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A viagem em família a São Tomé e Príncipe inspirou o novo livro de Catarina Leonardo

A escritora partilha histórias, experiências e momentos que passou no arquipélago ao lado do marido e da filha.

“Mostrar como é a cultura sem preconceitos.” Este sempre foi o objetivo de Catarina Leonardo, que nos últimos anos se tem dedicado às viagens sem guias e roteiros. A 29 de novembro, a escritora lançou o seu segundo livro, “A Praia das Tartarugas”, baseado numa das aventuras que fez com a família.

Em 2022, Catarina, de 46 anos, juntou-se ao marido, Ricardo Fonseca, de 43, e à filha, Maria, de 11, para uma aventura por São Tomé e Príncipe. Tal como é habitual, apontou apenas o nome de alguns sítios que queria conhecer, mas não fez qualquer roteiro e também não contratou guias.

“Gosto de ir a sítios que são pouco turísticos e pesquiso muitas vezes por sítios menos visitados do mundo”, começa por contar à NiT. “Há algumas pessoas que conheço que já estiveram em São Tomé e todas falavam muito bem. Foi por estas duas razões que decidimos, cá em casa, em família, ir lá.”

A viagem aconteceu em fevereiro de 2022 e a família passou “19 dias inteiros”, sem contar as horas no avião, a conhecer a ilha. “Como costumamos fazer tudo sem nada marcado, sem agências, sem guias ou condutor, andámos sempre nós a conduzir”, partilha. “É um país mesmo muito fácil para passear.”

Ao longo dos vários dias, a família aproveitou para conhecer as roças, as famosas propriedades rurais do arquipélago, as praias paradisíacas e a história da região. Pelo caminho, tiveram ainda a oportunidade de conhecer de perto o povo.

“Uma coisa que acho muito interessante, que também explico no livro, é que a ilha não é muito grande, mas todo o percurso que temos que fazer é pela parte de fora”, refere. “Não conseguimos ir de norte a sul como fazemos em Portugal, pela Estrada Nacional 2, por exemplo. Por isso, isso faz com que tudo seja mais lento em São Tomé.”

Catarina explica que, apesar das distâncias não serem muito grandes, as estradas não são muito boas, o que acaba por obrigar uma condução mais lenta. No entanto, o lado bom é que conseguiram ter ainda mais atenção às paisagens. 

O novo livro.

A viagem de 19 dias acabou por inspirar Catarina a escrever o seu segundo livro, “A Praia das Tartarugas.” Na obra, a escritora retrata, quase em forma de diário, os momentos mais marcantes que viveu pela ilha e as experiências que proporcionou à Maria, que na altura da viagem tinha sete anos.

“O fio condutor é realmente a viagem que fizemos, mas ao longo dos dez capítulos, acabo por falar de várias coisas, nomeadamente a escravatura, o que são as roças, a maneira de viver da ilha, a história, a natureza, entre várias outras”, partilha.

O contacto que teve com o povo é também retratado na obra, nomeadamente a história de pessoas que conheceu pelo caminho. É o caso de Kimilson, um senhor que conheceu num alojamento em que ficaram hospedados.

“Era um senhor que, depois de fazer e nos servir a refeição, andava duas horas, pelo silêncio e o escuro de São Tomé, até casa”, recorda. “Na maior parte das noites, ficávamos sozinhos com ele e ele acabava por sentar-se também à mesa connosco e falar um bocado sobre a vida em Portugal e em São Tomé.”

Outras experiências que recorda com carinho são as idas à praia, sobretudo a de Jalé, conhecida como um santuário de tartarugas. “As cabanas e o restaurante eram sempre em cima da praia, e todas as noites sentávamos e esperávamos que uma tartaruga mãe viesse pôr os seus ovos algures na praia”, recorda. “De manhã, acordávamos cedo para ver as tartarugas bebés a saírem dos ovos e a tentarem ir para o mar, porque elas seguem a luz.”

A experiência foi tão enriquecedora que inspirou o nome do novo livro. “Quando ainda estava em São Tomé já tinha ideias para escrever este livro porque é um sítio que ainda não é muito conhecido e continua a haver muito preconceito contra África”, lamenta. “Muitas pessoas que até têm alguma experiência de viagem não vão por causa disso.”

Catarina acredita que a experiência também muito especial para Maria, que quase todos os dias fazia novas amizades. “Houve um dia em que estávamos na praia e surgiu um grupo de crianças que tinham acabado de sair da escola. No início, tiveram vergonha, mas começaram logo a brincar com a Maria”, aponta.

A certa altura, um dos miúdos perguntou à Maria se queria beber água de coco e a portuguesa respondeu que sim. Mas havia um problema: não havia vendedores na praia. “Ele subiu numa árvore de não sei quantos metros, de uma forma incrível e sem recursos, só com os pés e às mãos, pôs o coco cá para baixo, encontrou o ponto frágil, bateu ali numa rocha durante uns segundos e abriu-lhe o coco.”

Vários desses momentos estão imortalizados no novo livro, nomeadamente algumas fotografias dos miúdos a brincar na água e na areia. E para Catarina e Ricardo, as experiências que proporcionam à filha são o ponto alto de qualquer viagem: “Vê-la a não ter preconceitos e a brincar e a interagir com qualquer pessoa, de qualquer circunstância, é mesmo muito bom”.

 
 
 
 
 
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Como tudo começou

O gosto de Catarina pela escrita começou na infância, inicialmente como um passatempo sem grande seriedade, que acabou por deixar de lado ao iniciar a carreira como consultora. Após 14 anos nesse setor, encontrou coragem para se dedicar plenamente às viagens, o que reavivou a sua paixão pela escrita.

Durante este percurso, fundou a Associação de Bloggers de Viagem Portugueses e criou o blogue “Wandering Life”, onde partilha histórias e dicas de viagens. “Fui desenvolvendo vários projetos relacionados com a escrita de viagens, mas sempre desejei escrever um livro. Essa vontade começou a ganhar cada vez mais força, mas não sabia ao certo como iria concretizá-la. Queria um registo inovador, que tivesse impacto”, explica.

Catarina já refletia sobre essa ideia há algum tempo, mas foi apenas após uma visita à Arábia Saudita, em agosto de 2022, que começou a moldá-la. Na altura, a filha Maria tinha sete anos e, apesar de já ter estado em países muçulmanos, nada se comparava ao que viveram naquela mês.

Mais tarde, a experiência acabou por inspirar o primeiro livro de Catarina, “A Amiga Saudita”, escrito pelos olhos de Maria após a passagem pela Arábia Saudita. A viagem de São Tomé e Príncipe, que aconteceu mais cedo naquele ano, acabou por inspirar a nova obra lançada este ano. 

“A Praia das Tartarugas” começou a ser escrito em janeiro deste ano. Ficou completa em junho e meses mais tarde, já estava disponível à venda por 12€. Pode ser comprado diretamente através de mensagem privada no Instagram de Catarina (neste caso, pode vir autografado), na FNAC ou no site da editora Atlantic Bookshop.

Leia também o artigo da NiT sobre “A Amiga Saudita”, o primeiro livro de Catarina Leonardo. 

Carregue na galeria para ver algumas imagens da viagem de Catarina, Ricardo e Maria a São Tomé e Príncipe.

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