“Fariña”: as histórias bem reais (e as ligações a Portugal) da série sobre narcotráfico

A minissérie estreia esta quarta-feira, 3 de março, no canal AMC.
Chega agora ao AMC.

Sobre “The Wire”, conta-se a história de que quando a série estava a ser exibida nos EUA, houve escutas de investigações policiais que gravaram suspeitos de tráfico de droga enquanto viam a série. “The Wire” retratava tão bem aquele mundo do crime que até entre traficantes havia fãs. Ficção e realidade tocavam-se. “Fariña” conta com uma história ainda mais curiosa.

Esta quarta-feira, 3 de março, estreia a partir das 22h10, na AMC, a minissérie espanhola “Fariña”. No centro da narrativa estão histórias e figuras inspiradas no polémico livro homónimo do jornalista espanhol Nacho Carretero, que expôs o narcotráfico e as relações de poder deste mundo do crime na Galiza.

A minissérie que já integrou o catálogo da Netflix estreou originalmente em Espanha no canal Antena 3, a 28 de fevereiro de 2018. Uma das suas personagens principais é Sito Miñanco, narcotraficante espanhol que se encontra a cumprir pena de cadeia e que na série é interpretado por Javier Rey.

Eis a história curiosa: semanas antes da estreia da série em Espanha, a polícia levou a cabo uma rusga logo pelas sete da manhã na mansão que Sito Miñanco usava em Algeciras. O suspeito foi surpreendido só de calções. Nas buscas levadas a cabo, a polícia encontrou 377 mil euros em dinheiro, escondidos dentro de um sofá. E encontrou também um guião técnico da série “Fariña”.

Semanas antes de o público espanhol conhecer o primeiro episódio da série, já o narcotraficante tinha tido acesso a um guião com diálogos, descrições de cenas e locais de filmagens usados na rodagem. A produtora negou que alguém da sua equipa lhe tivesse entregado o guião, revelou o “El Español” na altura. Mas nunca se chegou a perceber como é que ele o tinha em sua posse.

Javier Rey é Sito Miñanco.

Na altura, Sito Miñanco foi acusado de, a partir da cadeia onde cumpria pena, ter tentado introduzir cerca de quatro toneladas de cocaína. A droga estava num contentor holandês apreendido num navio junto dos Açores. Dezenas de suspeitos foram detidos na mesma operação.

A história de Sito Minãnco, no entanto, começou muito antes. E é para aí que “Fariña” nos leva. A série começa na década de 1980, numa altura em que o setor das pescas entrou em rutura, ficando vulnerável a outros negócios, mais obscuros. A série acompanha aqueles anos de evolução no narcotráfico. E também na altura houve uma ligação portuguesa à série.

Baseada em factos verídicos, os dez episódios da série procuram mostrar como gradualmente grupos rivais galegos fizeram fortuna. Na altura, a Galiza tornou-se uma das maiores portas de entrada de droga na Europa. A investigação em curso na altura, conhecida como Operação Nécora e conduzida pelo célebre juiz Baltasar Garzón (que acusou formalmente o ditador chileno Pinochet), levou alguns narcotraficantes a fugir à detenção.

Alguns procuraram refúgio noutras paragens, incluindo Portugal. Josefa, a filha do poderoso Manuel Charlín (interpretado por Antonio Durán ‘Morris’), outro narcotraficante galego retratado na série, foi detida em 2000 em Portugal. O pai é mais um daqueles casos em que a ficção e realidade se tocam. Manuel Charlín não só viu “Fariña” como se queixou da forma como foi retratado no ecrã. Segundo o próprio, ele não batia tanto nos filhos como a série sugeria.

A série foi elogiada pela sua dinâmica. Menos violenta do que “Narcos”, não deixou de encontrar o seu espaço, entre a ação e o drama, no mundo bem rico das séries sobre o submundo da droga. Já o livro em que se inspirou também não escapou a polémicas.

A investigação de Nacho Carretero, lançada originalmente em 2015 e que se popularizou ainda mais com o sucesso da série, chegou a ser alvo de providência cautelar. Um ex-autarca acusou o autor de ofensas à honra. Durante alguns meses o livro esteve impedido de ser vendido nas livrarias, até que um juiz determinou o levantamento da suspensão. Aconteceu numa altura em que o livro já havia sido editado em Portugal (e cá continuava à venda sem restrições).

Nacho Carretero teve oportunidade de visitar as filmagens da série que agora podemos (re)descobrir no AMC. São dez episódios sobre o que já foi o império do narcotráfico na Galiza, mas com uma certeza em aberto: as coisas mudaram mas continua a haver cocaína que chega à Europa através da região.

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