Viagens

Viajei de avião e já não me lembrava o que era estar sentada ao lado de um estranho

Uma repórter da NiT foi até à Ilha Terceira, nos Açores. Na ida, o avião ia quase vazio. O mesmo não se passou no regresso.
As saudades eram muitas.

Eram 4h55 do dia 22 de abril quando entrei no aeroporto de Lisboa. O céu, ainda escuro e estrelado, contrastava com as luzes brancas e intensas do interior do espaço que não visitava desde fevereiro de 2020, depois de uma estadia em Barcelona. A pandemia roubou-me uma viagem a Nova Iorque, marcada para o início do primeiro confinamento, e só agora, mais de um ano depois, voltei a viajar para fora de Portugal Continental.

Na zona de check-in, um grupo de mais de uma dezena de pessoas recorria aos postos automáticos. No guichet da Sata, um grupo de quatro. Era quinta-feira e o check-in automático não estava disponível para este voo. O arquipélago dos Açores exige um teste PCR negativo para se poder embarcar.

Feito na segunda-feira, 19, e pago pelo governo regional, mostrei o resultado do teste, num processo simples e rápido. Estava na altura de passar o controlo de segurança.

Tudo se mantém como habitual, mas estranho o facto de as caixas que passam no raio-x não serem desinfetadas. Depois de voltar a calçar as minhas botas, vestir o casaco, e pôr a mochila às costas olho para trás, mas as caixas parecem voltar à pilha prontas a usar.

Na sala de embarque, as cadeiras têm lugares marcados com sinais de proibição para se manter a distância. “Tire a máscara, por favor.” “Desculpe?”, respondo depois de um ano e um mês a utilizar máscara dentro de espaços fechados. Devo ter ouvido mal.

“Tire a máscara, por favor.” Demoro uns instantes, culpando o sono, até perceber. É que quando mostramos o cartão de embarque e o cartão de cidadão, é necessário tirar a máscara por breves segundos para que seja possível verificar se somos realmente a pessoa do documento de identificação.

Entro no avião e sou recebida com as boas vindas da tripulação e gel desinfetante para as mãos. O voo está marcado para as 6 horas e, provavelmente pelo horário, está apenas a cerca de um terço da sua capacidade. Troco de lugar da coxia para a janela. Ninguém está ao meu lado. Nem à frente. Nem atrás.

O regresso

Estou no famoso aeroporto das Lajes, na Ilha Terceira e preparo-me para o embarque. A porta 2 está repleta de gente. O pequeno aeroporto não me permite ter uma noção clara das diferenças entre as duas viagens.

É só quando entro no avião, completamente cheio, que percebo o contraste. Na minha fila estão duas raparigas, que depois percebo que não se conhecem. Depois de 13 meses de máscaras, álcool gel e distanciamento social, não consigo não estranhar a situação.

Peço licença para chegar ao meu lugar, na janela. Sento-me e penso que já não me lembrava o que era estar sentada ao lado de um estranho. Será seguro? Será que faz sentido o distanciamento na porta de embarque se depois não existe dentro do avião? Será que a renovação do ar a cada três minutos, que a tripulação anunciou, é suficiente?

Relembro a turbulência e o susto que apanhei na escala da ida, entre São Miguel e a Ilha Terceira, em plena depressão Lola; o teste à Covid-19 que todos os passageiros terão feito; e a muito fraca incidência do novo coronavírus na Terceira. Ligo a Netflix, escolho o filme “Mank” e carrego no play. É dia 25 de abril, e noite de Óscares.

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