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Esta floresta parece inocente, mas esconde um segredo macabro

Dezenas de pessoas que lá entram não têm intenção de sair. O fenómeno já inspirou algumas produções de Hollywood.
A floresta dos suicídios.

“Pense, em silêncio, mais uma vez nos seus pais, irmãos ou filhos”, diz a placa em japonês. “Por favor, não sofra sozinho, e primeiro estenda a mão”. Na entrada da floresta, o texto lembra os visitantes de que “a vida é um presente precioso”. O objetivo? Demover ideias suicidas. E não é por acaso.

A reputação sombria existe há décadas: a floresta Aokigahara é a mais escolhida pelas pessoas que querem cometer suicídio. Estávamos em 2018 quando uma polémica invadiu as manchetes dos jornais. O youtuber americano Logan Paul publicou um vídeo na sua página onde aparecia um corpo de uma aparente vítima de suicídio no Japão. Muito criticado, abriu um debate sobre privacidade e respeito nas redes sociais. Ao mesmo tempo, colocava, inadvertidamente, este spot nas bocas do mundo.

A floresta de Aokigahara, onde Paul e os seus amigos gravaram imagens do corpo (enquanto riam e faziam piadas), é conhecida no Japão como o local onde dezenas de pessoas vão, anualmente, para tirar as próprias vidas. O número exato de mortes no local não é divulgado, mesmo para não estimular a sua procura. A verdade é que o país tem uma das taxas de suicídio mais elevadas do mundo.

Localizada a noroeste do icónico Monte Fuji e a cerca de 100 quilómetros de Tóquio, ocupa uma área de 30 quilómetros quadrados de lava escura enrijecida e de vegetação densa. Cenário ideal para filmes de terror, não é surpresa, portanto, que tenha servido de inspiração de alguns filmes de Hollywood. O “Sea of Trees” (2015), de Gus Van Sant com Matthew McConaughey e o filme de terror de 2016 “The Forest”, por exemplo, basearam-se no macabro fenómeno que aqui acontece.

Antes disso, já um polémico e popular livro dos anos 90, do escritor Wataru Tsurumi — “The Complete Manual of Suicide” — tinha descrito Aokigahara como “o lugar perfeito para morrer”. Ainda assim, foi só nas últimas décadas que o local passou a ser visto como um ponto de suicídios. Algumas autoridades japonesas atribuem esse título ao livro “Tower of Waves”, romance de 1961 do escritor Seicho Matsumoto, em que um casal de amantes tira a própria vida na floresta.

Quem aqui entra não vai ouvir nada para além de silêncio. Com vegetação densa e ausência quase absoluta de vida selvagem, Aokigahara impressiona pela serenidade e pelas suas curiosas formações rochosas.

Por todo o lado, encontram-se cartazes que disponibilizam informações sobre atendimento telefónico anti-suicídio e serviços de apoio psicológico. As autoridades japonesas também patrulham o local para identificar potenciais suicidas, além de instalar câmaras de segurança. Trabalhadores do comércio local também se voluntariam nos esforços de prevenção e, aliás, o dono de um café na entrada do bosque disse ao jornal “Japan Times” já ter resgatado cerca de 160 pessoas ao longo dos 30 anos em que trabalha ali.

O fenómeno tem sido estudado. Afinal, porque motivo as pessoas se sentem atraídas em vir aqui morrer? Há três décadas, um psiquiatra japonês que entrevistou alguns sobreviventes de suicídio de Aokigahara escreveu que um dos principais motivos era que “eles acreditavam que seriam capazes de morrer com sucesso sem serem notados”. Yoshitomo Takahashi defende que os filmes e as reportagens feitas também podem ter tido um papel influenciador.

A antropóloga Chikako Ozawa-de Silva da Universidade Emory vê um potencial paralelo ao processo de pensamento em torno da floresta: “Muitas pessoas cometeram suicídio em Aokigahara; assim você não vai morrer sozinho.”

Numa região tradicionalmente associada à morte, acredita-se que o local tenha sido usado anteriormente para o antigo costume de ubasute — uma prática que era realizada em tempos de guerra e de dificuldade no Japão na qual os idosos eram abandonados para morrer em épocas de escassez de alimentos e de seca prolongada. O costume resultou numa lenda de que os fantasmas dos idosos habitam a floresta.

Para lá chegar, basta fazer uma viagem de duas horas de carro desde Tóquio. Se está a pensar visitar o local que tanto tem fascinado os turistas, saiba que o ambiente é frio e que abriga uma grande variedade de flora e fauna, incluindo veados, raposas, coelhos selvagens e vários tipos de pássaros. Passear por lá implica um grande cuidado e não há GPS ou bússolas que ajudem a que não se perca. O solo tem um alto teor de ferro que interfere nos sinais de GPS e telemóvel.

Se, ao contrário da maioria das pessoas que lá entra, tem intenções de sair, recomendamos que permaneça nos trilhos assinalados. Afinal, este é um lugar em que facilmente os visitantes se podem perder.

Carregue na galeria para ver algumas imagens da floresta que esconde um dos segredos mais macabros de sempre.

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