Europa

Svalbard: a ilha onde todos enlouquecem (mas que tem a salvação da Humanidade)

No inverno, alguns moradores jogam a vida na roleta russa, tal é a depressão. Até teve de ser imposto um limite mensal ao consumo de álcool.
O maior desafio é não enlouquecer (e ficar sóbrio).

Todos nós já ouvimos dizer que a única coisa garantida na vida é a própria morte. No entanto, há quem decida não abraçar esta ideia, quase que proibindo este acontecimento natural dentro do seu território. É o que acontece em Svalbard, uma ilha situada no norte da Noruega e que é o local habitado mais perto do Pólo Norte. Os argumentos dados para este decreto, porém, fazem bastante sentido — e têm até razões históricas.

No século V antes de Cristo, os gregos declararam que não se podia morrer na ilha Delos, visto que se tratava de um espaço sagrado. Em Longyearbyen, a capital da ilha norueguesa de Svalbard, as razões não são espirituais, mas sim práticas. Estando localizada acima do círculo Polar Ártico, nunca se sente calor. Na verdade, as temperaturas podem atingir os 32 graus negativos. Isto significa que o solo está permanentemente gélido, mesmo com a subida (moderada) dos valores dos termómetros durante o verão.

Este fenómeno de permafrost (uma camada formada por gelo, rocha e matéria orgânica que se mantém abaixo de 0º C por, pelo menos, dois anos consecutivos) faz com que os corpos nunca se decomponham — é como se estivessem numa daquelas câmaras de criogenização que vemos nos filmes. O grande problema é que estes cadáveres representam um risco de saúde pública, uma vez que os vírus e doenças não morrem totalmente, apenas ficam congelados.

Foi na década de 50 que os moradores se começaram a aperceber que, possivelmente, morrer ali não seria a melhor ideia. Nessa altura, decidiram fechar o cemitério. Ainda bem que o fizeram. Umas décadas depois, cientistas que estudavam o permafrost descobriram que um dos corpos lá enterrados ainda continha o vírus Influenza, que dizimou 5 por cento da população mundial em 1918. Tendo isto em consideração, podemos dizer que “banir” a morte, ou pelo menos impedir que aconteça dentro do território, é uma decisão razoável.

Mas afinal, o que acontece quando alguém acaba por falecer nesta ilha curiosa? A resposta é simples. O corpo tem de ser cremado e enterrado dentro de uma urna. Já uma pessoa em estado terminal será levada para Olso, onde pode viver os seus últimos dias.

Curiosamente, não morrer em Svalbard é um verdadeiro desafio. Os perto de 2500 cidadãos têm legalmente de andar com uma arma ao ombro sempre que saem de casa. Esta é a única forma de afugentar os cerca de 3000 ursos polares que habitam por ali. Não é exagero, é relativamente comum haver ataques de ursos que acabam mesmo em tragédia.

Uma região dada ao álcool

Se pensa que em Portugal bebemos muito, é porque nunca conheceu Svalbard. Durante o inverno, a noite dura quatro meses, o que acaba por afetar o nosso relógio mental. Podemos achar que estamos no fim do dia, quando na verdade ainda nem são 16 horas e já temos três canecas de cerveja vazias à nossa frente.

“Aqui, as pessoas bebem muito mais durante o inverno”, conta uma local ao jornal britânico “Independent”. As bebidas alcoólicas também têm a capacidade de nos manter mais quentes, algo absolutamente necessário naquela região.

Uma empresa de estatísticas da Noruega realiza um novo estudo todos os anos, e o resultado acaba por ser sempre o mesmo: nenhum local do país consome tanto álcool quanto Svalbard. Pelos vistos, a cultura da bebida pode datar ao início de 1900, com origem nas minas locais.

“As minas eram sítios assustadores e perigosos, onde mortes e ferimentos graves eram comuns. Beber muito tornou-se parte da nossa cultura, especialmente durante o inverno sempre escuro”, diz um guia local.

Foram implementadas algumas regras para tentar resolver este problema, mas não terão sido especialmente bem pensadas. Os cidadãos têm um limite mensal de 24 cervejas ou dois litros de bebidas destiladas. No entanto, não há nenhum limite quanto à quantidade de vinho que podem consumir.

“Estamos muito mais ocupados durante os meses escuros. As pessoas abrandam e ficam em casa, enquanto que no verão há luz durante quase 24 horas então têm muito mais para fazer”, explica uma funcionária de uma loja da ilha.

A noite permanente leva qualquer um à loucura

Além do relógio mental ficar desregulado, a noite constante no inverno acaba por levar muitos dos habitantes da capital à loucura. “Os homens costumavam enlouquecer na escuridão, e jogavam à roleta russa com armas carregadas”, diz outra local ao “Independent”.

A espiral descendente era também influenciada pelo facto de estarem isolados do resto do mundo. Devido ao frio, a água congelava e era impossível alcançarem a terra principal de barco.

“Antes dos primeiros voos comerciais começaram por meados da década de 1970, o gelo do mar congelava os barcos, cortando-nos do resto do mundo. Não havia maneira de entrar, nem havia maneira de sair. Apenas tínhamos uma noite implacável que durava mais de 100 dias”, acrescenta.

A salvação da Humanidade pode estar em Svalbard

O Silo Global de Sementes de Svalbard é também conhecido como o Bunker do Apocalipse. É neste edifício que estão guardadas as sementes mais importantes do mundo e que poderão ser usadas para repovoar a Terra em caso de uma catástrofe global. As temperaturas gélidas da região garantem a sua conservação.

O edifício conserva as sementes a uma temperatura de -18 graus, através de um sistema elétrico que garante que as sementes não ficam comprometidas no caso de o sistema falhar, já que podem ser mantidas pelo pergelissolo. Por outras palavras, pelo solo que está constantemente congelada no Ártico. As portas do espaço abrem pouquíssimas vezes por ano, para que as sementes não sejam expostas ao mundo exterior.

A 14 de fevereiro foram depositadas mais sementes, oriundas do Sudão, Uganda, Nova Zelândia, Líbano e Alemanha. Também a Síria depositou oito mil sementes, após ter retirado algumas em 2012, devido à guerra que decorria no país.

“O facto das sementes destruídas na Síria terem sido sistematicamente reconstruídas mostra-nos que o cofre funciona como um seguro para os stocks de comida atuais e futuro”, conta à “Reuters”, Anne Beathe Tvinnereim, a ministra de desenvolvimento internacional.

Como chegar lá

Caso queira conhecer aquela região com uma realidade tão diferente da nossa, basta apanhar um avião para o aeroporto local. Uma viagem com partida em Lisboa custa desde 475€. Do Porto, encontra voos por 519€ para os próximos meses. Os voos fazem paragens em Munique, Oslo e Tromsø.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT