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Crítica: shame ao vivo no Electric Ballroom — Sangue, suor e decibéis

A cura para a depressão da banda de Brixton é uma barragem de suor e decibéis.

"I'd rather be fucked than sad"

À hora que escrevo isto, os meus ouvidos ainda tilintam com a barragem de decibéis a que fui sujeito na última noite. São 6 da manhã e no comboio matutino, só eu e os zombies do costume a caminho de mais um dia de trabalho. A diferença é que hoje não me sinto um dos zombies; ainda estou ligado à corrente, na ressaca de um dos concertos mais viscerais a que assisti nos últimos anos. Sinto-me vivo. Dói-me o corpo todo, não sei se do mosh pit, se das poucas horas de sono. Mas como é que alguém pode dormir depois de uma injecção de adrenalina daquelas?

Os shame (assim, com minúscula) ao vivo no Electric Ballroom, em Camden. O concerto de uma das bandas punk mais entusiasmantes dos últimos anos foi o primeiro com a cobertura NiT em Londres. How about that?

Sangue, suor e decibéis. Há muito tempo que num concerto não sentia o perigo que tudo podia acontecer. E se os decibéis foram muitos — tantos, que ainda ouço um infinito “piiiiiiii” enquanto vos escrevo —, ainda mais foi o suor. A sério. Londres, amo-te, mas por favor, vai tomar banho, que isto não se aguenta quando começa a fazer calor. Tenho dificuldades em vos descrever o fedor da torrente de transpiração que inundava o Electric Ballroom. Os U2 podem prometer uma experiência de realidade aumentada, mas acreditem, nada vos desperta tanto os sentidos como uma barragem de transpiração. Fica a ideia para o Bono.

O que é mais curioso é que terá sido exactamente este cheiro esmagador que me fez sentir mais vivo. De uma forma perversa, foi isso que distinguiu esta noite como uma experiência visceral e libertadora. Como se de sexo selvagem se tratasse. Senti-me mais perto da verdade, num nirvana sensorial de Rock ‘n’ Roll. Se é que isto vos faz algum sentido.

No Electric Ballroom sentia-se a electricidade de um momento especial. Em palco, a banda exultava em como esta era um grande noite, “apesar” de estarem em North London, dando conta da rivalidade bairrista em Brixton. No mosh pit (onde temo que fosse um dos mais velhos), fervia uma revolta contra coisa nenhuma que fazia levantar aquela tromba de transpiração. Na tenda de merchandise, a crew dos shame — composta por amigos da banda — comentava que este era o maior concerto de sempre do grupo. Um longo caminho tinha sido percorrido desde os bares de Brixton.

A noite terminou com gritos gameofthronianos de “shame! shame! shame!” e quem esteve no Electric Ballroom naquela noite levou para casa uma cura para a depressão. Eu ainda trouxe comigo o vinil cor-de-rosa de “Songs of Praise” — o álbum de estreia dos shame e um dos discos do ano.

“I’d rather be fucked than sad and that’s a start”, dizem os shame no seu maior hit “One Rizla” (sendo que isto hoje é medido em scrobbles no Spotify), numa frase que pode resumir muito sumariamente o propósito da banda de Brixton. Revolta. Num mundo onde a depressão parece assolar meio mundo e onde os sinais de alarme só agora começam a ser ouvidos pela sociedade, até faz sentido gritar que é melhor ser fodido do que estar triste. Lá fora é uma merda e sim, nada de bom nos espera. Mas melhor isso que não fazer nada. Pode ser uma revolta contra coisa nenhuma, mas não deixa de ser um abanão contra a letargia do quotidiano.

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