos estádios, muitos deles construídos especificamente para receber o campeonato do mundo, como o do Lusail. Por outro lado, também ficou marcada pelos milhares de trabalhadores que morreram nas construções das infraestruturas.

Décio Ferreira, que trabalha na área da arquitetura há mais de 20 anos, confessa que nunca tinha visto nada semelhante. “Essas informações são todas confidenciais e não acredito naqueles números, até acho que foram muitos mais”, revela. 

A pressão com os timings, que eram bastante apertados, as temperaturas elevadas durante o verão no Mèdio Oriente e a pouca formação na construção foram algumas das grandes falhas neste Mundial. No caso do Estádio do Lusail, sempre existiu muita preocupação para as questões de segurança: “Tínhamos de identificar as zonas do projeto que eram passíveis de perigo, havia uma grande preocupação da nossa parte”.

“O senso comum falhou claramente e não há nada que justifique as mortes. O calor é muito excessivo, são muitas horas de trabalho. Estavam 40 graus na rua e os trabalhadores tinham de estar com capacetes e luvas. Há uma falta de cultura de construção no Médio Oriente”, sublinha o arquiteto.

Segundo o “The Guardian”, mais de 6500 trabalhadores migrantes da Índia, Paquistão, Nepal, Bangladesh e Sri Lanka morreram no Catar desde 2010, ano em que se soube que iam ser o país a receber o Mundial 2022. A empresa britânica Fosters + Partners confessou ainda que só esteve envolvida na fase inicial de desenvolvimento do conceito de design e que “todas as dúvidas sobre o bem-estar dos trabalhadores envolvidos no processo de construção do local deverá ser abordada pelo Comité Supremo para Entrega e Legado, que administraram o programa de bem-estar dos trabalhadores em todos os projetos do Campeonato do Mundo”.

Até à data, ainda não se sabe se houve mortes no Estádio do Lusail, segundo o “Architects Journal”.

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