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Chefchaouen: a misteriosa cidade azul que fica mesmo aqui ao lado

É um oásis no habitual calor marroquino. Uma cidade instagramável emoldurada por duas montanhas gigantes. Um destino a não perder.
A "cidade azul" de Marrocos.

Por ali é tudo azul: ruas, escadas, casas. Nada escapa à cor com que toda a velha cidade marroquina foi pintada, ela que é considerada por muitos como a medina mais bonita do país. É igualmente um dos locais favoritos para descontrair do caos das grandes cidades da região e encontrar refúgio do impiedoso sol africano.

Falamos de Chefchaouen, também conhecida pela Cidade Azul, onde até há uns anos era possível conhecer a dinâmica e o quotidiano dos habitantes locais, comprar produtos originais nos mercados tradicionais e, ao mesmo tempo, avistar as montanhas e a imensidão de vegetação que a rodeia. Mas com a fama mundial pelo seu panorama quase cem por cento azul, transformou-se num destino instagramável e com o título, chegaram milhares de visitantes.

Chefchouen encontra-se no sopé das montanhas Rif a 600 metros, com a montanha de Jebel el-Kelaa atrás de si e Jebel Tisouka também por perto. Existem cerca de 125 mil hectares de floresta perto da cidade azul, sendo considerada uma das regiões mais ricas no que toca a sua diversidade biológica — sobretudo notória no Parque Nacional Talassemtane, um lar de lontras, macacos e centenas de aves que habitam nos desfiladeiros e falésias. Quem pode falar com conhecimento de causa é Natália Moreno, professora assistente na Universidade de Coimbra e consultora jurídica, que tem uma paixão por viajar de mochila às costas e que passou por Chefchouen por duas ocasiões, em 2012 e 2018.

“Já tinha tido a experiência de viajar um pouco pelo Brasil e também pela Europa, antes de vir morar para Portugal, em 2012. Mas foi sempre num esquema de viagem diferente — desde logo, porque nem tinha mochila, viajava sempre de mala”, brinca. “A vibe da viagem era muito diferente, muito menos exploratória.” Assim, em agosto, “o mês mais quente possível”, partiu rumo a Marrocos.

“A primeira impressão foi terrível, depois quando voltei em 2018 a minha opinião mudou bastante”. Sentiu que era um país com infraestruturas “pouco desenvolvidas, transportes péssimos e pouco aberto ao turismo”, sobretudo para ocidentais. Além do calor e do caos, descreveu as primeiras impressões como “um choque cultural difícil de assimilar”.

Pelo contrário, encontrou um dos encantos secretos da região. “Desde o primeiro momento, gostei muito das pessoas. Senti que eram muito recetivas e solidárias, existia um sentido de comunidade muito grande”, conta. Pôde comprová-lo precisamente na visita improvisada à Cidade Azul. “Não estava no meu roteiro, mas três viajantes que se encontravam no meu hostel, em Fez, não paravam de falar sobre a experiência. Convencida, no dia seguinte foi para lá.”

“A cidade é única, tem uma energia singular”, nota. “Todas as casas, escadas e ruelas estão pintadas de azul. No horizonte avistam-se duas grandes montanhas e a fonte de água natural onde os mais novos tomam banho e se lavam as roupas nos tanques públicos — parecia saído de um poema. E o azul é uma cor que dá uma paz muito grande, transfere uma energia muito positiva”. 

Chefchaouen foi fundada em 1471 quando os mouros e judeus fugiam de Espanha, na altura da Reconquista e da Inquisição Espanhola. Esta pode ser uma explicação para a atmosfera tão andaluza, mais patente na arquitetura. No entanto, há quem acredite que foram as forças portuguesas que atacaram a região, sob o comando de Afonso V. O resultado levou a uma composição de habitantes Ghomaras, tribos do norte de Marrocos, Muriscos, de ascendência muçulmana, e os judeus que fugiam da Península Ibérica.

À medida que as ameaças portuguesas e espanholas pareciam amenizar-se, uma pequena medina surgiu em torno da antiga fortaleza. Os refugiados judeus e muçulmanos que por lá se instalavam, faziam aumentar a população. Devido à ameaça ibérica, a cidade era interdita a cristãos e à maior parte dos europeus até ao início do século XX.

Curiosamente, só há registo de três viajantes europeus que entraram furtivamente em Chefchaouen e todos eles tiveram de se disfarçar. Walter Harris, um jornalista inglês que se fez passar por comerciante mouro de Fez, em 1889, concluiu num dos seus artigos que “era uma total impossibilidade para um cristão visitar a cidade”. Talvez por isso Natália tenha sentido essa ligeira hesitação quanto a turistas ocidentais que visitavam o país. 

No entanto, as fachadas completamente azuis só surgiriam mais tarde. Uma das teorias mais populares é que, após a Segunda Guerra Mundial, a comunidade judaica cresceu na área, fugindo à perseguição nazi. O azul começou a ser pintado pelas ruas, paredes, e degraus como uma espécie de prática religiosa, onde a cor representa a cor do céu, conectando assim a cidade a Deus. Nos anos seguintes, o resto da região seguiu o exemplo, sobretudo por motivos estéticos e turísticos. 

Quanto aos locais a visitar, Natália não recomenda nenhum em específico. Pelo contrário, defende que o ideal é “deixar-se perder na cidade” — até porque é pequena. “Se tiver pernas e fôlego, consegue visitá-la num dia.” A mochileira garante que será inevitável encontrar cantos especiais a toda a hora, seja perto de uma casinha ou dumas escadas, com a vista excecional da montanha, sempre a acompanhar.

Ainda assim, não deixa de referir a praça central, que “é sempre de recomendar”. “Aí sente-se imenso a energia da cidade, vê-se o dia a dia das pessoas e as dinâmicas de convivência.” É também possível, perto do rio ver as mulheres locais a lavar a roupa nos tanques. Também ou souks marroquinos são uma experiência sensorial a não perder. Os mercados valem ainda mais a pena às segunda e quintas, quando os agricultores descem das montanhas para vender os seus produtos — não se esqueça que o queijo de cabra é obrigatório. O têxtil e o cabedal são predominantes, mas também vai encontrar roupa regional e cobertores tradicionais. 

“Se se subir um pouco mais para dentro da montanha, existe todo um turismo e natural que pode ser feito”, explica. A 45 minutos de carro, em Akchour, uma pequena localidade, com um conjunto de casas junto de um riacho, é onde pode caminhar em direção às famosas cascatas do local, cercadas por uma exuberante vegetação. Pode também explorar as proximidades do rio Oued Farda até à Ponte de Deus — uma formação de rochas, onde um enorme arco cor de argila une dois planaltos montanhosos escarpados. 

Encontrar estadia foi uma experiência fora do comum para Natália, que teve que bater de porta em porta até encontrar lugar para dormir. “As pessoas foram indicando lugares com um quarto ou um espaço, porque não havia quase nenhum hotel ou hostel”. Embora, atualmente, a cidade se encontre muito mais dominada pelo turismo, em 2012 era muito pouco popular.

“Acabei por ficar num quarto que havia no terraço de uma casa, tudo negociado na hora”, diz. “Foi uma coisa muito surreal, mas ao mesmo tempo, senti muita confiança, não senti perigo.” “Não sei se é por causa da religião, mas são todos muito respeitosos aqui”. A melhor parte, segundo conta, foi a oportunidade de interagir com a família que a hospedou, especialmente por ter jantado a última refeição do Ramadão com eles. 

Apesar do caos que sentiu ao longo da viagem, a mochileira nunca deixou de frisar o sentido comunitário e solidário que se sente em Marrocos. “Um pouco por todos os locais de origem árabe por que já passei, foi possível vivenciar essa união e partilha”, confessa. “É bem diferente da nossa sociedade ocidental, mais individualista e capitalista”.

Termina deixando o conselho de que “enquanto turistas, devemos fazer um esforço para não descaracterizar os locais que visitamos” — algo que verificou em 2018, quando regressou a Chefchouen, onde tudo se encontrava pensado para o turista, e não tanto para o habitante local. 

Como lá chegar

Por incrível que pareça, encontra voos a apenas 15€ do Aeroporto de Lisboa até ao de Tânger — um dos mais próximos de Chefcahouen a par com o de Fez — numa simulação feita para 10 de junho. No entanto, chegar até à cidade não é muito fácil, sendo a opção mais comum alugar um carro. Contudo, pode sempre optar por uma viagem de autocarro. De Tânger a Chefchaouen, a duração da viagem é menos de 3 horas e fica apenas a 8,69€

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